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Em Unidentified, Haifaa al-Mansour pergunta de quem é um corpo no deserto

Jun Satō

O corpo de uma adolescente jaz no deserto, e o primeiro problema não é quem a matou, mas quem ela era. Nenhuma família aparece. Nenhum registro coincide. O corpo permanece num sistema que não tem uma casa para ele, e o silêncio ao redor se torna o verdadeiro assunto. Haifaa al-Mansour constrói seu filme criminal sobre essa ausência: um corpo não reclamado, uma burocracia disposta a arquivá-lo e a lenta pergunta de como uma pessoa vira número de processo.

Quem se recusa a arquivar é Noelle Al Saffan. Recém-divorciada, atraída pelo true crime como outros se atraem por palavras cruzadas e carregando a perda do próprio filho, ela se prende à jovem não identificada com uma necessidade que o roteiro nunca separa por completo do luto. A investigação que conduz é metade apuração, metade luto. al-Mansour mantém as duas leituras abertas e deixa o desconforto permanecer, de modo que cada pista que Noelle persegue é também uma forma de não olhar para a sua.

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Mila Al-Zahrani interpreta Noelle, e o elenco é por si só um argumento. Ela foi a protagonista de The Perfect Candidate, a médica que disputava um cargo local, um filme que abria com ela ao volante. Unidentified a devolve ao banco do motorista, a imagem que se repete no próprio teaser, e a uma diretora que confia nela para sustentar o plano sem levantar a voz. Sua compostura é o mecanismo de controle: uma mulher que se move pelo espaço público, observada e sem pressa, segura de uma busca que ninguém lhe pediu.

al-Mansour se formou fazendo filmes sobre mulheres que negociam seu lugar na vida pública saudita, uma menina que quer uma bicicleta, uma médica que quer uma cadeira. Seu registro tem sido o realismo social, a observação acima da trama. O filme criminal é um novo recipiente. O gênero fornece um corpo, um procedimento, uma estrutura de pistas; a pergunta em aberto é se ele conserva também a paciência que definia seu trabalho anterior ou a troca por impulso. Um whodunit quer um culpado. Seu cinema quase sempre quis uma testemunha. Entre seus filmes sauditas, ela também dirigiu no exterior, uma biografia literária em inglês e uma comédia de Hollywood, o que faz deste retorno para casa em roupagem de gênero uma declaração em si.

O movimento chega com peso institucional. al-Mansour rodou seu primeiro longa inteiramente dentro de um país que não tinha salas de cinema, e ele foi apresentado como a primeira indicação do reino ao Oscar internacional. A exibição em salas foi desde então legalizada, uma indústria local de estúdios começou a se formar, e a Rotana agora banca um thriller próprio feito para viajar. Unidentified se posiciona como um filme saudita capaz de ocupar uma sala comercial no exterior, uma ambição diferente do realismo de festival que a tornou conhecida.

O deserto carrega boa parte do argumento visual. al-Mansour o filma como um lugar que engole o concreto, névoa de calor, luz achatada e um horizonte sem referências, de modo que um único rosto humano se torna o único ponto fixo do quadro. Amelia Warner e Sam Thompson compõem com contenção, segurando onde um thriller empurraria. O teaser fala em closes e imobilidade antes que em perseguição. O filme parece entender que seu suspense mais agudo é administrativo: se alguém com poder para agir vai sequer se dar ao trabalho de olhar.

O que Unidentified ainda não provou é que suas duas metades combinam. Uma aficionada por true crime como heroína é um recurso legível para públicos muito distantes da região, e corre o risco de domesticar uma história especificamente saudita num contorno familiar, a detetive amadora, o caso sem solução, a obsessão que substitui o sentimento. A premissa levanta uma pergunta real sobre quem um sistema conta, mas o gênero puxa para a resolução, e a resolução pode achatar a textura social que dava sentido ao ponto de partida. Após um longo circuito de festivais, nenhum consenso crítico nítido se formou sobre como o filme fecha essa lacuna.

al-Mansour assina o roteiro com Brad Niemann. Ao lado de al-Zahrani, o elenco inclui Aziz Gharbawi como Ali e Shafi Al Harthy. Amelia Warner e Sam Thompson assinam a trilha. Rotana Studios e Al Mansour Establishment produzem na Arábia Saudita, em árabe, sob o título original Al-Majhula. A Sony Pictures Classics controla a distribuição na América do Norte, América Latina, Europa Oriental, Turquia e Australásia, sob o título internacional Unidentified.

O filme estreou no Festival de Toronto e passou por Zurique, pelo Festival Internacional do Mar Vermelho e por Glasgow antes de chegar à mostra Spotlight Narrative do Festival de Tribeca. A Sony Pictures Classics detém os direitos para a América Latina, mas ainda não há data de estreia confirmada no Brasil. O filme dura 100 minutos.

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