Atores

Jake Gyllenhaal, o astro de Hollywood que insiste em sumir dentro do papel

Penelope H. Fritz

A pergunta interessante sobre Jake Gyllenhaal não é por que ele virou astro. É por que ele insiste em sabotar a parte da carreira que vive disso. Sempre que a indústria abre uma faixa limpa de galã — a franquia de ação, a comédia romântica, a divindade de quadrinho —, ele se esquiva de lado para algo menor, mais esquisito, mais exigente para o corpo. Emagrece, engorda. Aprende boxe, dirigir ambulância, decorar Iago para oito apresentações por semana. A carreira se lê menos como estratégia do que como uma briga permanente consigo mesmo sobre o que o ofício deveria ser.

Chegou à atuação como se entra num negócio de família, sem um momento exato de decisão. O pai, Stephen Gyllenhaal, é diretor de cinema; a mãe, Naomi Foner, roteirista; a irmã mais velha, Maggie, já estava no mesmo caminho. Estreou em City Slickers aos dez anos, mas a casa funcionava sob o princípio nada romântico de que atuar não substituía a vida adulta: entre filmagens, ele trabalhava como salva-vidas e como auxiliar de garçom. Formou-se na Harvard-Westlake School e passou dois anos na Universidade Columbia estudando religiões orientais e filosofia antes de abandonar o curso. É um detalhe que reaparece em todo perfil, porque explica muito sobre como ele lê roteiros.

O surgimento veio em etapas. Céu de Outubro apresentou o jovem protagonista sério e levemente assombrado capaz de carregar um biopic baseado em fato real só pela convicção. Depois veio Donnie Darko, fracassou na bilheteria e foi virando, devagar, um objeto geracional — aquele cult de meia-noite que não se fabrica nem se repete. Antes dos vinte e cinco, três faixas estavam abertas: o multiplex (O Dia Depois de Amanhã), o prestígio (O Segredo de Brokeback Mountain, Jarhead — Soldados), o procedural autoral (Zodíaco, com David Fincher). O Segredo de Brokeback Mountain lhe rendeu o BAFTA de melhor ator coadjuvante e a única indicação ao Oscar até hoje. A coda “até hoje” carrega muito peso desde então.

A década seguinte é onde o ator que ele queria ser começa a engolir o ator que os estúdios continuavam contratando. Depois de uma sequência travada de veículos de astro — Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo, Amor e Outras Drogas —, ele reinicia. Contra o Tempo, End of Watch, e em seguida a dobradinha com Denis Villeneuve, Os Suspeitos e O Homem Duplicado, o reescrevem como algo mais frio e mais perigoso: um intérprete disposto a ser opaco, a se segurar, a deixar a câmera incomodada. O Abutre, que ele também produziu, fixa a nova versão: um jornalista predador, faminto, insone, que deveria ter sido indicado ao Oscar e não foi. Vem Esperança em Jogo, com a transformação física já virada ritual. Os papéis ficam maiores porque o trabalho fica menor.

O parágrafo crítico que todo perfil honesto precisa escrever para ele é o da Academia. O Abutre, Animais Noturnos, Mais Forte que o Destino e, por fim, Acima de Qualquer Suspeita: todos geraram conversa de premiação que esvaziou no limiar mais visível. A leitura fácil diz que ele é ignorado. A honesta diz que ele segue escolhendo o tipo de papel que a Academia historicamente não premia: intensidade de gênero acima do biopic edificante, opacidade acima da catarse, homens com quem é difícil torcer. Escolheu sabendo do que iam e do que não iam lhe dar. A briga pública de 2024 em torno de Matador de Aluguel, quando o lançamento direto na Amazon o jogou numa disputa de créditos que ele não tinha começado, foi o lembrete de que a economia do streaming hoje negocia com ele, não por ele. É um astro num momento em que a própria ideia de astro está sendo desmontada.

E ele segue trabalhando. O teatro foi a disciplina por baixo da disciplina: uma temporada no West End com This Is Our Youth, depois as produções da Broadway Constellations, Sunday in the Park with George e o dueto de Simon Stephens Sea Wall/A Life, que lhe rendeu uma indicação ao Tony. Na primavera de 2025 fez Iago no Ethel Barrymore, frente ao Otelo de Denzel Washington, na remontagem dirigida por Kenny Leon; a montagem quebrou os recordes da casa e recebeu as resenhas mistas habituais para qualquer Shakespeare corajoso o bastante para ser específico. Voltou-se a notar quanto ele aceita ser pequeno, escorregadio e contemporâneo onde o texto pediria estatura.

O ano corrente está cheio. Em março apareceu num papel coadjuvante em The Bride!, segundo longa de sua irmã Maggie como diretora, um romance gótico construído em torno de Jessie Buckley e Christian Bale. Hoje, 15 de maio de 2026, chega aos cinemas In the Grey, o thriller mediterrâneo de Guy Ritchie que o emparelha com Henry Cavill. Há um projeto da Netflix chamado Kill Switch em desenvolvimento, um thriller médico da Amazon MGM intitulado Code Black, a adaptação de Collision de Don Winslow pela Amazon e o thriller romântico de M. Night Shyamalan e Nicholas Sparks chamado Remain, marcado para 5 de fevereiro de 2027. Em abril começou a rodar Honeymoon with Harry em Brisbane com Kevin Costner. A agenda está mais bagunçada do que um plano de carreira deveria estar. Provavelmente é essa a ideia.

A vida fora do set, por decisão própria, ocupa pouquíssimo espaço. Está com a modelo francesa Jeanne Cadieu desde 2018, virou pai em 2023, cozinha, coleciona livros de receita e recusa quase todos os convites para se explicar mais. O Iago que ele carrega na cabeça lhe interessa mais do que qualquer Iago de tabloide.

O que vem é, no sentido estrito, mais do mesmo: um ator no ativo puxando entre o projeto que paga o próximo e o projeto que o justifica. O padrão é o argumento, e o argumento é a obra. Remain estreia em fevereiro. Honeymoon with Harry vem depois. Ele segue se recusando a se acomodar em qualquer um dos dois atores que é. Essa recusa é o que torna os próximos dois anos dignos de acompanhar.

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