Filmes

Raymond & Ray cava uma boa cova para dois irmãos e depois a enche de visitas

A tragicomédia seca de Rodrigo García (2022) se apoia em Ewan McGregor e Ethan Hawke.
Martha O'Hara
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Um pai morre e deixa um pedido: que os filhos cavem a sepultura dele. Pode ser humilhação, pode ser a única maneira que ele achou de ficar perto dos dois mais uma vez, e o melhor de Raymond & Ray é deixar essa dúvida solta durante boa parte da sessão. Rodrigo García, que assina o roteiro e a direção, parte daí para contar a história de dois meio-irmãos, Raymond (Ewan McGregor) e Ray (Ethan Hawke), que se reencontram depois de anos de distância e precisam atravessar juntos um luto que nenhum dos dois sabe bem como sentir.

O filme começa melhor do que termina. São 106 minutos, e na maior parte deles ele parece não ter decidido o que quer ser. Há humor, há drama, há uma tentativa de ternura, e as três coisas se revezam sem que uma prepare a seguinte. A piada corta a emoção que vinha se formando; o drama volta com jeito de quem pede desculpas pela piada. Numa comédia dramática, o difícil é fazer o riso e a dor nascerem da mesma situação. Aqui costumam nascer de situações diferentes, e a costura aparece.

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O começo é o trecho mais firme. Numa noite de chuva, Raymond vai até a cabana isolada onde Ray vive para avisar que o pai morreu. Para convencer o irmão a ir ao funeral, precisa admitir que perdeu a carteira de motorista depois de ser preso por dirigir embriagado. A viagem que se segue, boa parte de um dia na estrada, prende os dois num espaço pequeno e dá ao filme a chance de deixar que se descubram sem pressa. É a velha convenção do filme de estrada, e ela funciona por razões simples: dois homens ligados pelo sangue e separados pela vida, um destino que nenhum deles quer e um carro de onde ninguém pode sair. Quando a história chega ao destino, perde parte dessa economia.

O que sustenta a sessão é a dupla central. A diferença de temperamento entre os dois personagens rende os melhores momentos do filme: dois homens criados pela mesma sombra que reagem a ela de maneiras opostas. McGregor e Hawke sabem estar em cena um ao lado do outro sem disputar espaço, e isso se vê. Não sei dizer se o mérito é do roteiro ou apenas do ofício dos atores, mas a convivência forçada entre eles funciona mais do que qualquer reviravolta. Ray largou o trompete para contrariar o pai que o empurrou para a música, e essa recusa diz mais sobre ele do que as conversas em que o filme tenta explicá-lo. Raymond, às voltas com um divórcio e um emprego de escritório sem brilho, ganha menos para fazer. O personagem existe em contraste com o irmão e raramente por conta própria.

Os momentos mais fortes são os mais concretos. Em casa do pai, Lucia entrega a cada filho uma caixa deixada por ele. Raymond recebe bonecas, patins de gelo e preservativos; Ray recebe o trompete que acreditava destruído desde a adolescência e que o pai mandou restaurar algumas semanas antes. São objetos que não se explicam sozinhos, e é nesse desconforto que o filme respira melhor. O homem que pediu para ser enterrado nu, em cova aberta pelos filhos, também consertou o instrumento do filho que o rejeitou, e a contradição fica sem resposta. Mais adiante, no enterro, Raymond corre até o carro, volta com uma arma, aponta primeiro para si mesmo e depois atira no caixão já na terra. A cena tem a violência de quem não sabe o que fazer com a raiva. Ray toca o trompete em seguida, e o gesto dispensa qualquer fala. Por alguns minutos, ninguém precisa explicar nada, e o filme é outro.

A sinopse oficial fala de dois homens que tentam entender quem se tornaram, por causa do pai e apesar dele. É um bom ponto de partida e um tema que o cinema raramente trata sem pose. O filme chega perto quando observa o que os irmãos herdaram sem querer: os gestos, as defesas, a dificuldade de pedir ajuda. Perde força quando transforma essa herança em assunto de conversa. Homens que passaram anos sem se falar não costumam resumir a própria infância em frases limpas, e o texto de García às vezes dá a eles exatamente essa clareza, em falas que parecem endereçadas à plateia e não ao irmão do lado.

