Filmes

Em ‘Paraíso Prometido’, Erige Sehiri filma os migrantes que a Tunísia prefere não ver

Jun Satō

Erige Sehiri constrói ‘Paraíso Prometido’ em torno de uma pergunta que a maioria das histórias de migração no Mediterrâneo prefere contornar: o que acontece depois da travessia, no país que nunca deveria ser o destino. Seu terceiro longa se instala em uma casa modesta em Túnis, onde três mulheres marfinenses improvisaram uma vida em comum, e observa esse equilíbrio vacilar quando uma quarta chegada, uma menina resgatada do mar, obriga cada uma a medir o que deve a uma desconhecida.

A casa é de Marie, ex-jornalista que virou pastora e conduz uma congregação de bairro que ela chama de Igreja da Perseverança, onde distribui comida, remédios, fraldas e conselhos entre os africanos subsaarianos que a burocracia tunisiana mantém em uma zona cinzenta permanente. Sob seu teto vivem Naney, uma jovem mãe sem documentos à procura de um ponto de apoio, e Jolie, uma estudante que carrega as expectativas da família. Quando Kenza, de quatro anos, surge como única sobrevivente de um naufrágio, esse arranjo frágil ganha uma dependente com que nenhuma delas contava.

YouTube video

Sehiri preenche o quadro com rostos que trazem consigo o próprio peso. Aïssa Maïga, atriz e ativista francesa, interpreta Marie com uma firmeza cautelosa, a de uma mulher cuja fé funciona também como uma forma de triagem. Laëtitia Ky, a artista marfinense conhecida internacionalmente por suas esculturas feitas com os próprios cabelos, assume o papel de Jolie e ancora a ambição da estudante em algo muito próximo do medo. E Déborah Naney, apontada por vários críticos em Cannes como a atuação mais magnética do elenco, dá vida à sua quase xará como uma jovem mãe que improvisa dignidade a partir de muito pouco. Os homens que passam pela casa, entre eles o Ismael de Mohamed Grayaâ, orbitam ao redor dela sem nunca comandá-la.

A inversão do olhar é o essencial. Sehiri já explicou que seu impulso inicial foi a palavra achatadora ‘africano’, o modo como migrantes da Costa do Marfim, Nigéria, Mali ou Congo são reduzidos a uma única categoria estrangeira dentro de um país que é, ele próprio, africano. ‘Paraíso Prometido’ inverte o olhar habitual do cinema europeu de festival, que costuma filmar a travessia e parar na praia. Fica do outro lado da água e observa a Tunísia pelos olhos de quem ela não admite por completo: gente que cozinha, reza, estuda, discute e cria uma criança enquanto seus documentos, ou a falta deles, decidem tudo.

Na forma, Sehiri mantém o registro de observação que levou ‘Sob as Figueiras’ tão longe. Aquele filme, um único dia entre colhedoras de fruta, tornou-se a indicação da Tunísia ao Oscar internacional e apresentou uma diretora mais interessada na textura do que no enredo. Aqui ela volta à câmera na mão, aos espaços apertados e à luz natural, deixando as cenas respirarem para além de sua função dramática e confiando em um elenco que parece vivido antes de interpretado. A própria casa, estreita e desbotada pelo sol, carrega boa parte da narrativa.

O calor é também o risco. Os críticos que admiraram o filme em Cannes recorreram a expressões como ‘brilho caloroso’ e ‘celebração agridoce da resistência’, e esse tom pode suavizar a mesma precariedade que documenta. O limbo legal que define essas mulheres não tem um arco a fechar, e é preciso creditar a Sehiri a recusa em inventá-lo: o filme termina sem fingir que as autorizações de residência, as batidas policiais ou os naufrágios foram resolvidos. Mas resistir não é o mesmo que denunciar, e quem esperar que o filme aponte nomes, que pressione com mais dureza o Estado tunisiano ou as fronteiras que a Europa terceiriza, vai encontrá-lo contido. Sehiri propõe a solidariedade como argumento, e essa é uma escolha que merece ser discutida antes de simplesmente aplaudida.

É também um filme que chega em um momento tenso para o próprio tema. As denúncias de violência e de expulsões em massa contra migrantes subsaarianos na Tunísia se agravaram desde que Sehiri começou o projeto, o que confere à escala doméstica de ‘Paraíso Prometido’ um peso documental que ela nunca enuncia em voz alta. A política fica nas margens, em uma conversa ouvida de passagem ou em uma batida à porta, jamais em um discurso. Se essa contenção soa como tato ou como fuga, isso vai depender de quem assiste.

Characters gather around a birthday cake in the Erige Sehiri drama Promised Sky (2025)
The makeshift family gathers around a birthday cake in Promised Sky (2025)

O filme abriu a mostra Un Certain Regard da última edição do Festival de Cannes, uma vitrine de destaque que o levou pelo circuito de festivais, de Londres a Marraquexe, e à conversa sobre prêmios por suas atuações. Coprodução tuniso-francesa erguida pela própria Maneki Films de Sehiri ao lado da Heina Productions, ele vai chegando mercado a mercado, e a recepção até aqui sugere um título autoral modesto com uma vida mais longa do que seu porte sugere.

‘Paraíso Prometido’ estreia nos cinemas brasileiros em 10 de setembro, depois de passar pelas salas francesas no início do ano e de chegar à Espanha em agosto. Não é um filme que resolva a crise no seu centro, e não tenta. O que ele oferece no lugar disso é algo mais raro: um olhar firme e sem sentimentalismo sobre as pessoas que costumamos manter logo fora do quadro, e sobre a mulher que decidiu que valia a pena olhar para elas.

Elenco

Tags: , , , , ,

Discussão

Há 0 comentários.