Atores

Jake Gyllenhaal, o astro de Hollywood que insiste em sumir dentro do papel

Penelope H. Fritz
Jake Gyllenhaal
Jake Gyllenhaal
Photo via The Movie Database (TMDB)
Nascimento19 de dezembro de 1980
Los Angeles, California, United States
OcupaçãoAtor
Conhecido porOs Suspeitos, Donnie Darko, O Abutre
PrêmiosBAFTA · Oscar · Tony

A pergunta interessante sobre Jake Gyllenhaal não é por que ele virou astro. É por que ele insiste em sabotar a parte da carreira que vive disso. Sempre que a indústria abre uma faixa limpa de galã — a franquia de ação, a comédia romântica, a divindade de quadrinho —, ele se esquiva de lado para algo menor, mais esquisito, mais exigente para o corpo. Emagrece, engorda. Aprende boxe, dirigir ambulância, decorar Iago para oito apresentações por semana. A carreira se lê menos como estratégia do que como uma briga permanente consigo mesmo sobre o que o ofício deveria ser.

Chegou à atuação como se entra num negócio de família, sem um momento exato de decisão. O pai, Stephen Gyllenhaal, é diretor de cinema; a mãe, Naomi Foner, roteirista; a irmã mais velha, Maggie, já estava no mesmo caminho. Estreou em City Slickers aos dez anos, mas a casa funcionava sob o princípio nada romântico de que atuar não substituía a vida adulta: entre filmagens, ele trabalhava como salva-vidas e como auxiliar de garçom. Formou-se na Harvard-Westlake School e passou dois anos na Universidade Columbia estudando religiões orientais e filosofia antes de abandonar o curso. É um detalhe que reaparece em todo perfil, porque explica muito sobre como ele lê roteiros.

O surgimento veio em etapas. Céu de Outubro apresentou o jovem protagonista sério e levemente assombrado capaz de carregar um biopic baseado em fato real só pela convicção. Depois veio Donnie Darko, fracassou na bilheteria e foi virando, devagar, um objeto geracional — aquele cult de meia-noite que não se fabrica nem se repete. Antes dos vinte e cinco, três faixas estavam abertas: o multiplex (O Dia Depois de Amanhã), o prestígio (O Segredo de Brokeback Mountain, Jarhead — Soldados), o procedural autoral (Zodíaco, com David Fincher). O Segredo de Brokeback Mountain lhe rendeu o BAFTA de melhor ator coadjuvante e a única indicação ao Oscar até hoje. A coda “até hoje” carrega muito peso desde então.

A década seguinte é onde o ator que ele queria ser começa a engolir o ator que os estúdios continuavam contratando. Depois de uma sequência travada de veículos de astro — Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo, Amor e Outras Drogas —, ele reinicia. Contra o Tempo, End of Watch, e em seguida a dobradinha com Denis Villeneuve, Os Suspeitos e O Homem Duplicado, o reescrevem como algo mais frio e mais perigoso: um intérprete disposto a ser opaco, a se segurar, a deixar a câmera incomodada. O Abutre, que ele também produziu, fixa a nova versão: um jornalista predador, faminto, insone, que deveria ter sido indicado ao Oscar e não foi. Vem Esperança em Jogo, com a transformação física já virada ritual. Os papéis ficam maiores porque o trabalho fica menor.

O parágrafo crítico que todo perfil honesto precisa escrever para ele é o da Academia. O Abutre, Animais Noturnos, Mais Forte que o Destino e, por fim, Acima de Qualquer Suspeita: todos geraram conversa de premiação que esvaziou no limiar mais visível. A leitura fácil diz que ele é ignorado. A honesta diz que ele segue escolhendo o tipo de papel que a Academia historicamente não premia: intensidade de gênero acima do biopic edificante, opacidade acima da catarse, homens com quem é difícil torcer. Escolheu sabendo do que iam e do que não iam lhe dar. A briga pública de 2024 em torno de Matador de Aluguel, quando o lançamento direto na Amazon o jogou numa disputa de créditos que ele não tinha começado, foi o lembrete de que a economia do streaming hoje negocia com ele, não por ele. É um astro num momento em que a própria ideia de astro está sendo desmontada.

E ele segue trabalhando. O teatro foi a disciplina por baixo da disciplina: uma temporada no West End com This Is Our Youth, depois as produções da Broadway Constellations, Sunday in the Park with George e o dueto de Simon Stephens Sea Wall/A Life, que lhe rendeu uma indicação ao Tony. Na primavera de 2025 fez Iago no Ethel Barrymore, frente ao Otelo de Denzel Washington, na remontagem dirigida por Kenny Leon; a montagem quebrou os recordes da casa e recebeu as resenhas mistas habituais para qualquer Shakespeare corajoso o bastante para ser específico. Voltou-se a notar quanto ele aceita ser pequeno, escorregadio e contemporâneo onde o texto pediria estatura.

Jake Gyllenhaal
Jake Gyllenhaal. Photo: Peter Kudlacz / CC BY 2.0, via Wikimedia Commons (source)

O ano corrente está cheio. Em março apareceu num papel coadjuvante em The Bride!, segundo longa de sua irmã Maggie como diretora, um romance gótico construído em torno de Jessie Buckley e Christian Bale. Hoje, 15 de maio de 2026, chega aos cinemas In the Grey, o thriller mediterrâneo de Guy Ritchie que o emparelha com Henry Cavill. Há um projeto da Netflix chamado Kill Switch em desenvolvimento, um thriller médico da Amazon MGM intitulado Code Black, a adaptação de Collision de Don Winslow pela Amazon e o thriller romântico de M. Night Shyamalan e Nicholas Sparks chamado Remain, marcado para 5 de fevereiro de 2027. Em abril começou a rodar Honeymoon with Harry em Brisbane com Kevin Costner. A agenda está mais bagunçada do que um plano de carreira deveria estar. Provavelmente é essa a ideia.

A vida fora do set, por decisão própria, ocupa pouquíssimo espaço. Está com a modelo francesa Jeanne Cadieu desde 2018, virou pai em 2023, cozinha, coleciona livros de receita e recusa quase todos os convites para se explicar mais. O Iago que ele carrega na cabeça lhe interessa mais do que qualquer Iago de tabloide.

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O que vem é, no sentido estrito, mais do mesmo: um ator no ativo puxando entre o projeto que paga o próximo e o projeto que o justifica. O padrão é o argumento, e o argumento é a obra. Remain estreia em fevereiro. Honeymoon with Harry vem depois. Ele segue se recusando a se acomodar em qualquer um dos dois atores que é. Essa recusa é o que torna os próximos dois anos dignos de acompanhar.

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