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A Croácia não vence em noventa minutos — ela te desgasta, e aos 40 anos Modrić ainda dita o ritmo

Jack T. Taylor

Olhe a Croácia num jogo de mata-mata, naqueles minutos em que todos os outros já estão fundidos. As pernas pesam, a partida virou uma troca de erros, e no meio de tudo há um homem miúdo de xadrez vermelho que baixou tudo a uma velocidade que só ele parece governar. Dá o toque que mais ninguém tem tempo de dar. Acha o passe que deixa o time respirar. O relógio segue correndo e a Croácia, não se sabe como, é a única seleção em campo que parece ter a noite inteira pela frente. Não é assim que a maioria sobrevive a um torneio. É o único jeito que a Croácia conhece.

Nunca foi a seleção mais rápida de uma Copa, e jamais fingiu ser. O que este país faz é se recusar a ter pressa. Mantém a bola quando mantê-la é mais difícil, arrasta o jogo para além do ponto em que só o talento decide, e confia que, quando o duelo enfim se reduzir a nervos e pernas cansadas, as suas vão aguentar. Uma nação de menos de quatro milhões de habitantes chegou a uma final e a uma semifinal mundiais em dois torneios sobre essa única ideia. A Croácia não corre mais que o mundo. Ela o cansa.

O retrospecto chega a ser cômico de tão constante. Na Rússia tornou-se a primeira seleção a vencer três mata-matas de uma mesma Copa na prorrogação ou nos pênaltis: três noites seguidas se recusando a perder antes de o apito permitir. No Catar repetiu duas vezes, eliminando o Japão e depois o Brasil da marca da cal, os pentacampeões mandados para casa por um time que simplesmente não encerrava a discussão. Cinco dos seus últimos seis jogos de Copa foram à prorrogação. Passou por oito dos seus últimos dez mata-matas no torneio. Os outros temem os minutos depois dos noventa. A Croácia vai morar neles.

O homem que acerta o relógio

Tudo passa por um único jogador, e assim é há mais de uma década. Luka Modrić será o capitão da Croácia nesta Copa, a sexta, um número que só Cristiano Ronaldo e Lionel Messi alcançaram. Ele tem quarenta anos. E segue sendo o metrônomo, o que decide a que velocidade o jogo tem permissão de ir, e o método inteiro depende de uma verdade que não deveria mais ser verdade: que, quando o jogo acelera e entra em pânico, é ele quem o freia de novo.

É o dom que não aparece num compacto de lances. O valor de Modrić para este time nunca foi o gol nem o passe de ruptura, embora ainda tenha os dois dentro de si. É o tempo. Ele tira o veneno de um trecho caótico segurando a bola meio segundo a mais, fazendo do passe simples uma decisão e não um alívio. Um time que quer vencer o jogo longo precisa de alguém capaz de governar o tempo, e a Croácia passa dez anos com o melhor do mundo nesse ofício. A pergunta que este torneio faz é se ainda resta mais um mês disso nas pernas.

O motor e sua quilometragem

Atrás de Modrić, o meio-campo que o tornou possível está afinando. Mateo Kovačić, o corredor incansável que cobria o terreno que o capitão já não alcança, chega de uma temporada arruinada por um problema no tendão de Aquiles que o tirou por meses. Marcelo Brozović, o volante que se sentava atrás dos dois nas duas campanhas, não está mais neste retrato. O que Zlatko Dalić fez no lugar deles foi iniciar uma transição às claras: convocou Luka Sučić, Petar Sučić e Martin Baturina, jovens meio-campistas a quem pede que aprendam, no palco mais exigente possível, a única coisa de que a Croácia não pode abrir mão.

É algo delicado de ensinar. Controlar um jogo de Copa não é questão de energia, que os jovens têm de sobra; é saber quando não gastá-la. Dalić, no comando desde a campanha de 2018 e dono de toda essa experiência em mata-matas, aposta que pode levar os veteranos longe o bastante para que os garotos absorvam o método antes de o motor falhar. O perigo é o óbvio. Apoie-se num jogador de quarenta anos por noventa minutos mais prorrogação, jogo após jogo, e em algum momento o corpo cobra a conta.

Uma Copa feita para castigá-los, ou feita para eles

Esta Copa é a maior e a mais dura fisicamente já realizada: quarenta e oito seleções, três países-sede, voos longos e o calor do verão enfiados num calendário que não dá a ninguém muita margem para recuperar. Para quase todos é um aviso. Para um time cuja identidade inteira é a resistência, corta para os dois lados. O torneio que mais castiga as pernas cansadas também é o que mais premia a seleção mais à vontade nas águas profundas, aquela que há uma década fez do aguentar um hábito.

Então a Croácia entra como a prova mais pura da própria tese. Se o jogo longo é um método e não só uma lembrança, este é o palco feito para provar. Se no fundo sempre foi um homem só freando o relógio, este é o palco com mais chance de revelar quanto peso esse homem carregava. Num formato tão exigente não há como se esconder da resposta. Decidem as pernas, e as pernas não mentem.

O sorteio, e onde a Croácia vive de verdade

O grupo é justo e revelador. A Croácia estreia contra a Inglaterra, o tipo de adversário de peso que diz cedo se o controle ainda está lá ou se o time agora corre atrás do jogo em vez de governá-lo. Depois vêm o Panamá e Gana, seleções que a Croácia deve superar mantendo a bola longe delas e se recusando a entrar numa corrida. Em primeiro ou em segundo, pouco muda a forma das coisas, porque a fase de grupos nunca foi onde a Croácia define um torneio.

Onde ela vive é no mata-mata, as noites de jogo único que pendem para a prorrogação e os pênaltis, exatamente o terreno sobre o qual esta seleção construiu toda a sua fama. É a parte da chave que deveria assustar o resto. Ninguém quer umas oitavas que se igualam e escorregam para a última meia hora com a Croácia ainda calma e ainda tocando a bola. Os times com mais talento aprenderam, já duas vezes, que não é o talento a mais que vence essas noites.

O argumento

A Croácia não é a seleção mais talentosa desta Copa e não perderia um segundo querendo parecer. O que ela tem é um método que duas vezes a levou mais longe do que seus recursos permitiriam, e o jogador que sempre foi seu coração pulsante, mantido um torneio a mais porque ninguém ainda provou que o time saiba governar o tempo sem ele. A aposta é que a velha recusa aguente um mês: que sigam capazes de baixar o ritmo ao próprio pulso mesmo quando esse pulso é o de um homem de quarenta anos, e entreguem o relógio aos jovens antes que ele pare. Se aguentar, a Croácia volta a ser o time que ninguém quer cruzar nas rodadas em que os jogos se recusam a terminar. Se o motor enfim parar, é aqui que o jogo longo se esgota. De um jeito ou de outro, não terão pressa de descobrir. A pressa nunca foi deles.

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