O elenco de apoio é bom e quase não tem o que fazer. Maribel Verdú faz Lucia, enfermeira e amante do pai, e Sophie Okonedo faz Kiera, a mulher que o acompanhou no hospital e com quem Ray cria um vínculo; Vondie Curtis-Hall é o Reverendo West, Todd Louiso é Canfield, Tom Bower é Harris e Maxim Swinton é Simon, o filho de Lucia. Todos ocupam espaços pequenos, quase sempre a serviço de um dos dois irmãos, e mereciam personagens com vida fora das cenas dos protagonistas. O Reverendo West poderia render um bom contraponto, o homem de fé diante de um morto cuja memória pesa tanto para os filhos; fica como presença correta e pouco mais. Okonedo e Verdú têm carisma para segurar mais tela do que recebem. E quando outros filhos de Harris aparecem no enterro, a revelação podia ser a passagem mais estranha e mais engraçada do filme, mas o texto a trata como informação a entregar, não como uma cena a viver.

Enterrar alguém que nos feriu e que agora não pode se explicar nem pedir desculpas é um dilema que o drama já explorou de muitas formas, e a ordem do pai, que os filhos cavem a cova dele, o torna quase físico. Os irmãos podem obedecer e cumprir a última vontade de quem os machucou, ou recusar e ficar com uma raiva que não tem para onde ir. García tem nas mãos uma situação dramática pronta e, em alguns momentos, deixa os irmãos sentirem o peso dela em silêncio. O problema é que o filme não confia nesse silêncio por muito tempo. Logo alguém explica o que a cena já tinha dito, e a explicação encolhe o que estava ali. Até as cartas que o reverendo entrega a cada irmão no fim do enterro seguem essa lógica: o pai só tem a palavra final quando já não pode ser contestado, e o filme parece satisfeito com isso.

A comédia, por sua vez, está na própria situação: dois homens adultos cavando a sepultura de um pai que os maltratou, por ordem dele. A imagem já é absurda o bastante, e bastaria filmá-la sem apertar. Cada vez que força a piada, o tom desanda e o espectador deixa de acreditar no luto para ficar esperando o próximo gracejo. Há uma graça seca, quase de constrangimento, que serviria melhor ao projeto do que o riso mais aberto que o filme às vezes procura.

O filme teve a estreia mundial no Festival Internacional de Cinema de Toronto, em 12 de setembro de 2022, entrou em cinemas selecionados em 14 de outubro e chegou à Apple TV+ em 21 de outubro, uma semana depois. Para uma obra que depende tanto de pequenos gestos entre atores, a tela doméstica é um lugar natural, mas a janela curta nas salas deixou pouco tempo para o filme criar a própria conversa.

Pesa também o fato de García escrever e dirigir. Quando as duas funções estão na mesma mão, o texto talvez não passe pelo questionamento que uma segunda cabeça faria. Os diálogos sobre infância e trauma soam um pouco como declarações de intenção, ditas para o público e não entre os personagens. A direção é discreta e nunca atrapalha os atores, o que já é uma qualidade, mas também não oferece uma ideia própria que transforme a gravidade da situação em algo que se possa ver. Nunca me incomodou olhar para o filme. Também nunca me surpreendeu.

Fica a imagem de partida, a do desejo de um morto cumprido por dois filhos de pá na mão. Ela diz, sozinha, quase tudo o que o filme leva uma hora e quarenta e seis minutos para dizer, e é a prova de que a ideia era boa. Faltou a García confiar mais nela e menos nas palavras, deixar Ewan McGregor e Ethan Hawke trabalharem no silêncio que os dois sabem ocupar, e aceitar que alguns lutos não têm fala final. Vale ver pelos dois atores e pelas caixas, pelo tiro e pelo trompete. O resto é conversa que o filme não precisava ter.

Elenco

Fotos: The Movie Database (TMDB)

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