Filmes

Zadi e Quenard blefam até a NBA em ‘Le rêve américain’, comédia de história real

Anthony Marciano encena a história real de Bouna Ndiaye e Jérémy Medjana como um blefe que acaba dando certo
Liv Altman

O filme sobre agentes esportivos é um gênero pequeno e meio estranho. Ele pega quem costuma ser uma nota de rodapé no sucesso alheio —o intermediário, o que fecha o negócio, a voz do outro lado da linha— e lhe entrega a história inteira. Le rêve américain, conhecido internacionalmente como The American Dream, faz isso com dois homens que não tinham nada a fazer naquela sala: um repondo fitas num videoclube de província, o outro empurrando um carrinho de limpeza por um terminal de aeroporto, ambos convencidos de que a saída mais rápida de um emprego sem futuro passa direto pela NBA.

É a piada e o motor da comédia de Anthony Marciano, e é, contra todas as probabilidades, verdade. O filme acompanha dois amigos que decidem que o jeito de ficar rico é agenciar jogadores de basquete, sem um único cliente, sem credibilidade e com um inglês sustentado no puro atrevimento. O que lhes falta em qualquer qualificação mensurável, eles compensam em lábia, e o resultado é praticamente um estudo, em longa-metragem, de até onde o atrevimento leva antes de a conta chegar.

YouTube video

Escalar Jean-Pascal Zadi e Raphaël Quenard para a dupla é a declaração de intenções mais clara do projeto. Zadi, que construiu o nome numa comédia que joga o absurdo a sério, faz Bouna, o faxineiro do sorriso mais largo e do blefe mais longo. Quenard, uma das presenças mais inquietas do cinema francês recente, é Jérémy, o do videoclube cuja conversa resolve quase tudo. Nenhum dos dois bajula o personagem: o filme quer que a gente veja o pânico embaixo da pose, e é justamente isso que mantém o golpe engraçado em vez de convencido.

Marciano, também roteirista, vem da comédia popular francesa e mantém o registro leve mesmo quando a aposta sobe de Amiens a Manhattan. Seu instinto é o da dupla —o ritmo de uma amizade que discute a cada obstáculo— e não o da mecânica do negócio. É uma escolha com consequências: deixa o filme caloroso e rápido, mas também mantém o próprio mundo do basquete num desfoque confortável, mais admirado do que examinado.

Os verdadeiros Bouna Ndiaye e Jérémy Medjana não foram inventados para a tela. A partir dos anos noventa, assumiram uma agência em dificuldades, a Comsport, e a transformaram numa das mais poderosas casas de representação do basquete europeu, a ponto de colocar uma geração inteira de jogadores franceses na NBA. O filme se encaixa na linhagem que vai de Jerry Maguire —o que primeiro fez do agente uma figura romântica— a toda comédia de blefe e ambição desde então. Onde aquelas precisavam inventar uma redenção, esta já a tinha guardada no arquivo.

Há também uma tradição mais antiga: a dos europeus se medindo com uma mitologia americana em que só acreditam pela metade. O título não é por acaso. O que Marciano filma é menos a NBA do que a fantasia dela: aquela convicção exportável e resistente de que a reinvenção está ao alcance de quem falar rápido o bastante. O filme rende mais quando trata essa fantasia como golpe e plano de negócios ao mesmo tempo, e se recusa a escolher.

O que ele não resolve de todo é se quer interrogar essa história ou apenas curti-la. Agenciar no topo do esporte profissional é um ofício impiedoso e eticamente escorregadio, e um filme feito de charme tem um incentivo óbvio para manter as arestas fora de quadro. O molde de comédia de amigos favorece seus personagens por construção: a audácia que de um ângulo parece heroica, de outro lembra muito a improvisação imprudente. É boa companhia, mas raramente para para perguntar o que diriam os que saíram perdendo nesses negócios.

Raphaël Quenard and Jean-Pascal Zadi in the comedy The American Dream, 2026
Raphaël Quenard and Jean-Pascal Zadi in The American Dream (2026)

Ao lado de Zadi e Quenard, o elenco reúne Etienne Guillou-Kervern e Josh Casaubon, com Gregory Defleur entre os coadjuvantes. A Gaumont produz e distribui, com Quad Films e France 2 Cinéma no projeto, e as filmagens transitaram entre França e Canadá para dar corpo às cidades americanas que a dupla se propôs a conquistar. São cento e vinte e dois minutos e, é preciso reconhecer, a piada nunca se estica além da conta.

Em cartaz na França desde fevereiro e exibido neste inverno no Festival de Cinema de Sydney, Le rêve américain chega aos cinemas espanhóis em 24 de julho; até agora não há data de estreia brasileira nem norte-americana confirmada. Para um filme sobre dois de fora que entraram na conversa, uma estreia mundial escalonada e improvisada soa bastante apropriada.

Elenco

Tags: , , , , ,

Discussão

Há 0 comentários.