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Rod Lurie deixa Scott Eastwood sozinho atrás das linhas inimigas no thriller Lucky Strike

O diretor reencontra Scott Eastwood e reduz o cinema de guerra a um soldado, um rádio e uma floresta cheia de alemães.
Camille Lefèvre

Um filme de guerra pode ser medido pela quantidade de terreno que concede ao seu herói, e Rod Lurie não para de estreitar esse terreno. Onde seu filme de combate anterior prendia um pelotão inteiro a um vale impossível de defender, Lucky Strike reduz a guerra a um único corpo que avança por entre as árvores. Um soldado americano ferido, isolado de sua unidade durante a última grande ofensiva alemã na frente ocidental, precisa atravessar território ocupado com a captura ou a morte à espera em cada clareira. O filme transforma a sobrevivência em sua única trama, de modo que assistir se torna um exercício da mesma paciência de que o soldado precisa.

Scott Eastwood vive John Castle, o soldado deixado para trás com um Motorola SCR-300, o rádio de mochila enfim resistente o bastante para o front, como seu único elo com os seus. A premissa é deliberadamente austera: um homem, uma floresta hostil e uma peça de tecnologia da época no lugar de qualquer reforço que pudesse chegar. Lurie, que assina o roteiro com Marc Frydman, trata o rádio como ferramenta e como cordão, o fino fio elétrico pelo qual um homem perdido segue ligado a um exército que não consegue vê-lo.

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O elenco funciona como uma declaração de registro. Eastwood, que já sustentou o filme de cerco anterior de Lurie, tem um rosto feito para o desgaste estoico mais do que para o heroísmo, e o papel pede exatamente isso, o medo administrado em vez de vencido. Ao seu redor o filme reúne Colin Hanks, Aunjanue Ellis-Taylor e Taylor John Smith, com Lorne MacFadyen como o major Barrett, vozes do outro lado do rádio e figuras da cadeia de comando à qual Castle tenta voltar. O conjunto foi construído para manter o protagonista sozinho, porque todos os outros estão em algum lugar ao qual ele luta para retornar.

Lurie atuou como crítico de cinema antes de dirigir, e seus filmes têm a forma argumentativa de quem primeiro aprendeu a ler imagens. Dos dramas institucionais de seus primeiros títulos à reconstrução imersiva do combate em The Outpost, em que um acampamento mal defendido absorvia um ataque avassalador, ele não deixou de rondar a mesma pergunta sobre como os homens agem quando um sistema deixa de protegê-los. Lucky Strike leva essa investigação ao limite ao suprimir o sistema por inteiro. Não há unidade à qual pertencer nem estrutura de comando no quadro, apenas um homem e os procedimentos em que foi treinado para confiar. O filme se inscreve numa linhagem antiga de histórias de fuga, a do soldado solitário que despe o cinema de guerra de sua coreografia e deixa algo mais próximo de uma caçada.

A aposta é tão formal quanto dramática. Um filme com um único personagem efetivo e quase sem diálogo precisa encontrar sua tensão na duração, no plano prolongado, no corte adiado e na extensão de floresta que se recusa a se resolver em segurança. A espionagem de campo em que a história se apoia é, na verdade, uma gramática da atenção: ler o terreno, medir o movimento, saber quando não acionar o rádio. Se a encenação honrar essa disciplina, os silêncios compensam. Se não, essa mesma nudez azeda em monotonia.

Esse é o risco do qual a premissa não escapa com palavras. Uma estrutura de sobrevivente único é implacável e, sustentada ao longo de um longa, pode passar da tensão à repetição; o rádio que dá forma ao relato poderia se tornar com a mesma facilidade uma muleta de roteiro, convocada sempre que a trama precisa de uma virada. O rótulo de “inspirado em fatos reais” deixa a história concreta convenientemente vaga. A produção foi erguida num estúdio europeu, no patamar de orçamento em que hoje se rodam quase todos os filmes de guerra, e chega sem um histórico crítico que a sustente. A filmografia de Lurie é irregular, com uma reconstrução rigorosa de um lado e um remake fracassado do outro, e nada no projeto garante qual dos dois Lurie aparece.

O elenco creditado é encabeçado por Eastwood, com Hanks, Ellis-Taylor, Smith, MacFadyen e Jonathan Yunger entre a tropa. Lurie dirige a partir do roteiro que escreveu com Frydman; a produção fica a cargo da Millennium Media e foi rodada nos cenários de guerra permanentes do Nu Boyana Film Studios, na Bulgária, a instalação europeia que absorveu boa parte do cinema de combate de orçamento médio. Roadside Attractions e Saban Films detêm os direitos para a América do Norte, e o filme tem 102 minutos.

Lucky Strike chega aos cinemas dos Estados Unidos em 26 de junho de 2026, com estreia na Espanha marcada para 2 de outubro. Por enquanto, não há estreia brasileira confirmada. É um filme de guerra pequeno e severo, do tipo que vive ou morre pela execução, e Lurie conquistou, ao menos mais uma vez, o benefício da dúvida exatamente nisso.

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