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Sarah Silverman, a comediante do choque que aprendeu a falar do luto em voz alta

Trinta anos depois de construir uma marca sobre a ofensa calculada, Silverman virou a voz mais estável da comédia americana sobre morte, inteligência artificial e envelhecer sem desabar em nostalgia.
Penelope H. Fritz

Sarah Silverman passa trinta anos convidando o público a recuar um passo e em seguida puxando-o de volta para o riso, uma manobra que repetiu o suficiente para a piada já não estar no recuo. A piada é a volta. O que segue irresoluto na carreira não é como envelheceu o personagem que ela armou no começo dos anos 2000 — os olhos arregalados, a ofensa calibrada, a alergia ao pedido de desculpas. O que segue em aberto é como Silverman, ela mesma, se desprendeu dele, e o que escolheu colocar no lugar.

O que ela pôs ali, já na segunda metade dos cinquenta, é luto. PostMortem, o especial da Netflix lançado em maio de 2025, foi montado a partir do elogio fúnebre que escreveu para o pai, Donald Silverman, morto na primavera de 2023; sua madrasta Janice partiu nove dias depois. A hora não é homenagem. É Silverman no seu melhor registro: um problema sério mexido por baixo até entregar a mecânica privada, até o corpo que ia ser a piada virar aquele que sustenta a piada.

A biografia que produziu essa voz é mais arrumada do que o personagem deixava entrever. Silverman cresceu em Bedford, New Hampshire, caçula de cinco irmãs numa família judia — o pai mantinha uma loja de roupas, a mãe tocava uma creche, a irmã Susan viria a ser rabina reformista em Jerusalém. A infância que aparece nas memórias The Bedwetter é a de uma depressão longa, uma prescrição superlativa de Xanax e a intuição precoce de que as frases que os adultos não diziam em voz alta eram exatamente as que valia a pena dizer. Largou a Universidade de Nova York para fazer stand-up e foi contratada pelo Saturday Night Live aos vinte e dois anos. A emissora a dispensou depois de uma temporada. Nenhum dos sketches dela foi ao ar.

Na década seguinte foi atriz de caráter com um dos deadpans mais afiados de Nova York e a reputação de caso de teste: a fala diante da qual o espectador recuava era de fato uma fala, ou era a televisão que tinha decidido que ele devia recuar? Sarah Silverman: Jesus Is Magic, o filme-concerto de 2005, colocou a pergunta no cinema. The Sarah Silverman Program, três temporadas na Comedy Central entre 2007 e 2010, com indicação ao Emmy de melhor atriz em série de comédia, colocou-a em série. O viral «I’m Fucking Matt Damon», gravado para Jimmy Kimmel enquanto namoravam, levou o Primetime Emmy de 2008 e segue sendo o sketch noturno mais citado da década.

A fase choque terminou em silêncio, por iniciativa dela. A virada começou com o livro, acelerou com Take This Waltz, de Sarah Polley, em 2011, encontrou registro comercial em 2012 quando emprestou a voz a Vanellope von Schweetz em Detona Ralph e se firmou com um drama duro, I Smile Back, em 2015. A Guerra dos Sexos, dois anos depois, lhe deu Gladys Heldman, a empresária do circuito Virginia Slims, diante da Billie Jean King de Emma Stone. Quando Bradley Cooper a escolheu para Shirley Bernstein em Maestro, o caso Silverman como atriz dramática em atividade estava encerrado.

O parágrafo mais incômodo desse último decênio é o que ela mesma escreveu sobre si. Um sketch em blackface de 2007, retirado do programa na Comedy Central, persegue-a em cada entrevista desde 2018, e Silverman recusou as saídas fáceis: não apagou, não culpou a plateia, não culpou a época. Chamou-o de indefensável e continuou subindo no palco, que é a versão de autocrítica que pior viaja pela internet e melhor viaja ao vivo. O trabalho posterior àquela desculpa, incluído I Love You, America, o experimento na Hulu em que se sentava nas cozinhas de eleitores de Trump entre 2017 e 2018, é o trabalho pelo qual pede para ser julgada.

O ano em curso vem incomumente cheio. Estreou na Broadway em All Out: Comedy About Ambition, no Nederlander, entre janeiro e fevereiro de 2026, dividindo o elenco rotativo com Jon Stewart e Ray Romano. Entra na terceira temporada de Ninguém Quer Isso, da Netflix, como a rabina Eden, a professora calorosa e irônica de uma turma de Introdução ao Judaísmo. O podcast semanal que leva o nome dela, na Lemonada, segue no ar; a nova hora de stand-up, ensaiada nesta primavera em casas pequenas, deve rodar cidades médias durante o verão.

A ação coletiva que protocolou em 2023 contra a OpenAI e a Meta pelo uso de The Bedwetter como dado de treino para ChatGPT e LLaMA encolheu desde que a juíza derrubou quatro dos seis itens e deixou de pé apenas o de concorrência desleal sob a lei da Califórnia. Fez mais para enquadrar como uma geração inteira de roteiristas e atores pensa a IA generativa do que farão as decisões que afinal cheguem. Silverman, que sempre viveu de uma voz humana específica, tem credibilidade para continuar argumentando.

O que vem é mais uma gravação da nova hora, mais episódios do podcast e a negociação pública, lenta, de uma carreira que já dura mais do que as polêmicas que a pontuaram. A comediante do choque, contra as apostas que o próprio personagem parecia fazer, virou a voz firme.

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