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Gregg Araki transforma Olivia Wilde em musa mortal em I Want Your Sex

Veronica Loop

Uma artista decide que uma pessoa pode ser matéria-prima, e o resto é negociação. É essa a transação no centro de I Want Your Sex, em que uma célebre provocadora chamada Erika Tracy contrata um rapaz apagado para trabalhar em seu ateliê e depois o reclassifica como sua musa: um objeto para usar, arranjar e consumir. O filme trata a dinâmica de poder do mundo da arte como um contrato erótico sem letras miúdas e observa o que acontece quando a musa passa a querer uma autoria própria.

O que impede que a premissa soe como fantasia realizada é o rumo que ela toma. O ateliê de Erika não é um refúgio, e sim um sistema fechado de desejo, obsessão e controle, e a relação apodrece até a traição e, logo, o assassinato. O filme é construído como um thriller erótico que não abandona o registro cômico mesmo quando o que está em jogo se torna letal, um equilíbrio de tom mais difícil do que qualquer um dos dois modos isolado. Sob a provocação há uma pergunta seca sobre se ser a inspiração de alguém é uma forma de intimidade ou uma forma de extração.

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O elenco é a declaração de intenções mais clara. Olivia Wilde interpreta Erika como um ícone que rentabilizou a própria transgressão, e o papel exige que ela seja sedutora e predatória no mesmo gesto; o filme se sustenta ou desaba conforme o controle dela soe magnético em vez de apenas cruel. Cooper Hoffman, como o muso Elliot, é o contraponto: suavidade e hesitação, o corpo comum que a artista quer refazer. Charli XCX como sua namorada e Chase Sui Wonders como seu colega de apartamento marcam a vida da qual Elliot está sendo arrancado, enquanto Mason Gooding e Daveed Diggs orbitam Erika e Johnny Knoxville e Margaret Cho surgem como detetives quando os corpos começam a se acumular.

Gregg Araki passou a carreira tratando o sexo como motor de gênero, e não como enfeite, das road movies queer que o consagraram ao estudo do trauma de Mysterious Skin e ao niilismo de cores de doce de seus filmes universitários. I Want Your Sex é seu primeiro longa para cinema em mais de uma década e se lê como consolidação dessa sensibilidade, não como reinvenção: a mesma convicção de que o desejo é perigoso, agora conduzida pela maquinaria do thriller erótico. Para um cineasta que trabalhou sobretudo na televisão nos últimos tempos, o filme também é uma aposta de que sua marca de provocação ainda tem público nas salas.

Essa aposta é tanto da Magnolia Pictures quanto de Araki. Lançar um thriller erótico adulto na segunda metade do verão é contraprogramação deliberada, voltada a um público que já não cabe na oferta de franquias da temporada e a quem ainda comparece por um provocador com nome próprio. É o tipo de lançamento — pedigree de festival, uma protagonista de primeira linha atuando contra o próprio tipo, um título impossível de dizer na televisão matinal — que vive ou morre pela conversa, não pela verba. A Magnolia confia que o boca a boca faça o trabalho que o orçamento de marketing não alcança.

O verdadeiro tema do filme é a autoria. Erika constrói uma persona a partir do corpo dos outros, e a obra trata, ao menos em parte, do que isso custa às pessoas com quem ela a constrói. É algo afiado para um cineasta colocar na tela, e a moldura do thriller erótico dá a Araki cobertura para dizê-lo mantendo a superfície prazerosa. A trama do assassinato é o mecanismo; o argumento por baixo é sobre quem pode ser o artista e quem fica com o papel de material.

O que o filme não resolve, a julgar pela própria premissa, é se consegue manter a distância irônica sem que a provocação endureça em pose. Um thriller erótico que também é comédia corre o risco de deixar as piadas desarmarem a ameaça, ou de deixar o choque substituir um ponto de vista. A primeira reação em festivais pendeu a favor justamente pela ousadia do filme, mas ousadia não é o mesmo que controle, e uma história sobre exploração precisa se esforçar para não reproduzir aquilo que critica. Se Araki passa essa linha é a pergunta que o trailer não responde.

Olivia Wilde in the Gregg Araki film I Want Your Sex (2026)
Olivia Wilde in I Want Your Sex (2026)

I Want Your Sex foi escrito e dirigido por Gregg Araki e produzido pela Black Bear Pictures. Ao lado de Wilde e Hoffman, o elenco inclui Mason Gooding, Chase Sui Wonders, Charli XCX, Daveed Diggs, Johnny Knoxville, Margaret Cho e Roxane Mesquida. Tucker Korte assina a fotografia e James Clements compõe a trilha, com a Magnolia Pictures responsável pela distribuição.

O filme estreou no Festival de Sundance e a Magnolia Pictures o leva a cinemas selecionados dos Estados Unidos em 31 de julho de 2026, com duração de 90 minutos. Não há data de estreia confirmada no Brasil até o momento desta publicação. Araki nunca se dedicou a jogar pelo seguro, e este é um daqueles raros lançamentos de verão que desafiam o espectador a desviar o olhar; a pergunta interessante é quantos não vão conseguir.

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