Filmes

Tim Curry: o ator que deu a uma geração permissão para ser diferente

Camille Lefèvre

Existe um tipo específico de ator que nunca pertence de fato à indústria que o emprega. Ele pertence, em vez disso, às pessoas sentadas no escuro — aquelas que murmuram suas falas antes que ele as diga, que chegam fantasiadas, que mantêm uma performance viva muito depois de o estúdio que a financiou ter seguido em frente. Tim Curry era esse ator. As homenagens que chegam daqueles que trabalharam ao seu lado não se detêm primeiro em seu alcance, por mais formidável que fosse; elas insistem em voltar a algo que uma classificação não consegue conter: seu coração.

As retrospectivas, compreensivelmente, escrevem-se como listas — os dez melhores papéis, ordenados e legendados. É um reflexo, e incompleto. Reduzir Curry a um compacto de melhores momentos é perder o instrumento singular que fazia tudo coesionar: uma voz, e a inteligência teatral por trás dela, capaz de conter sedução e ameaça na mesma respiração. O mesmo homem que ronronava como Dr. Frank-N-Furter podia, sem sequer mudar de registro, transformar-se na coisa sob o ralo que uma geração ainda não consegue desver.

Considere o que esse instrumento foi chamado a carregar. Como Frank-N-Furter em The Rocky Horror Picture Show, ele transformou o camp num argumento pela autoinvenção. Como Pennywise na adaptação televisiva de It, de Stephen King, localizou o horror não na maquiagem, mas na cadência — o calor do palhaço azedando uma sílaba de cada vez. Como Wadsworth em Clue, fez do recado ofegante de um mordomo sobre a noite uma peça de coreografia cômica, a trama inteira recontada a uma corrida. Curry não desaparecia em seus personagens; ele os assinava — você sempre sabia de quem era a mão que desenhara a linha.

É por isso que ele transitou tão completamente para o trabalho de voz, onde o rosto desaparece e só o instrumento permanece. Ganhou um Emmy como Capitão Gancho, despejou ameaça em Hexxus e numa longa prateleira de vilões de sábado de manhã e, como Nigel Thornberry, tornou-se um marco de infâncias que jamais conectaram aquela voz ao homem de meia-calça que seus pais haviam enfrentado filas para ver à meia-noite. Duas plateias, separadas por uma geração, cada uma convencida de que ele era só seu.

Esse sentimento de pertencimento corria nos dois sentidos, e foi a isso que seus colegas recorreram esta semana. Curry morreu em sua casa em Los Angeles aos oitenta anos, confirmou seu empresário de longa data; um AVC havia tirado grande parte de sua mobilidade há mais de uma década, e ainda assim ele continuava aparecendo — em convenções, na fila de autógrafos, na cadeira de rodas que seus fãs aprenderam a enxergar além. “Que figura engraçada, sexy e original ele era”, escreveu Susan Sarandon sobre seu colega de Rocky Horror. “Mas o que eu mais amava nele era seu coração. Mesmo na cadeira de rodas, ele continuava tão doce e generoso com seus fãs.” Carol Burnett, que com ele dividiu cena em Annie, resumiu num veredito de artesão: “Ninguém conseguia interpretar vilões adoráveis melhor do que ele.”

Curry parecia compreender a troca melhor que ninguém. Rocky Horror, ele certa vez refletiu, “deu a muitos adolescentes permissão para ser diferentes, e estou muito feliz que ele tenha tido esse poder.” Falava do personagem; descrevia a si mesmo. A despedida de seu empresário fez o mesmo ponto em outra chave — que, ao longo de cinco décadas, ele se recusou a ser enquadrado, movendo-se “fluentemente entre comédia, terror, drama e música.” As listas classificam os resultados. Quem o conheceu, e quem cresceu com ele, lembra-se da permissão.

Em algum lugar hoje à noite, um teatro escurecerá, uma tela se acenderá, e uma sala cheia de estranhos gritará suas falas de volta para ele em uníssono — o ritual intacto, o chamado e sua resposta. Sempre foi a medida mais verdadeira dele. Tim Curry nunca precisou que a indústria o mantivesse; seu público nunca teve a menor intenção de soltá-lo.

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