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Dublin Dons: por que a mudança de um clube da Premier League para a Irlanda morreu numa sala de reuniões, não em campo

Kenji Nakamura

Um clube da Premier League esteve perto de disputar suas partidas em casa em Dublin. Não um amistoso, nem uma apresentação pontual, mas uma temporada inteira do futebol inglês de elite do outro lado do Mar da Irlanda, com um estádio construído para esse fim à espera no oeste da cidade. O plano tinha dinheiro por trás, apoiadores famosos e — segundo a maioria das pesquisas realizadas na época — um público que o desejava. Ainda assim, desmoronou. E o motivo de seu fracasso é mais revelador do que o romantismo dessa oportunidade perdida: os Dublin Dons nunca foram derrotados em campo ou nas bilheterias. Foram derrotados em uma sala de reuniões, por uma regra sobre quem tem o direito de dizer não.

A versão mais conhecida dessa história é um conto de sonhadores e um proprietário cínico. Nela, o comentarista Eamon Dunphy persegue uma fantasia, o presidente do Wimbledon, Sam Hammam, acena com Dublin para arrancar um preço melhor, e o establishment do futebol irlandês faz o papel de estraga-prazeres. Tudo isso é verdade, em certa medida. Mas essa leitura trata o desfecho como um acidente de personalidades, quando ele foi, na realidade, produto de uma estrutura — a mesma arquitetura que ainda decide para onde os clubes podem e não podem ir.

É preciso começar pelo motivo de o Wimbledon estar disponível. Depois de perder sua casa em Plough Lane na esteira do Taylor Report, o clube mandava seus jogos no Selhurst Park, do Crystal Palace, e atraía públicos que uma equipe da primeira divisão não conseguiria sustentar. Hammam precisava de um estádio e de uma torcida; Dublin oferecia ambos. Um consórcio foi formado em torno do promotor Tommy Higgins, do empresário do U2 Paul McGuinness e do incorporador imobiliário Owen O’Callaghan, que asseguraram um estádio para 40 mil espectadores no oeste de Dublin, com possibilidade de ampliação muito além disso. O preço divulgado pelo controle do clube era modesto até para os padrões da época. No papel, o negócio funcionava.

O fato decisivo era onde estava o poder de veto. Uma mudança transfronteiriça desse tipo precisava da bênção da associação nacional do destino — a Football Association of Ireland — e a decisão da FAI, na prática, respondia aos próprios clubes que a mudança prejudicaria. A League of Ireland via a chegada de uma franquia da Premier League à capital como um evento de nível extinção; torcedores alertavam que o futebol doméstico estaria morto em cinco anos. O diretor-executivo da FAI, Bernard O’Byrne, foi ainda mais direto: “Não vamos permitir isso, ponto final.” A própria Premier League demonstrava curiosidade — seu diretor-executivo, