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M. Night Shyamalan, o diretor que sobreviveu à própria marca

Foi "o próximo Spielberg", depois piada pronta e, em silêncio, o cineasta de thrillers de orçamento médio mais controlado dos Estados Unidos. A história não fala de reviravoltas: fala de um autor que reinventou Hollywood a partir do subúrbio de Filadélfia e agora ensina as filhas a fazer o mesmo.
Penelope H. Fritz
M. Night Shyamalan
M. Night Shyamalan
Photo via The Movie Database (TMDB)
Nascimento6 de agosto de 1970
Mahé, Puducherry, India
OcupaçãoCineasta
Conhecido porO Sexto Sentido, Fragmentado, Corpo Fechado
PrêmiosOscar · Padma Shri (Government of India, 2008) · BAFTA · Saturn Award nominations across multiple films

Não há outro diretor americano cujo nome tenha se tornado, em pouco mais de uma década, marca, piada e sentença ao mesmo tempo. A marca vendia o filme a qualquer um que aceitasse o contrato: pague o ingresso, espere a virada do terceiro ato. A piada — a chacota que cercou A Dama na Água, Fim dos Tempos e O Último Mestre do Ar — transformou o contrato em armadilha de decepção. A sentença, de que o autor de O Sexto Sentido havia desabado sob o peso da própria lenda, foi proferida antes mesmo de começar o capítulo seguinte. Esse capítulo já dura mais de dez anos e quase tudo nele defende que a sentença foi prematura.

Shyamalan cresceu em Penn Valley, subúrbio arborizado de Filadélfia, filho de dois médicos vindos do Kerala — o pai cardiologista, a mãe ginecologista. Nascido em Mahé em agosto de 1970 e levado para a Pensilvânia ainda bebê, filmou quarenta e cinco curtas antes de concluir a Episcopal Academy, depois fez a graduação em cinema na Tisch School of the Arts, da Universidade de Nova York. O caminho familiar evidente era a medicina; recusou-o e juntou trezentos e setenta e cinco mil dólares — três quartos de milhão — entre parentes e amigos para dirigir, aos vinte e um anos, o primeiro longa autobiográfico, Praying with Anger.

Veio a canonização. O Sexto Sentido estreou em 1999 e faturou perto de setecentos milhões com um orçamento de quarenta, somando seis indicações ao Oscar, entre elas Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original. Corpo Fechado, um ano depois, levou Bruce Willis e Samuel L. Jackson a uma desconstrução discreta do super-herói que o público só abraçou anos depois, quando o gênero antecipadamente desmontado por Shyamalan virou a principal exportação de Hollywood. Sinais, com Mel Gibson, ultrapassou duzentos milhões só nos Estados Unidos. A revista Newsweek o levou à capa com a manchete “O próximo Spielberg”. A Disney pagou cinco milhões por um esquema de roteiro mais o cachê de direção — a maior venda spec do mercado até então.

A curva entortou. A Vila dividiu a crítica pela revelação final. A Dama na Água, adaptada de uma história de ninar contada às filhas, foi recusada pela Disney, levada à Warner Bros, demolida na estreia e cercada por um livro sobre a briga entre diretor e estúdio que selou a imagem de um cineasta que já não escutava os próprios editores. Depois vieram Fim dos Tempos, O Último Mestre do Ar — que perdeu uma batalha de elenco contra fãs da animação Nickelodeon sobre whitewashing e achatamento de tom, levando cinco Framboesas — e Depois da Terra, veículo para Will e Jaden Smith que naufragou no mercado doméstico. No início da década seguinte, o nome já fora retirado dos próprios trailers; a marca tinha virado passivo.

O que veio em seguida é a parte que Hollywood ainda não soube copiar. Parou de filmar caro. A Visita, em 2015, custou cinco milhões financiados do próprio bolso, distribuídos pela Universal num acordo de output pessoal; faturou noventa e oito. Fragmentado, no ano seguinte, custou nove milhões e faturou duzentos e setenta e oito, e fechou com um plano que costurava as vinte e três personalidades de James McAvoy de volta ao universo de Corpo Fechado. Vidro encerrou a trilogia Eastrail 177. O modelo — locações na Pensilvânia, orçamentos abaixo de trinta milhões, controle criativo total, dinheiro próprio em risco — não se rompeu desde então.

M. Night Shyamalan
M. Night Shyamalan. Photo: Gage Skidmore from Peoria, AZ, United States of America / CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons (source)

O trabalho mudou por dentro. O “twist”, atalho que a crítica usa para fechar a conta, deixou de ser o eixo: o eixo virou a disciplina de não revelar. Batem à Porta, do romance de Paul G. Tremblay, recusou ao espectador quase todas as revelações esperadas. Armadilha, em 2024, prendeu o serial killer de Josh Hartnett no show pop ao qual a filha adolescente o havia implorado para levá-la, transformou a própria filha Saleka na popstar Lady Raven dentro do filme e se ofereceu como exercício estrutural sobre confinamento. A polêmica de O Último Mestre do Ar — o elenco principal de um material de origem asiática entregue a atores brancos sob direção de um indo-americano — segue no catálogo como capítulo em aberto que os filmes recentes não fingem reabrir.

A empresa familiar é a nova forma. Os Observadores, lançado em junho de 2024, foi a estreia em direção de sua filha Ishana Night Shyamalan, com roteiro adaptado do romance de A. M. Shine. Night produziu; vários atores fizeram questão de afirmar que ele se retirou do set. Saleka compõe e canta a música dentro dos filmes do pai. Bhavna Vaswani, sua esposa desde 1992, dirige a M. Night Shyamalan Foundation. A produtora fica no subúrbio de Filadélfia, longe de Burbank.

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Remain é o próximo: um romance sobrenatural concebido em parceria com o romancista Nicholas Sparks — o livro e o filme foram desenvolvidos em paralelo — com Jake Gyllenhaal como um arquiteto que se reconstrói em Cape Cod ao lado de Phoebe Dynevor, Ashley Walters e Julie Hagerty. A Warner Bros estreia em 5 de fevereiro de 2027, depois de tirá-lo do corredor de outubro de 2026 para mirar o fim de semana do Dia dos Namorados norte-americano. Nos upfronts da Warner Bros Discovery, em maio de 2026, Shyamalan disse aos anunciantes que era o filme mais bem-testado da carreira. É a frase que diretores costumam dizer nesses palcos; o estranho é que, na trajetória dele, soe verossímil.

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