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Moria na Netflix: três atrizes, e a própria filha, para a vedete que a Argentina nunca domou

Veronica Loop

Por seis décadas, Moria Casán respondeu a cada tentativa de envergonhá-la com uma frase mais afiada do que a que mirava nela. Devolver o insulto, ficar com o escândalo, negar ao país o pedido de desculpas que ele continuava exigindo: esse reflexo construiu uma carreira e, por muito tempo, a tornou quase impossível de filmar. Uma vida gasta transformando provocação em sobrevivência não cabe no arco arrumado que a biografia de prestígio exige, aquele em que alguém aos poucos se torna si mesmo. Casán nunca quis se tornar ninguém; preferiu seguir sendo várias.

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É essa a aposta de Moria, a série biográfica argentina de oito episódios construída em torno dela, e por isso a produção se recusa a tratar sua protagonista como uma só pessoa. Cecilia Roth, Griselda Siciliani e Sofía Gala Castiglione interpretam Casán em fases diferentes de uma mesma vida, e o elenco triplo é o argumento, não uma jogada de marketing. A série lê Moria Casán como algo remontado conforme a Argentina que estava assistindo: a menina vinda do interior, a vedete que reinou na calle Corrientes quando o teatro de revista era o palco mais barulhento do país, a rainha da televisão que fez de um sofá de estúdio um trono.

A decisão mais exposta é também a mais íntima. A jovem Moria é vivida por Sofía Gala Castiglione, sua própria filha, que entra na juventude da mãe que a trouxe ao mundo, nos anos anteriores ao seu nascimento, diante de um personagem inspirado no próprio pai, Mario Castiglione. Ao ver o material, Casán disse que a filha interpreta o seu DNA como ninguém, e a frase funciona como piada e como tese. Aqui a herança não é um tema que aparece no terceiro ato: está escrita na ficha de elenco.

Javier Van de Couter, que escreveu e dirigiu os oito episódios, recusa a cronologia com a mesma firmeza com que recusa uma protagonista única. A temporada é montada fora de ordem, de modo que causa e consequência colidem em vez de se enfileirar. O teatro de revista, a televisão dos anos de chumbo, as guerras de tabloide e os grandes amores se cruzam até que o fio deixa de ser uma linha do tempo e vira um temperamento. A menina de barro do primeiro episódio não é a semente da diva: já é uma de suas máscaras.

O que eleva Moria acima da homenagem é o que a série diz sobre o país. A Argentina passou anos disciplinando Casán por ser barulhenta demais, sexual demais, popular demais e rápida demais na resposta, para depois, à beira dos oitenta, canonizá-la por esses mesmos traços. O elenco de apoio desenha esse panteão: Micaela Riera como Susana Giménez, Hernán Jiménez como Jorge Porcel, Sebastián Rosso como Alberto Olmedo, Luis Machín como o empresário Carlos A. Petit. É o retrato coletivo de uma cultura popular à qual Moria pertenceu e à qual sobreviveu.

Moria
Moria. (L to R) Sebastian Rosso as Alberto Olmedo, Sofia Gala as Moria, Hernan Jimenez as Jorge Porcel, Micaela Riera as Susana Gimenez in Moria. Cr. Alina Schwartz / Netflix ©️2025

Para a Netflix, a série é uma aposta na memória nacional como estratégia de retenção: devolver aos assinantes argentinos o próprio século por meio da mulher que o narrou em tiradas, no mesmo movimento local que inclui uma futura série sobre a Mafalda. O que a temporada não resolve é se o país ama a mulher ou o monumento que ergueu para substituí-la, aquela estátua citável da One que se pode amar justamente porque não responde mais. É essa fricção que impede a homenagem de aniversário de desabar na nostalgia.

Moria estreia na Netflix como uma primeira temporada de oito episódios, escrita e dirigida por Javier Van de Couter e produzida pela About Entertainment, a produtora de Armando Bó, com Cecilia Roth, Griselda Siciliani e Sofía Gala Castiglione dividindo o papel-título. Chega dois dias antes de Casán completar oitenta anos, o que soa como tributo ou como desafio; com essa personagem, a diferença nunca seria o ponto.

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