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Entre Facas e Segredos reinventa o mistério clássico com humor afiado e crítica de classe

Rian Johnson, 2019: um whodunit de elenco estelar em que a herança expõe a hipocrisia dos ricos.
Martha O'Hara
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Rian Johnson passou a carreira mexendo nas regras dos gêneros. Em Brick (2005), levou um noir dos anos 1940 para um colégio ensolarado da Califórnia. Em Looper (2012), fez de uma aventura de viagem no tempo uma reflexão amarga sobre resolver problemas com violência. Em Star Wars: Os Últimos Jedi (2017), irritou fãs que não aceitavam ver a mitologia da série posta em discussão. Entre Facas e Segredos é um retorno às origens, como observa o Guardian: uma homenagem atualizada aos mistérios de Agatha Christie que o diretor amava na infância, e àquelas adaptações «marotamente autoconscientes» em que Peter Ustinov conduzia um elenco de estrelas por um assassinato labiríntico.

A premissa é de manual, e o filme sabe disso. Harlan Thrombey, autor de romances policiais, é encontrado morto na manhã seguinte ao seu 85º aniversário, com a garganta cortada. Quem o descobre é a governanta, Fran. O tenente Elliott (LaKeith Stanfield) e o policial Wagner tratam o caso como suicídio. O detetive particular Benoit Blanc, contratado por alguém que ninguém identifica, não aceita essa conclusão. A família inteira tinha contas a acertar com o patriarca, e o Guardian lembra que o velho passou a noite da festa «limpando a casa». O filme faz de cada parente um suspeito plausível e gasta a primeira metade distribuindo motivos.

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Daniel Craig é a engrenagem cômica dessa máquina. O Guardian o descreve como um intruso que fuma charuto, joga moedas para o alto e fala com um sotaque do sul dos Estados Unidos propositalmente exagerado, a ponto de Ransom apelidá-lo de «CSI-KFC». O Casey Movie Mania vê nele um detetive à Hercule Poirot, espirituoso e charmoso, e admite que levou algum tempo para se acostumar ao arrastado sulista. O sotaque é um risco, e o risco compensa: Blanc é o homem mais atento da sala sem jamais parecer o mais sério, e a voz arrastada ajuda a esconder o quanto ele enxerga.

Marta Cabrera, a enfermeira de Harlan, ocupa o centro da história. Ana de Armas recebe muito mais tempo em cena do que o resto do elenco, o que surpreendeu até o Casey Movie Mania, para quem este é o melhor papel dela desde Blade Runner 2049. Marta sofre de uma «reação regurgitativa a inverdades», segundo o Guardian: vomita quando mente. A invenção é cômica, mas o roteiro a leva a sério. Como Marta não consegue mentir, dá respostas verdadeiras e incompletas, e o espectador passa o filme medindo o quanto ela esconde. Na leitura do testamento, ela herda toda a fortuna e os Thrombey ficam atônitos. A partir daí o neto Ransom se oferece para ajudá-la a fugir e consegue fazê-la confessar-se a ele.

Em volta de Marta, o elenco divide o espaço de forma desigual. Chris Evans, como o neto “ovelha negra” Ransom, “esbanja privilégio”, nas palavras do Guardian, que o lembra como o parente ouvido discutindo com o avô na noite da festa; o Casey Movie Mania nota que ele se diverte muito no papel do neto imprestável. Michael Shannon, no papel de Walt, cuja fortuna editorial dependia do favor oscilante do pai, interpreta contra o tipo, e o Guardian o descreve como um sujeito «ligeiramente puxa-saco»: um dos retratos mais mesquinhos do filme. Don Johnson faz Richard, genro de Harlan, como um tipo que o Guardian chama de «horror trumpista» de olhar atrevido. Toni Collette, como a viúva Joni, encarna uma guru de estilo de vida que lembra Gwyneth Paltrow, segundo a mesma crítica. Jamie Lee Curtis, como Linda, a filha mais velha, está na melhor forma da carreira, na opinião do Guardian. O Casey Movie Mania, porém, tem uma queixa justa: boa parte desses nomes, incluindo Curtis, Johnson, Collette e Shannon, acaba reduzida a participações estendidas. Quem entra esperando tempo igual para todos sai com a sensação de que atores desse calibre mereciam mais cenas.

A farsa de salão carrega um comentário sobre classe. A obra tem sido lida como uma investigação sobre luta de classes, desigualdade de riqueza, imigração e raça na sociedade americana contemporânea. O Guardian registra que a família se descreve com sarcasmo como um bando de «self-made over-achievers», embora tudo o que tem venha do patriarca, e a enfermeira que cuida dele é quem acaba com a herança. Johnson não precisa sublinhar a ironia. O tom leve permite que a sátira passe como entretenimento, e é isso que a torna mais eficaz do que um discurso explícito.

A ideia vem de longe. Johnson concebeu o filme em meados dos anos 2000, influenciado pelas adaptações cinematográficas de Agatha Christie e pelos mistérios de meados do século XX, e escreveu o roteiro em seis ou sete meses depois de terminar Os Últimos Jedi. Produziu com seu colaborador de longa data Ram Bergman, com dinheiro da MRC e incentivos fiscais do estado de Massachusetts. As filmagens começaram em outubro de 2018 e terminaram em dezembro, na região suburbana de Boston, com orçamento de 40 milhões de dólares. A trilha clássica é de Nathan Johnson e parte das partituras sinfônicas favoritas dele e de Rian. A música sustenta o clima de casarão gótico sem virar paródia.

O filme estreou no 44º Festival Internacional de Toronto em 7 de setembro de 2019 e chegou aos cinemas americanos em 27 de novembro, distribuído pela Lionsgate. Arrecadou 312 milhões de dólares, entrou nas listas de melhores do ano do National Board of Review e do American Film Institute e recebeu três indicações ao Globo de Ouro, uma ao BAFTA e uma ao Oscar de Melhor Roteiro Original. Virou também o primeiro título de uma série que já inclui Glass Onion (2022) e Wake Up Dead Man (2025).

O ponto fraco é o aproveitamento do elenco: o roteiro põe Ana de Armas no centro e deixa vários astros em segundo plano. Em troca, entrega algo raro, um mistério de estrelas feito com astúcia, humor e uma ideia clara sobre dinheiro e herança. Entre Facas e Segredos diverte porque confia na própria trama.

Elenco

Fotos: The Movie Database (TMDB)

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