Cineastas

Lars von Trier, o cineasta que transformou seus transtornos em método e o Parkinson em prazo final

Penelope H. Fritz

O manifesto Dogma 95 que Lars von Trier assinou com Thomas Vinterberg em 1995 exigia que os diretores despissem o cinema de todo conforto: nenhuma iluminação artificial, nenhum som adicionado em pós-produção, câmera na mão obrigatória. Que um homem com TOC severo, depressão clínica e fobia social tivesse projetado esse sistema como método de libertação tem uma lógica específica. Von Trier vinha fazendo isso há uma década — transformando seu estado psicológico em linguagem cinematográfica.

Nasceu Lars Trier em 30 de abril de 1956 em Kongens Lyngby, perto de Copenhague. O «von» veio depois, auto-inventado nos anos 1980 como homenagem irônica a Erich von Stroheim e Josef von Sternberg — uma piada sobre a autoridade do diretor que sobreviveu a qualquer manifesto. Formou-se na Escola Nacional de Cinema da Dinamarca com Forbrydelsens element, um neo-noir banhado em âmbar que ganhou o Grande Prêmio Técnico em Cannes em 1984.

A carreira se divide em quatro zonas. A Trilogia Europa dos anos 1980 e início dos 1990 — formalmente ambiciosa, politicamente oblíqua. Breaking the Waves ganhou o Grand Prix em Cannes em 1996 e revelou Emily Watson ao mundo. The Idiots seguiu em 1998, seu próprio filme Dogma. Dancer in the Dark, com Björk como imigrante tcheca numa fábrica americana, ganhou a Palma de Ouro em 2000 — o pico de seu arco em Cannes. Em 2017, durante o #MeToo, Björk tornou públicas acusações de assédio nas filmagens. Von Trier negou. A questão permanece aberta.

A crítica mais frequente à sua filmografia aponta que as mulheres em seus filmes sofrem de um modo que serve a um projeto estético que o diretor controla à distância segura. Emily Watson afundando, Björk sendo executada, Gainsbourg mutilada, Dunst vendo um planeta cair. Não é uma acusação menor. Von Trier reconheceu que se sente atraído pelo sofrimento feminino de maneiras que não compreende inteiramente — declaração incomum. Se isso constitui reflexão genuína ou forma sofisticada de evasão é algo que seus filmes levantam sem responder.

Melancolia (2011) trouxe a Kirsten Dunst o prêmio de melhor atriz em Cannes. Na mesma coletiva, von Trier disse que entendia Hitler e foi declarado persona non grata pelo festival. As desculpas vieram; a cicatriz não fechou. Ninfomaníaca (2013), A Casa que Jack Construiu (2018) — Matt Dillon como serial killer que concebe cada assassinato como projeto arquitetônico — e a terceira temporada de Riget, The Kingdom Exodus (2022), consolidam uma filmografia em que o espaço é sempre pequeno e as apostas sempre cosmológicas.

Em fevereiro de 2025, von Trier revelou ter ingressado num centro de tratamento para a doença de Parkinson. Tem setenta anos em 2026. O filme em que trabalha, After, escala Stellan Skarsgård — presente em sua obra desde Breaking the Waves — e trata de morte e do além. Se este será realmente seu último filme depende de quanto se acredita num diretor que anunciou a aposentadoria várias vezes, começando pela depressão de 2007. Mas o Parkinson muda os termos. A câmera sempre tremeu. Era o método. Agora o método briga com o corpo por mais uma tomada.

Tags:

Discussão

Há 0 comentários.