Música

Os Amantes voltam com Amar, AMOR!, álbum que funde brega paraense com pop japonês

Alice Lange

Os Amantes estão de volta com Amar, AMOR!, um álbum de dez faixas que rejeita categorizações fáceis: ao mesmo tempo enraizado no brega paraense — a tradição pop do Pará marcada por sintetizadores e romantismo direto — e atravessado por timbres de guitarra do indie rock e melodias que remetem à estrutura do pop japonês. O projeto formado por três integrantes, centrado na cantora Jaloo ao lado da dupla experimental Strobo, chega após dois anos longe dos estúdios.

O brega paraense é um dos gêneros mais localmente definidos do Brasil, desenvolvido na cidade amazônica de Belém com sintetizadores, ritmos em andamento de bolero e uma abordagem lírica assumidamente sentimental. Em Amar, AMOR!, Os Amantes não procuram atualizar ou suavizar o brega, mas mantê-lo firme enquanto incorporam sons de lugares muito mais distantes — o fraseado melódico do J-pop, a produção de guitarras texturizadas do indie rock mais experimental. No papel, essa colisão parece incoerente. No disco, em grande parte, não é.

“Obsessão”, “Acho Que Enlouqueci” e “Rock Doido” têm energia suficiente para a pista de dança, enquanto “Rosa” e “Além de um Sonho Bom” avançam para territórios mais calmos e introspectivos. Uma versão de “A Primeira Vez” — clássico do brega de Tony Brasil que se tornou conhecido na voz da cantora paraense Ana de Oliveira — atualiza a canção para o vocabulário sonoro do trio sem abandonar a franqueza romântica que está no centro do gênero.

Vale observar o contexto da produção. Os Amantes fizeram uma escolha deliberada de excluir a inteligência artificial do processo, incluindo a arte da capa. A cantora Jaloo resumiu de forma direta: “nesses tempos, o que mais importa é a gente não desaprender a amar” — em tempos como estes, o mais importante é não desaprender a amar. A frase funciona tanto como uma declaração de filosofia criativa quanto como o argumento emocional que o próprio álbum apresenta.

A questão em aberto é se essa fusão se sustenta ao longo de dez faixas ou se funciona melhor como conceito do que como experiência de escuta. Os Amantes têm uma presença modesta no streaming pelos critérios que a indústria usa para medir alcance global, e o álbum chega em um momento em que a música brasileira que ganha espaço internacional é liderada pelo funk e pelo sertanejo, não pelo brega paraense. O som é genuinamente distinto; resta saber até onde essa singularidade pode chegar para além de seu território de origem.

Os Amantes se apresentam na Casa Natura Musical, em São Paulo, em 18 de setembro, em seu primeiro show em dois anos.

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