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Em & Sons, Bill Nighy chama os filhos para uma confissão, não um pedido de perdão

Jun Satō

Um romancista recluso, convencido de que seu corpo enfim se apaga, chama os filhos já adultos de volta à casa que quase nunca deixa. Eles chegam preparados para a cena que esse tipo de convocatória costuma render — um pedido de desculpas, uma trégua de leito de morte, algum acerto de contas de feridas antigas. O que o pai oferece, em vez disso, é um segredo, absurdo e talvez falso, que reorganiza tudo o que eles acreditavam sobre como a família se formou.

Essa confissão é o motor de “& Sons”, e é um objeto estranho de se entregar a uma plateia. O filme pede que você se sente dentro do relato de um homem que morre e decida, ali mesmo, se ele mente, delira ou diz uma verdade mais estranha do que qualquer mentira. Pablo Trapero dirige, e seu controle aparece nas superfícies — cômodos fechados, uma luz âmbar baixa, uma casa que parece menos habitada do que embalsamada.

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Bill Nighy vive Andrew Dyer, o escritor, e o elenco se lê como um argumento sobre aquilo que se cala. Nighy construiu uma carreira transformando o charme em armadura, e aqui a armadura é o papel: um homem que converteu duas décadas de silêncio público ao mesmo tempo em arma e esconderijo. Ao seu redor o filme reúne quem esse silêncio feriu. Noah Jupe é o filho caçula, no centro do segredo; George MacKay e Johnny Flynn são os irmãos mais velhos que voltam desconfiados; Imelda Staunton é a esposa que Dyer deixou partir; Dominic West surge em uma virada tardia e decisiva.

É o primeiro filme de Trapero em inglês, e a mudança vai além da língua. Seu cinema argentino vive dentro de instituições e atritos de classe — uma prisão, um tribunal, o retrato de crime real de uma família burguesa que administra um negócio de sequestros — filmado com o nervo de um documentarista para o modo como o poder circula por uma sala. “& Sons” troca Buenos Aires por um mundo literário nova-iorquino de madeiras nobres, primeiras edições e dinheiro herdado em voz baixa. A questão em aberto é se seu olhar para a podridão social sobrevive à mudança para um interior feito para se lisonjear.

A produção exibe seu prestígio sem disfarce. Figurino e cenário se apoiam numa decadência de bom gosto — uma alfaiataria excelente já amolecida, um escritório arrumado como um pequeno museu, aquele silêncio próprio do dinheiro que já não precisa se anunciar. Trapero e sua corroteirista, Sarah Polley, ao adaptar o romance de David Gilbert, usam essa superfície como armadilha. A casa parece o lugar onde a verdade é guardada; o drama é sobre com que perfeição um cômodo bonito pode ser mobiliado de mentiras.

Trapero filma o reencontro como uma peça de câmara. As figuras se distribuem em planos amplos e fixos; as conversas duram o tempo de uma sala; a câmera prefere observar um rosto decidir se fala a cortar para a reação. É uma gramática da paciência, e põe um peso enorme sobre os gestos mínimos — um olhar mantido um instante a mais, uma bebida servida para preencher um silêncio. O estilo confia nos atores, o que é outra forma de dizer que confia que o segredo sobreviva a ser examinado tão de perto.

O romance de Gilbert firmou sua reputação pela ventriloquia, narrado por um amigo invejoso da família e denso com a maquinaria da fama de um escritor. O roteiro de Polley recolhe esse aparato de volta à própria família, e o risco é legível. O que na página funciona como narração pouco confiável precisa virar algo que um rosto consiga sustentar, e o filme aposta quase tudo em saber se a quietude de Nighy segura uma afirmação que a plateia talvez nunca acredite.

A aposta é o próprio segredo. Ao acreditar em Dyer, o filme pende para a ficção especulativa, um drama doméstico com uma premissa de ficção científica contrabandeada para o escritório. Ao recusá-lo, tudo depende de as interpretações sustentarem um centro oco. As primeiras reações em festivais se dividiram exatamente nessa costura — atraídas pela ousadia do gesto, pouco convencidas de onde ele aterrissa. O filme não resolve a dúvida: vive dentro dela, o que é o acerto ou o problema, conforme o espectador.

Um pequeno detalhe de bastidor combina com o personagem. Nighy disse que não veria o filme antes da estreia — uma recusa à altura de um homem mais à vontade escrevendo uma versão dos fatos do que encarando a versão pronta.

Bill Nighy as reclusive novelist Andrew Dyer in the drama & Sons
Bill Nighy in & Sons (2026)

O elenco creditado reúne Nighy, Jupe, MacKay, Flynn, Staunton e West, com Anna Geislerová e Arthur Conti em papéis de apoio. Trapero produz por sua própria Matanza Cine ao lado de Infinity Hill, Maven Screen Media e Bankside Films, numa coprodução internacional entre Argentina, Reino Unido, Canadá, Estados Unidos e Chile. O filme tem 119 minutos e estreou mundialmente na seção Special Presentations do Festival Internacional de Cinema de Toronto, com passagens seguintes por Londres e Roma.

“& Sons” já está em cartaz no Reino Unido e na Irlanda pela Icon Film Distribution e chega à Espanha em 18 de setembro. Até o momento não há data de estreia confirmada no Brasil nem na América do Norte.

Elenco

Fotos: The Movie Database (TMDB)

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