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Vinnie Jones, o homem mais duro do futebol inglês decidiu chorar na frente da câmera

Penelope H. Fritz

As primeiras imagens que a Netflix está fazendo circular para promover Untold UK: Vinnie Jones não começam com um carrinho, um cartão vermelho ou uma careta de Guy Ritchie. Começam com um homem de jaqueta encerada caminhando ao amanhecer pela borda de uma fazenda em West Sussex. Ele para, olha para o chão e pede à câmera um minuto. O mesmo homem foi contratado por quarenta anos pelo Wimbledon, pelo Leeds, pelo Chelsea e depois por Hollywood para ser uma coisa só: o servente com más intenções, o leão de chácara com uma única fala de aviso, o careca que estoura a cara do protagonista. A pergunta interessante sobre Vinnie Jones, aquela que a fase final da carreira dele finalmente se permite fazer, é se alguém estava prestando atenção em quem ele era nos intervalos.

O esqueleto biográfico se conta rápido. Vincent Peter Jones, filho de um atacadista de peças automotivas de Hertfordshire, largou a escola aos dezesseis sem nenhum diploma e foi carregar massa em andaime. Só teve contrato profissional de futebol aos vinte e um. O Wealdstone, time semiprofissional, o contratou; passou uma temporada emprestado na Suécia, no IFK Holmsund; e no fim de 1986 o técnico do Wimbledon, Bobby Gould, o tirou do nada por dez mil libras, uma quantia que hoje não cobriria a hipoteca do fisioterapeuta de um clube da Premier League. Dezoito meses depois ele estava no gramado de Wembley no fim de uma final de FA Cup, depois de derrotar o Liverpool de Kenny Dalglish por um a zero. Tinha vinte e três anos. Nada nas quatro décadas seguintes igualou o inverossímil daquela tarde.

Em campo, o personagem tinha nome: a Crazy Gang. O Wimbledon montado no fim dos anos oitenta foi pensado de propósito para ser o que nenhum time grande queria pela frente: físico até o limite do regulamento, indiferente ao escudo do adversário, organizado para quebrar o jogo antes de jogá-lo. Jones era o emblema. Acumulou doze cartões vermelhos em 446 partidas de liga, segurou por anos o recorde de cartão amarelo mais rápido do futebol profissional inglês — três segundos contra o Sheffield United em Bramall Lane — e virou abreviatura tabloide de certo tipo de masculinidade inglesa da qual o esporte já tentava se livrar. Também capitaneou o País de Gales em nove jogos, ganhou a FA Cup e ganhou a vida sem sentimentalismo no Leeds, no Sheffield United, no Chelsea e no Queens Park Rangers, antes de voltar ao Wimbledon para fechar.

A virada, quando veio, foi quase um acidente. Um dominical havia escrito sobre Jones jogador; Guy Ritchie, estreante com uma comédia sobre golpes em mesa de carteado londrina, leu o texto e pediu para conhecê-lo. Lock, Stock and Two Smoking Barrels lhe deu o papel de Big Chris, cobrador de dívidas e pai dedicado. Não tinha formação, não tinha agente, não fazia ideia de como funcionavam os sindicatos do cinema, e saiu com o Empire Award de Melhor Revelação. Dois anos depois ganhou o mesmo prêmio na categoria de melhor ator britânico por Mean Machine, versão britânica de The Longest Yard ambientada numa prisão, em que pela primeira vez carregou o elenco. Snatch: Porcos e Diamantes, de novo para Ritchie, fixou a imagem que iria sustentá-lo nas duas décadas seguintes: careca, largo, perigoso, muito preciso na frase curta de ameaça.

É aqui, já na metade da vida, que a imagem pública começou a endurecer em alguma coisa de que ele mal conseguia sair. Hollywood o classificou sem pedir licença. Fez Sphinx em 60 Segundos, Juggernaut em X-Men: O Confronto Final e uma fila longa de caçadores de recompensas, leões de chácara e capangas carecas em filmes que ele mesmo admite nem sempre lembrar de ter rodado. Há um argumento legítimo, audível nas entrevistas recentes, segundo o qual o personagem deixou de servir ao trabalho em algum momento dos anos 2010, e segundo o qual o encaixotamento foi mais gentil com a conta bancária dele do que com o resto. Cantou em The Masked Singer como o Monster, venceu a versão americana de Celebrity Big Brother em 2010 e explorou a marca porque a marca pagava. Críticos que reduzem sua carreira a um longo dar de ombros raramente registram que ele é um dos pouquíssimos primeiros atores estreantes do cinema britânico a acertar duas vezes: uma com Ritchie nas bilheterias e outra, mais silenciosa, no protagonismo de Mean Machine.

A perda que reorganizou tudo veio em julho de 2019. Tanya Terry, esposa com quem casara em 1994, morreu aos cinquenta e três anos de um melanoma maligno, o mesmo câncer de pele do qual ele havia sobrevivido em 2013 a três cirurgias. Já contou por escrito e agora, repetidas vezes, diante de uma câmera: os meses sem conseguir levantar, o álcool, os trechos suicidas. A decisão interessante, na subida lenta, não foi fugir das câmeras mas deixar uma entrar. Voltou de Los Angeles para Petworth, em West Sussex, comprou uma fazenda de dois mil acres e deixou que a Discovery+ o filmasse aprendendo a tocar um campo.

Vinnie Jones in the Country, já na terceira temporada, não é o programa que o seu casting hollywoodiano permitia prever. É mais doce, mais triste, mais honesto sobre o luto do que o reality costuma se permitir. É também onde a Netflix foi buscá-lo para o documentário Untold UK que sai no fim de maio de 2026 como cabeça do primeiro pacote britânico do selo. Em torno do documentário ele engatou Reckless, um filme de ação com Scott Adkins lançado em maio, e um papel em Viva La Madness de Guy Ritchie, a continuação longamente prometida que o reúne com Jason Statham. A primeira coisa que ele fez com a visibilidade recuperada foi usá-la, desajeitada e demoradamente, para empurrar contra o silêncio rural sobre saúde mental. Não existe a versão dele de 1988 capaz de prever essa frase.

O que vem em seguida, conforme ele próprio descreve, é terminar Viva La Madness, pular a segunda metade da temporada da Discovery+ para conseguir viver o luto e aceitar o documentário da Netflix como uma espécie de encerramento público de um dos arquivos masculinos mais barulhentos da cultura britânica. O homem mais duro do futebol inglês, o capanga mais previsível do Hollywood médio, parece neste momento da vida — pela primeira vez em quarenta anos — autorizado a ficar em silêncio.

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