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Things We Don’t Say: Muccino leva dois casais a Tânger para forçar o que nunca foi dito

Molly Se-kyung

Dois casais que se conhecem desde os vinte anos marcam férias juntos, e o que carregam nas malas, sem nunca o admitirem, é tudo o que passaram anos a concordar em não dizer. Essa bagagem não dita é o verdadeiro assunto do novo filme de Gabriele Muccino. Ele desloca quatro velhos amigos e uma adolescente observadora de Roma até Tânger, e então aguarda que a distância de casa faça o que a distância costuma fazer.

O título é também o método. Muccino constrói o filme em torno da omissão: a frase engolida no jantar, o olhar que responde a uma pergunta que ninguém ousou fazer em voz alta, a versão do casamento que cada cônjuge decidiu em silêncio continuar acreditando. O tagline italiano traduz-se como um aviso lacônico — todo mundo tem um segredo. Isso soa menos como promessa de reviravoltas do que como descrição de como esse grupo sempre funcionou: educadamente, por muito tempo, até que a mudança de cenário torna a educação cara demais.

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Stefano Accorsi e Claudio Santamaria ancoram os homens — uma dupla a que Muccino já recorreu e que ele empurra para extremos opostos: um encenando serenidade, o outro encenando apetite. Miriam Leone e Carolina Crescentini interpretam as mulheres que enxergam através de ambos. O elenco é o argumento que o filme apresenta antes de uma linha ser dita. São rostos que o público italiano associa ao charme, convocados aqui para mostrar como o charme azeda no instante em que precisa carregar uma mentira pela fronteira.

Muccino construiu seu nome exatamente nesse registro: a mesa cheia que vira, o casal que descobre ter deixado de ser um, o grupo de amigos como câmara de pressão de vedação lenta. Seus filmes de conjunto do início da carreira funcionaram nesse motor, e a dinâmica entre Accorsi e Santamaria fazia parte da engrenagem. É também o diretor que Hollywood requisitou para dois dramas com Will Smith antes de ele voltar para casa — o que faz um retorno a uma peça de câmara sobre casamentos italianos parecer uma escolha deliberada, não uma acomodação. Ele volta à forma que domina melhor para descobrir se ela ainda corta.

O roteiro o leva a um território novo para o material. Ele adapta o romance Siracusa, de Delia Ephron, que Ephron co-escreveu para a tela com o próprio Muccino: um livro montado a partir de relatos rivais em primeira pessoa de uma única viagem, quatro narradores descrevendo os mesmos dias e se contradizendo em silêncio. Muccino preserva essa arquitetura de verdades desencontradas, mas transloca os casais do roteiro italiano de Ephron para Marrocos, trocando a familiaridade de um destino europeu por um lugar que desequilibra os personagens mais depressa.

Tânger funciona aqui menos como cenário do que como solvente. Muccino usa a estranheza da cidade — sua luz, seus ritmos, as pequenas negociações cotidianas de quem é estrangeiro — para dissolver as rotinas dentro das quais os quatro se escondiam durante anos. Longe dos apartamentos, dos empregos e das piadas recorrentes que sustentam as amizades no lugar, o grupo não tem mais nada para encenar, e a encenação, descobre-se, era a maior parte do que mantinha a paz.

Pode ser por isso que o filme viaja melhor do que uma sinopse sugere. Em casa, ele chegou envolto em coisas que o público estrangeiro jamais vê: o histórico televisivo das estrelas, o clima das páginas de entretenimento em torno de suas vidas reais, a taquigrafia de um cinema nacional. Despido desse contexto ao atravessar fronteiras, resta apenas o drama para sustentá-lo — um teste mais difícil e mais justo. Um filme de relacionamento sem franquia e sem espetáculo tem de sobreviver só pelo comportamento.

Nada disso garante que o filme cumpra sua própria premissa. As férias que detonam um casamento são uma das formas mais gastas no drama, e a estrutura dos segredos que vêm à tona no exterior pode escorregar para a contabilidade — cada personagem recebendo sua revelação no horário previsto até o balanço fechar. A presença da filha de treze anos de um dos casais, Vittoria, observando adultos se comportarem mal, pode afiar o filme ou apenas sublinhá-lo. Uma história tão dependente do que se retém vive ou morre numa única pergunta: se o público acredita que essas pessoas realmente ficariam em silêncio por tanto tempo — e não ficam em silêncio apenas porque uma cena posterior precisa do barulho.

Stefano Accorsi and the cast of Le cose non dette by Gabriele Muccino in Tangier
The cast of Le cose non dette on holiday in Tangier

Accorsi, Leone, Santamaria e Crescentini lideram o elenco, com Margherita Pantaleo como Vittoria e Beatrice Savignani entre os personagens secundários. Lotus Production e Rai Cinema produziram, e a 01 Distribution cuidou do lançamento italiano. Paolo Buonvino assinou a trilha sonora, transitando entre piano e eletrônica, e a canção de encerramento foi feita em parceria com Mahmood — uma banda sonora que aposta no clima em vez da declaração, o que convém a um filme sobre o que permanece não dito.

Things We Don’t Say (no original italiano, Le cose non dette) estreou nas salas italianas em 29 de janeiro e arrecadou mais de 7 milhões de euros, resultado expressivo para um drama nacional sem franquia por trás. A distribuição internacional está em curso: o filme chega às salas sul-coreanas em 2 de setembro, com outros territórios a seguir. A duração é de 114 minutos. Ainda não há data de estreia confirmada no Brasil.

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