Filmes

Dan Lin fez do não da Netflix ao cinema um filtro para diretores

Jun Satō
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Com Dan Lin no comando do cinema da Netflix, exigir uma estreia nas salas deixou de ser moeda de negociação: virou o motivo pelo qual o diretor não recebe a ligação, e a plataforma registrou uma única exceção.

Dan Lin colocou em palavras claras o que a divisão de cinema da Netflix vinha sinalizando havia dois anos. Questionado pelo New York Times sobre os diretores que não abrem mão de uma estreia nos cinemas, o presidente da Netflix Film não os tratou como um grupo a ser conquistado. “Há um grupo de cineastas que ainda quer as salas”, disse. “São cineastas com quem aceitamos que simplesmente não vamos trabalhar.” Na mesma entrevista, ele citou uma única exceção, “Narnia: The Magician’s Nephew”, de Greta Gerwig, e nenhuma outra.

A frase pesa por causa do que a Netflix oferecia antes para atrair justamente esses cineastas. Na gestão de Scott Stuber, que comandava o cinema antes de Lin, a plataforma pagava o prestígio com telas. “Roma”, de Alfonso Cuarón, “O Irlandês”, de Martin Scorsese, e “Ataque dos Cães”, de Jane Campion, passaram pelos cinemas antes de chegar ao serviço, quase sempre em temporadas curtas e em salas independentes, porque as grandes redes americanas se recusavam a exibir filmes que estariam no streaming poucas semanas depois. “O Irlandês” acabou em cartaz no Belasco Theatre, na Broadway. Eram lançamentos modestos, mas eram a gentileza que levava os autores à mesa, e dois desses filmes, “Roma” e “Ataque dos Cães”, renderam a seus diretores o Oscar de melhor direção.

Lin chegou ao cargo por outra porta do mercado. Foi executivo de produção da Warner Bros. por anos antes de se tornar produtor independente, e sua empresa, a Lin Pictures — depois rebatizada como Rideback —, esteve por trás de “Uma Aventura LEGO” e da adaptação de 2017 de “It: A Coisa”, o romance de Stephen King. Foram dois filmes de vida comercial longa, que encontraram seu público sem campanha em festivais. A Rideback também produziu a série live-action “Avatar: O Último Mestre do Ar” para a plataforma, então o produtor que assumiu a Netflix Film em abril de 2024 já sabia como o serviço mede sucesso.

A própria descrição que ele faz do cargo explica a regra melhor do que a frase que circulou por toda parte. “Como tenho um catálogo enorme, meu trabalho é muito diferente do de outros presidentes de estúdio”, disse ao Times. “Não posso impor meu gosto ao catálogo. Mas posso impor um jeito de fazer filmes, um jeito de trabalhar com os cineastas.” O objetivo, nas palavras dele, é “fazer o filme favorito de alguém dentro de um gênero específico, apostar em variedade e qualidade e tornar a Netflix o melhor lugar para os cineastas trabalharem”.

É o vocabulário de um gestor, não de um cinéfilo, e faz sentido dentro de si mesmo. Quem supervisiona títulos demais para acompanhar um por um estabelece regras, e o modelo de lançamento é uma delas. Nessa lógica, o diretor que exige janela nos cinemas não está pedindo um favor para um filme. Está pedindo uma exceção ao funcionamento do catálogo inteiro — e Lin já avisou que a resposta é não.

O que ele quer no lugar está bem definido. Lin citou comédias, comédias românticas e adaptações literárias, e apontou como modelo “People We Meet on Vacation”, a versão do romance de Emily Henry estrelada por Tom Blyth e Emily Bader. O filme somou mais de 17 milhões de visualizações no primeiro fim de semana, e Emily Bader já está escalada para outros dois filmes da Netflix. Esse é o perfil do catálogo que ele está montando: orçamento médio, gênero bem marcado, muitas vezes um livro como ponto de partida, e um sucesso medido em audiência, não em temporada de prêmios.

Os testes nas salas contam a mesma história pelo outro lado. “Guerreiras do K-Pop”, o musical animado que virou um dos filmes originais mais vistos da Netflix, foi para os cinemas em sessões de cantoria durante dois dias e estreou em primeiro lugar nas bilheterias americanas com mais de 19 milhões de dólares, a primeira vez que um lançamento da Netflix liderou o ranking. Voltou às salas no Halloween. Mesmo assim, Ted Sarandos, co-CEO da empresa, insistiu que não há “nenhuma mudança na estratégia”. Um sucesso na tela grande foi tratado como evento, não como precedente.

Os diretores de prestígio continuam trabalhando com a Netflix, mas no calendário da Netflix. David Fincher, que lançou “Mank” e “O Assassino” pela plataforma, dirige a continuação de “Era Uma Vez em… Hollywood”, com roteiro de Quentin Tarantino e Brad Pitt de volta como Cliff Booth. O filme deve ficar duas semanas em salas IMAX a partir do feriado de Ação de Graças antes de chegar aos assinantes em 23 de dezembro. “Wake Up Dead Man”, terceiro mistério da série “Entre Facas e Segredos”, de Rian Johnson, seguiu um roteiro parecido no ano passado. Uma temporada curta em telas premium funciona como tática de lançamento; não é uma janela de exibição no sentido que os exibidores dão ao termo.

“Narnia” é o único projeto que cruza essa linha. A adaptação de Gerwig de “O Sobrinho do Mago”, de C. S. Lewis, com um elenco que inclui Daniel Craig, Carey Mulligan e Meryl Streep, foi planejada de início para salas IMAX no Dia de Ação de Graças, com estreia no streaming no Natal. A Netflix acabou optando por um lançamento amplo nos cinemas: pré-estreias em IMAX a partir de 10 de fevereiro de 2027, estreia geral em 12 de fevereiro e chegada à plataforma em 2 de abril. Esse intervalo de cerca de 45 dias é o tipo de janela que os exibidores reivindicam, e faz de “Narnia” o primeiro filme da Netflix a ter uma.

Lin apresenta o caso como a exceção que deixa a regra intacta, e o raciocínio não é difícil de reconstruir. Gerwig chega com “Barbie”, a maior bilheteria mundial de 2023, no currículo, e Nárnia é uma marca com longa história própria nas bilheterias. Pouquíssimos cineastas podem levar essa combinação a uma negociação. Lida assim, a exceção se parece menos com uma brecha do que com uma tabela de preços: a janela existe na Netflix, mas apenas para um poder de barganha que quase ninguém mais tem.

Para os diretores que ficaram do outro lado, a consequência é prática. Quem precisa de uma estreia nos cinemas — para financiar o projeto, para a corrida de prêmios ou simplesmente porque filma pensando na tela grande — já sabe, antes da primeira reunião, que a Netflix não vai ser sua compradora. Outros estúdios ainda oferecem a janela, e parte dos talentos que chegaram à Netflix pelos orçamentos e pela liberdade criativa vai levar seus projetos para lá. A aposta de Lin é que o catálogo não precisa deles: que uma oferta ampla e constante de filmes de gênero alcança mais espectadores do que um punhado de candidatos ao Oscar.

Se a aposta vai dar certo, vai aparecer nos números de audiência que a Netflix escolher divulgar e nos nomes que, sem alarde, deixarem de aparecer em seu calendário. O que já mudou é que a política deixou de ser implícita. Scorsese e Cuarón ajudaram a Netflix a se tornar um estúdio de cinema crível no fim dos anos 2010; o atual chefe de cinema da empresa disse, publicamente, que o futuro do estúdio não depende de diretores que pensam como eles. A regra da porta está escrita e, por enquanto, traz um único nome.

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