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Herói de Sangue conta a história que o cinema francês evitou por mais de cem anos

Liv Altman

O Brasil conhece a história dos soldados que lutaram em guerras que não eram deles. O Exército Brasileiro participou da Primeira Guerra Mundial, e a contribuição de soldados negros e mestiços para a história militar do país segue subnarrada. Mas a história que Herói de Sangue (Tirailleurs no título original francês) conta é mais radical: a de 600.000 africanos subsaarianos arrastados para as trincheiras europeias sob a bandeira de uma nação que jamais os considerou iguais.

O senegalês Bakary Diallo (Omar Sy) se alista voluntariamente no exército francês durante a Primeira Guerra Mundial — não por convicção patriótica, mas porque seu filho de 17 anos, Thierno (Alassane Diong), foi recrutado à força de sua aldeia e alguém precisa ficar ao seu lado. O diretor Mathieu Vadepied, em seu primeiro longa-metragem, constrói o filme sobre esse ponto de partida limpo e não o abandona: dois homens tentando se manter vivos e mutuamente reconhecíveis em uma guerra que não é deles.

Omar Sy, que o público conhece por papéis calorosos e expansivos, aparece aqui num registro completamente diferente. Bakary é reservado, físico, silencioso. A performance exige que Sy carregue cenas inteiras sem diálogo, apoiado apenas na postura e no olhar — e ele consegue. Alassane Diong, em seu primeiro papel de destaque, corresponde à altura: a transformação de Thierno de adolescente aterrorizado a algo mais endurecido acontece no corpo, não na fala, e Diong a conduz com precisão rara para um iniciante.

A fotografia de Julien Roux cria desde o início um contraste visual que funciona como argumento: o Senegal da abertura é quente, luminoso, específico; as trincheiras são escuras, lamacent as, funcionais. Não há estetização do horror — há a diferença entre um mundo que existe e uma frente que consome. Vadepied não usa as imagens da guerra para fazer espetáculo; usa-as como pano de fundo para os rostos dos dois homens.

O filme pode parecer contido demais na seção central, quando a acumulação de episódios da guerra avança sem a escalada dramática que o gênero costuma prometer. Vadepied está interessado na duração — no que semanas de trincheira fazem com a relação entre pai e filho — e não na cena de virada. É uma aposta que nem todo espectador vai achar recompensadora.

Herói de Sangue é o primeiro grande filme narrativo francês a colocar um desses soldados coloniais como protagonista absoluto. Ao lado de Indigènes de Rachid Bouchareb (2006), forma um retrato incompleto — mas urgente — da dívida histórica que a França ainda não saldou com os homens que mandou morrer em seu nome.

Direção

Mathieu Vadepied
Photo via The Movie Database (TMDB)

Mathieu Vadepied

Fotos: The Movie Database (TMDB)

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Fotos: The Movie Database (TMDB)

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