Ciência

Paredes de cavernas ibéricas preservaram DNA humano por 16.700 anos — mesmo onde não há arte rupestre

Peter Finch

Uma parede tocada na escuridão de uma caverna ibérica há 16 mil anos ainda pode carregar o DNA da pessoa que a tocou. Cientistas recuperaram material genético humano antigo das superfícies de 11 cavernas na Espanha e em Portugal — não apenas de paredes com pinturas, mas de rocha nua, sem pigmento, onde nunca foi encontrada arte alguma. A descoberta abre uma nova categoria de fonte paleogenética que ninguém havia pensado em procurar.

“Agora é possível para pesquisadores recuperar DNA de alguém que se apoiou numa parede há 20, 30 ou 40 mil anos”, disse Genevieve von Petzinger, especialista em arte rupestre e Exploradora da National Geographic envolvida no estudo. “Não é loucura?” Até hoje, o DNA humano antigo era recuperado quase que exclusivamente de ossos e de sedimentos — o chão das cavernas, não suas paredes. O estudo, liderado por Alba Bossoms Mesa do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva em Leipzig e publicado na Nature Communications, muda o lugar onde os pesquisadores sabem que devem procurar.

Como o DNA sobrevive na rocha

O mecanismo não é a pintura. É a presença. Quando uma pessoa pré-histórica tocava a parede de uma caverna — pressionando a mão contra a superfície, apoiando-se nela, cuspindo pigmento enquanto pintava — minúsculos traços de material biológico se transferiam para a rocha. Com o tempo, uma fina camada de carbonato de cálcio (calcita) se formava naturalmente sobre a superfície, lacrando esses traços sob uma capa mineral. A calcita agiu como um conservante, retardando a degradação do DNA por milhares de anos.

A equipe de Bossoms Mesa coletou 54 amostras de 24 painéis de arte rupestre em 11 cavernas e recuperou DNA humano antigo legível de 5 dessas amostras. O material genético foi encontrado em dois tipos de contexto: dentro de crostas de pigmento colorido em painéis pintados e — crucialmente — em superfícies de parede nuas, sem pigmento, onde não havia arte visível. Na Caverna de Escoural, em Portugal, um ponto pintado de vermelho que cobria uma crosta de calcita rendeu DNA de pelo menos 4 a 5 mil anos atrás. Duas amostras sem pigmento das paredes de Escoural forneceram DNA de um indivíduo masculino e um feminino. Na Caverna de Covarón, na Espanha, mais duas amostras sem pigmento renderam DNA de indivíduos femininos que viveram durante o período dos caçadores-coletores ocidentais, entre 5.200 e 16.700 anos atrás.

O que o DNA revela — e o que não pode

As linhagens de caçadores-coletores identificadas em Covarón empurram o alcance desta técnica de volta para o fim da última Era do Gelo. O fato de as amostras virem de superfícies não pintadas significa que os pesquisadores não estão mais confinados a estudar paredes com arte visível: qualquer parede de caverna por onde pessoas pré-históricas passaram, se apoiaram ou trabalharam é agora um registro genético em potencial.

Mas a técnica tem limites rigorosos. De 54 amostras, apenas 5 produziram DNA útil — uma taxa de sucesso inferior a 10%. O processo é destrutivo: cada amostra remove uma pequena porção da superfície permanentemente. E, embora o DNA mostre que alguém esteve ali, ele não pode identificar quem era essa pessoa a um indivíduo nomeado, nem confirmar se a pessoa cujo DNA permaneceu era o artista, um assistente ou um visitante que chegou séculos depois. Várias amostras também mostraram contaminação com DNA animal — de morcegos e roedores que compartilham os ambientes das cavernas há milênios. “Eu estava muito cética”, lembrou Bossoms Mesa quando os primeiros resultados chegaram. “Pensei: ‘Isso é bom demais para ser verdade’.”

A questão de saber se uma amostra portadora de DNA é pré-histórica ou uma contaminação moderna de pesquisadores, turistas ou conservadores é um desafio metodológico genuíno. A equipe usou controles em branco e manuseou as amostras sob condições rigorosas para distinguir material antigo — quimicamente degradado, com os padrões característicos de dano do DNA envelhecido — de intrusões modernas.

Por que as paredes nunca foram o lugar óbvio para procurar

A paleogenética cresceu exponencialmente nos últimos 20 anos, impulsionada por técnicas cada vez melhores para extrair e sequenciar DNA degradado de ossos antigos. A ciência nos deu os denisovanos, mapeou a introgressão neandertal em humanos modernos e traçou as rotas das populações agrícolas pela Europa. Tudo isso veio de tecidos duros — dentes, ossos — ou de sedimentos de cavernas.

As paredes das cavernas foram negligenciadas por uma razão prática: presumia-se que os pigmentos de tinta eram inorgânicos e biologicamente estéreis. Sabia-se que as crostas de calcita que recobrem muitas superfícies pintadas continham material orgânico útil para datação por radiocarbono, mas não para DNA humano. O insight da equipe FIRST-ART foi tratar a própria calcita como um meio de preservação, não meramente como um material para datação — e amostrar não apenas superfícies pintadas, mas qualquer parede que mãos pré-históricas pudessem ter alcançado.

Perguntas comuns sobre o DNA de paredes de cavernas

Isso pode ser feito em cavernas fora da Ibéria?

Em princípio, sim. O mecanismo de preservação baseado em calcita não é exclusivo da Espanha e de Portugal — ele ocorre em sistemas de cavernas calcárias globalmente. Altamira (Espanha), Lascaux (França), Chauvet (França) e dezenas de sítios na Austrália e na África são teoricamente viáveis. O fator limitante é a baixa taxa de sucesso: 9% das amostras renderam DNA neste estudo, o que exige uma amostragem extensa de sítios de patrimônio insubstituíveis.

Esse DNA nos diz quem pintou a arte?

Não necessariamente. O DNA de paredes não pigmentadas, em particular, pode vir de qualquer um que tenha passado pela caverna — um artista, uma criança, um caçador se abrigando da chuva séculos depois das pinturas terem sido feitas. Mesmo o DNA dentro de uma crosta pintada não pode estabelecer autoria. Ele confirma presença, não intenção.

Como o DNA antigo é distinguido da contaminação moderna?

O DNA antigo carreja danos químicos previsíveis: leituras incorretas de citosina para timina se acumulam nas extremidades dos fragmentos degradados ao longo do tempo. Os pesquisadores buscam esses padrões como uma assinatura de antiguidade genuína. Fragmentos sem esses padrões de dano são tratados como contaminação moderna e excluídos.

Que outras informações amostras futuras podem render?

Com DNA suficiente, os pesquisadores podem determinar o sexo biológico, a ancestralidade genética e — em alguns casos — traços físicos codificados em genomas antigos: genes de pigmentação, marcadores de susceptibilidade a doenças ou evidência genética de relações familiares entre indivíduos no mesmo sítio. Uma parede tocada por um grupo de pessoas aparentadas poderia, em princípio, render um retrato de família em fragmentos.

A equipe FIRST-ART identificou a Caverna de Altamira, na Espanha, como prioridade para amostragens futuras, dada sua concentração extraordinária de arte e a probabilidade de que múltiplas gerações de artistas tenham deixado traços em suas superfícies ao longo de milhares de anos.

Referência: Bossoms Mesa, A. et al., “Ancient human DNA from rock art and cave wall surfaces in Iberia,” Nature Communications, 2026. DOI: 10.1038/s41467-026-59948-3

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