Música

Luísa Sonza, a artista que transformou a contradição em identidade musical

Penelope H. Fritz
Luísa Sonza
Luísa Sonza
Photo: Corazon Filmes / CC BY 3.0, via Wikimedia Commons
Nascimento18 de julho de 1998
Tuparendi
OcupaçãoCantora e compositora
PrêmiosPru00eamio Billboard Women in Music Global Force u00b7 Latin Grammy u00b7 Pru00eamio Multishow de Mu00fasica Brasileira

Luísa Sonza batizou seu quarto álbum de Brutal Paraíso — e a expressão já faz o trabalho de resumir tudo o que ela construiu em oito anos de pop brasileiro: um espaço onde a mesma música pode ser eufórica e exausta, onde uma carreira montada sobre a vulnerabilidade se torna uma das mais ouvidas da história do país, onde tocar no Coachella em abril de 2026 é um passo natural para alguém que passou uma década aprendendo a segurar uma plateia indiferente.

A palavra brutal faz dupla função. Ela a usa em parte no sentido informal brasileiro — algo extremo, avassalador — e em parte no sentido mais duro: a recusa da suavidade como estratégia de sobrevivência. “Você precisa sentir”, disse ela antes do lançamento do álbum, descrevendo uma filosofia de digestão emocional em vez de gerenciamento emocional. O álbum em si, 23 faixas que transitam entre reggaeton, bossa nova e funk, argumenta que essas posições não são contradições a serem resolvidas.

Ela cresceu em Tuparendi, um pequeno município do Rio Grande do Sul, em uma família de descendência italiana e alemã. Aos sete anos, fez um teste para o Sol Maior, um grupo de apresentações locais que tocava em casamentos, feiras e encontros de igreja. Ela ficou por dez anos. A experiência lhe ensinou algo que a fama nas redes sociais jamais poderia: como se apresentar para plateias que não têm motivo para se importar com você, como encontrar o sinal dentro da obrigação. No início da adolescência, ela já administrava a distância entre a performance e a presença.

A fase do YouTube veio depois. Ela ganhou seguidores postando covers sob a alcunha de “Queen of Covers” e, em 2017, assinou com a Universal Music Group. Seu álbum de estreia, Pandora, chegou em 2019, seguido por Doce 22 em 2021 — lançado em seu aniversário, 18 de julho — e Escândalo Íntimo em 2023. Esse terceiro álbum foi o ponto de virada. Ela o apresentou como uma exposição de suas fraturas mais íntimas; contou com uma colaboração de Demi Lovato, que cantou em português em “Penhasco2.” A faixa quebrou o recorde de estreia mais ouvida da história do Spotify Brasil, gerando 15,6 milhões de streams em um único dia.

Luísa Sonza
Multishow, CC BY 3.0

A colaboração com Demi Lovato foi significativa por razões que iam além dos números de streaming. Foi o pop brasileiro atravessando a barreira do idioma não ao traduzir para o inglês, mas ao puxar uma artista americana para o português — uma inversão do manual de jogadas padrão do crossover. Katy Perry havia feito algo parecido quando trouxe Sonza para o remix de “Cry About It Later” em 2021. Eram argumentos, na prática, sobre onde o pop brasileiro se situa em relação ao mercado global.

Esse argumento se estendeu a Bossa Sempre Nova, um projeto colaborativo de 2026 com Roberto Menescal e Toquinho — dois arquitetos da música popular brasileira que moldaram o cânone da bossa nova décadas antes de Sonza nascer. O disco chegou ao topo das paradas de álbuns brasileiras em fevereiro. Na mesma semana, Brutal Paraíso já abria caminho pelas redes sociais dela. A coexistência é o ponto. Ela nunca tratou seu ecletismo como um problema a ser resolvido.

A conversa crítica em torno de Sonza frequentemente se concentrou em sua persona pública em detrimento de suas decisões musicais. Após o divórcio do comediante Whindersson Nunes em 2020, a imprensa brasileira acompanhou sua vida pessoal com a intensidade normalmente reservada a crises políticas. Ela é abertamente bissexual e já falou sobre a visibilidade específica que isso carrega em um mercado que ainda navega essas conversas. Em 2022, ela reconheceu publicamente que um incidente de 2018 havia reproduzido racismo estrutural — um pedido de desculpas que veio após anos de processos judiciais. A atenção a esses eventos às vezes obscureceu o fato menos sensacional: ao longo de quatro álbuns solo e um catálogo crescente de colaborações, ela fez escolhas cada vez mais coerentes sobre o tipo de artista que quer ser.

Brutal Paraíso estreou em 7 de abril de 2026. Quatro dias depois, Sonza se apresentou no Coachella pela primeira vez, aparecendo no Gobi Stage em Indio, Califórnia, com um show que foi ao ar ao vivo no YouTube para o mundo inteiro. O concerto completou algo que vinha se construindo ao longo da turnê Escândalo Íntimo: um público internacional encontrando seu caminho em um catálogo feito inteiramente em português. Seu perfil no Spotify agora lista 13,3 milhões de ouvintes mensais.

O que vem depois do Coachella para uma artista cuja carreira sempre foi uma negociação entre o local e o global ainda está se formando. O título do álbum é uma declaração de princípios — o paraíso é brutal, e ela não deu nenhum sinal de que vai suavizá-lo.

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