Filmes

Dan Lin transforma o “não” da Netflix às salas em um filtro de talento, não em negociação

Jun Satō

Quando a Netflix montou seu negócio de cinema, a estreia nas salas foi a concessão que fez ao prestígio. A gestão de Scott Stuber colocou «Roma», «O Irlandês» e «Ataque dos Cães» em uma exibição mínima de cinemas, atrás de Oscars e, mais discretamente, dos autores que só assinavam se sua obra tocasse uma tela de verdade. Dan Lin agora reformulou essa concessão como motivo de descarte. Os diretores que insistem em uma estreia nas salas, diz ele, não são talento com quem negociar: são talento sem o qual a Netflix decidiu viver.

Como a Deadline adiantou a partir de uma entrevista ao The New York Times, o presidente da Netflix Film foi direto sobre a troca. “Existe um grupo de cineastas que ainda quer as salas”, disse Lin. “São cineastas com quem aceitamos que simplesmente não vamos trabalhar.” O que ele quer no lugar é um catálogo mais amplo e mais barato: mais filmes de orçamento médio, mais variedade de gêneros, “o filme favorito de alguém” em vez do de cada cinéfilo. Um volume de títulos grande o bastante, argumenta, lhe permite impor uma forma de trabalhar em vez de um gosto pessoal.

A postura é uma ruptura limpa com a cartilha de Stuber. Lin — produtor que ergueu a Rideback com «Uma Aventura Lego» e «It: A Coisa», de Stephen King, antes de assumir o cargo em abril de 2024 — aposta que amplitude e repetibilidade vencem o modelo de corte aos festivais que um dia atraiu Alfonso Cuarón, Martin Scorsese, Jane Campion e Rian Johnson com janelas de temporada de prêmios. O autor já não é o prêmio; o sistema é.

Existe exatamente uma exceção, e a Netflix a nomeia com prazer. «As Crônicas de Nárnia: O Sobrinho do Mago», de Greta Gerwig, terá uma estreia ampla de verdade nos cinemas, o tipo de lançamento que Lin retém nos demais casos. Os títulos que ele aponta como molde são menores e mais barulhentos: a comédia romântica «People We Meet on Vacation», que somou mais de 17 milhões de visualizações no fim de semana de estreia, e a animação «KPop Demon Hunters», que passou de 19 milhões de dólares. Até a sequência de «Era Uma Vez em… Hollywood», de David Fincher, e «Wake Up Dead Man», de Johnson, tiveram apenas breves passagens no estilo IMAX: exceções disfarçadas de política.

O filme de Gerwig é a medida de quão rara essa cortesia se tornou. As pré-estreias em IMAX começam em 10 de fevereiro de 2027, uma estreia mundial ampla vem dois dias depois e a chegada à Netflix espera até 2 de abril.

Lin publicou, na prática, a lista de convidados e as instruções do segurança na mesma frase. O próximo Cuarón não será demovido de pedir uma janela nos cinemas: ele simplesmente não terá a reunião, e a única exceção de Gerwig é a porta mantida aberta justamente para que todos a vejam se fechar.

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