Filmes

Os lançamentos da Netflix desta semana apostam na quantidade, não na qualidade

Quase quarenta títulos chegam à Netflix esta semana sob aplausos. O número é real; mas, enquanto a biblioteca incha, um vencedor de Cannes sai de fininho.
Liv Altman
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Há um tipo de abundância que parece generosidade até você reparar no que ela custa. A Netflix teve uma daquelas semanas — o tipo que os guias semanais saúdam como um triunfo de quantidade, uma prateleira reabastecida até transbordar, mais uma “semana cheia” de algo para todo mundo. O número é real. A pergunta que os resumos nunca se dão ao trabalho de fazer é para que serve o número, de fato.

Leia a cobertura e você recebe uma panóplia: uma comédia dançante com pegada de Bollywood que liderou o ranking global, uma antologia de true crime do Ryan Murphy, uma querida série de campus universitário revivida para uma nova geração, um suspense ambientado num internato italiano, um drama jurídico brasileiro, um romance coreano, terror licenciado e um reality show de competição montado dentro de uma fábrica de chocolate. O entusiasmo é o estilo da casa dessas listas. Mas abundância não é a mesma coisa que profundidade, e a verdadeira estratégia fica legível justamente no hiato entre as duas.

Apenas uma parte desses títulos está fazendo o trabalho de retenção. A atração principal do mês é mais um capítulo da máquina Monster de Ryan Murphy, a antologia que aprendeu a fabricar prestígio num cronograma como os estúdios antigos fabricavam faroestes. Best of the Best fornece a coisa favorita do algoritmo: uma comédia que viaja. E A Different World chega carregada de memória: o spin-off que, no auge do fim dos anos 1980, fez um trabalho mais franco sobre a vida universitária negra do que a sitcom que o gerou, agora entregue aos filhos de Dwayne Wayne e Whitley Gilbert. Uma revival como essa é uma aposta de que o afeto é hereditário — de que a linhagem vai carregar um peso que o novo texto ainda não conquistou.

Em torno dessas âncoras está o recheio que a abundância exige. Party Down volta como catálogo, não como criação. O terror é uma dobradinha de uma década atrás — Oculus e House at the End of the Street — recolocados na prateleira em vez de feitos. O cardápio internacional, de um mistério num internato a uma história de fantasma argentina sobre um médico que vê os mortos, é programação genuína, mas também é volume: títulos que preenchem uma linha na tela inicial e uma linha no comunicado de imprensa. Juntos, eles fazem o número ficar grande. Quase nenhum deles é motivo para alguém renovar a assinatura.

O sinal está no que sai. Nos mesmos dias em que a biblioteca incha com suas três dezenas de entradas, Anatomia de uma Queda bate a porta — a vencedora da Palma de Ouro de Justine Triet, o drama de tribunal que levou o Oscar de roteiro original sobre Vidas Passadas e Oppenheimer, um dos filmes genuinamente duráveis que o serviço já carregou. Uma biblioteca que adiciona quarenta coisas que pode se dar ao luxo de esquecer e subtrai a única que deveria manter não está construindo um acervo. Está administrando a rotatividade.

Até o TheWrap, catalogando a programação título por título, chega à mesma palavra sem se apoiar nela: uma estratégia de retenção de apelo amplo em vez de investimento concentrado. Essa é a versão cortês. A mais direta é que a quantidade se tornou uma proteção contra qualquer título individual importar — se nada é essencial, nada pode fazer falta, e a reposição mensal faz silenciosamente o trabalho que um grande filme costumava fazer. Os estúdios clássicos entendiam escassez como valor; a prateleira do streaming é construída na fé oposta, de que quantidade é o suficiente para ser um tipo de qualidade.

É por isso que a medida honesta de uma semana da Netflix não é a pilha que chega na sexta-feira. É a Palma de Ouro deletada na quarta-feira para abrir espaço para ela.

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