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Antonin Baudry transforma o exílio londrino de De Gaulle em um épico de guerra em duas partes

Liv Altman

Um país acabou de assinar o fim da própria guerra, e um general de brigada decide que aquela capitulação não o obriga. É esse o motor inteiro de De Gaulle: Résistance —cujo título original em francês é La bataille de Gaulle: L’âge de fer—, a primeira parte do díptico de Antonin Baudry, e sua ousadia está em tratar uma lenda nacional fundadora como um thriller do isolamento. Um homem sem exército, sem mandato e quase sem aliados, apostando que uma voz transmitida por uma rádio estrangeira pode sobreviver a um documento assinado em casa.

Baudry, que adapta a biografia do historiador Julian Jackson ao lado de Bérénice Vila, ergue o filme em torno desse vazio de autoridade, e não de um campo de batalha. Seu De Gaulle ainda não é a figura de granito da mitologia posterior: é um exilado rígido e obstinado em Londres, às voltas com um establishment britânico que o considera ao mesmo tempo útil e insuportável. A tensão é administrativa antes de ser militar. Quem reconhece quem, qual assinatura conta, qual apelo acaba sendo lançado: o filme entende que, em pleno colapso, eram essas as perguntas que decidiam tudo. O apelo radiofônico hoje canônico, que quase ninguém ouviu na noite em que foi ao ar, ocupa o centro da narrativa como um gesto de improviso, e não como uma virada escrita de antemão.

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Essa leitura se apoia inteiramente no elenco, e é aí que o filme mostra suas cartas. Simon Abkarian, ator de palco de considerável gravidade e não um sósia de ocasião, vive De Gaulle como um estrangeiro tenso e consciente de si, encenando sem descanso uma segurança que ainda não pode reivindicar de nenhuma instituição. Diante dele, Simon Russell Beale dá a Churchill a densidade de um homem que pesa um francês incômodo contra a aritmética mais ampla da guerra. Construir o filme sobre dois pesos-pesados do teatro, e não sobre o espetáculo, diz muito do projeto de Baudry: uma peça de câmara sobre reconhecimento, vestida na escala de uma epopeia.

Baudry chega a esse material com uma trajetória singular. Ex-diplomata que passou anos no Quai d’Orsay, tirou desse mundo a graphic novel que deu origem à sátira política Quai d’Orsay, antes de estrear na direção com o claustrofóbico thriller submarino O Canto do Lobo. As duas obras já falavam, no fundo, de gente que decifra sinais numa sala fechada e decide em quem confiar. De Gaulle no exílio é o mesmo problema em escala nacional, o que talvez explique a afinidade: o diretor filma a arte de governar como uma sucessão de conversas nervosas e de alto risco, não como um desfile.

Vale colocar o filme ao lado do De Gaulle mais recente levado às telas, o retrato íntimo de Gabriel Le Bomin, centrado no casamento e nos primeiros apelos, que mantinha o homem no doméstico e a História num desfoque ameno. Baudry segue o caminho oposto, rumo à tradição mais dura do cinema da Resistência: o frio moral de O Exército das Sombras, de Jean-Pierre Melville, em que o heroísmo é sobretudo logística, medo e espera. O que o novo filme herda dessa linhagem é uma desconfiança da grandeza; o que atualiza é a coragem de pôr no centro uma figura ainda mitificada e deixá-la áspera, ríspida, quase antipática.

Resta saber se o conjunto justifica sua duração. Dividir a história em um díptico, com um segundo filme por vir, atende tanto à estratégia de distribuição quanto à necessidade dramática, e o risco de a reverência voltar a galope é real ao longo de quase duas horas e quarenta por parte. O molde do homem providencial é difícil de evitar depois que se reúne um elenco de prestígio para preenchê-lo, e um filme sobre um homem convicto de seu destino pode acabar concordando com ele. Exibido fora de competição em Cannes —uma vitrine escolhida, não um veredicto do júri—, o filme deixa para a segunda parte a tarefa de decidir: um exame crítico genuíno de De Gaulle ou um monumento elegante à sua glória.

Simon Abkarian as Charles de Gaulle in the Antonin Baudry film De Gaulle Résistance 2026
Simon Abkarian as Charles de Gaulle in De Gaulle: Résistance (2026)

Em torno dos dois protagonistas, Baudry reúne um banco denso de intérpretes franceses. Benoît Magimel vive o general Koenig, Mathieu Kassovitz o comprometido almirante Darlan, Niels Schneider o futuro libertador Leclerc, Loïc Corbery o político René Pleven e Anamaria Vartolomei o papel inventado de Livia, janela ficcional para o entorno do general. A Pathé produz e distribui, com TF1 Films Production e Auvergne-Rhône-Alpes Cinéma entre os parceiros: a maquinaria industrial que a França reserva a seus grandes filmes nacionais.

De Gaulle: Résistance, primeira parte do díptico, foi exibido fora de competição no Festival de Cannes e chegou aos cinemas franceses em 3 de junho. Cada parte tem cerca de 160 minutos. A segunda parte, intitulada Liberté na distribuição internacional, leva a história até a Libertação. Por ora não há estreia brasileira confirmada, algo esperado em uma superprodução francesa desse porte; a aposta comercial por trás da ambição histórica é se o público vai acompanhar, ao longo de dois filmes, um homem que boa parte do mundo mal reconhece hoje.

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Fotos: The Movie Database (TMDB)

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