Atores

Anne Hathaway, a volta que nunca foi uma volta

Penelope H. Fritz

Cinco filmes em 2026, um Oscar já guardado e uma internet que um dia decidiu que não a suportava e agora trata cada estreia dela como acontecimento. A atriz que aprendeu a esperar parada o tempo passar está entregando o ano mais cheio e mais arriscado da sua carreira — e se recusa a chamar isso de volta.

Existe um arco de fama para o qual ainda não temos um nome limpo. A atriz que todo mundo aceitava como talentosa vira a atriz que todo mundo acha insuportável, e depois, sem se aposentar, sem se reinventar, sem turnê de desculpas, volta a ser a atriz que todo mundo gosta de ver. Anne Hathaway é o caso de manual. O lugar que ela ocupa agora, com cinco filmes radicalmente diferentes empilhados no mesmo ano, nunca esteve realmente vazio. Ela só estava esperando o clima mudar.

Nasceu no Brooklyn e cresceu em Millburn, Nova Jersey, filha de uma atriz de teatro e de um advogado. A infância musical não era enfeite: foi treinada como soprano e cantou no Carnegie Hall ainda adolescente. Essa formação importa, porque explica a Hathaway que anos depois interpretaria “I Dreamed a Dream” chorando de verdade num plano único e contínuo, e a Hathaway que continua aceitando papéis cantados quando quase nenhuma colega da sua geração faria isso. Foi a primeira adolescente admitida no Barrow Group, companhia teatral nova-iorquina, e perdeu o primeiro semestre em Vassar para rodar The Princess Diaries, o sucesso surpresa da Disney de 2001. O filme arrecadou 165 milhões de dólares com um orçamento de 26 e a transformou, quase de um dia para o outro, em uma daquelas atrizes jovens em torno das quais os estúdios constroem projetos.

O que ela fez depois costuma ser subestimado. O caminho lógico depois de um sucesso Disney é mais Disney. Hathaway fez dois — a continuação em 2004 e Encantada (2004 também). E aí virou forte. Aceitou um papel com nudez em Havoc e um coadjuvante silencioso e arrasador em Brokeback Mountain, ambos em 2005. Depois veio O Diabo Veste Prada em 2006: Andy Sachs diante da Miranda Priestly de Meryl Streep, uma comédia adulta que terminou em 326 milhões de bilheteria. Em 2008 já tinha sua primeira indicação ao Oscar com Rachel Getting Married, o drama familiar de Jonathan Demme em que interpreta uma viciada em recuperação que ganha um fim de semana de licença para o casamento da irmã. Quase vinte anos depois, segue sendo seu trabalho mais livre e mais incômodo.

Os anos 2010 a colocaram em todo lugar: a Alice no País das Maravilhas de Tim Burton, a comédia romântica Love and Other Drugs ao lado de Jake Gyllenhaal, a voz da protagonista em Rio, a Mulher-Gato do The Dark Knight Rises de Christopher Nolan — o filme mais lucrativo da sua carreira, mais de um bilhão de dólares no mundo todo — e o papel que lhe rendeu o Oscar. Les Misérables, em 2012, foi uma atuação brutal e exposta: o corte de cabelo em cena, os doze quilos perdidos, “I Dreamed a Dream” gravado em um único primeiro plano contínuo. Ela varreu BAFTA, Globo de Ouro, SAG e o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Naquele momento era a atriz mais premiada da sua geração com menos de trinta e cinco anos.

E aí a internet virou. O fenômeno que a imprensa de língua inglesa apelidou de Hathahate — nunca de fato explicado, nunca de fato merecido — se concentrou em torno dos seus discursos de premiação, da sua seriedade percebida, do seu esforço considerado visível demais em eventos públicos. As colunas se multiplicaram. Ela, depois, falou abertamente do que veio em seguida: papéis perdidos porque alguns diretores acreditavam que ela era veneno de bilheteria, testes recusados após o Oscar, a experiência estranha de ser publicamente antipatizada sem que ninguém soubesse articular bem por quê. O arco merece uma pausa, porque Hathaway não revidou. Não se reinventou nem encenou arrependimento. Continuou trabalhando — Interstellar em 2014, The Intern em 2015, Colossal em 2016, Ocean’s 8 em 2018 — e deixou o ciclo se encerrar sozinho. Essa paciência é provavelmente a coisa profissionalmente mais interessante a respeito dela.

A reabilitação se cristalizou com The Idea of You, a comédia romântica de Michael Showalter em que, em 2024, ela interpreta uma mulher de quarenta anos num relacionamento com um astro pop mais jovem. O filme lhe devolveu o tipo de imprensa sincera e sem reservas que ela não recebia havia uma década. O que veio depois é a agenda 2026: Mother Mary, o drama psicossexual da A24 dirigido por David Lowery ao lado de Michaela Coel, lançado em abril; O Diabo Veste Prada 2, que a reúne com Streep, Emily Blunt e Stanley Tucci vinte anos depois do original, em cartaz agora; The End of Oak Street, o filme de ficção científica de David Robert Mitchell previsto para 14 de agosto; The Odyssey, a adaptação de Homero que Christopher Nolan está rodando, sua terceira colaboração com o diretor; e Verity, a versão do thriller de Colleen Hoover com Dakota Johnson e Josh Hartnett, prevista para outubro. Ela ainda produz Yesteryear para a Amazon MGM, é produtora executiva da minissérie Fear Not no Paramount+ e, segundo informações da indústria, desenvolve com a diretora Adele Lim uma terceira parte de The Princess Diaries.

Hathaway casou com o ator e produtor Adam Shulman em 2012. O casal tem dois filhos, nascidos em 2016 e 2019. Ela está sóbria desde 2018, fala abertamente da depressão e da ansiedade que carregou na adolescência e usa sua visibilidade de forma consistente em defesa dos direitos reprodutivos, do controle de armas e dos direitos LGBT — o gesto mais visível foi quando ela e Shulman doaram à Freedom to Marry os rendimentos da venda das fotos do casamento.

Nada disso se lê como uma volta porque não é uma volta. A carreira continuou acontecendo mesmo nos anos em que o barulho era mais alto. O que 2026 confirma é algo mais silencioso e mais difícil de fingir: que a atriz primeiro celebrada em excesso e depois detestada em excesso usou a década intermediária para virar o tipo de intérprete adulta que Hollywood antes sabia construir e hoje quase não constrói mais. O filme depois de Verity ainda não foi anunciado. Quase com certeza vai ser.

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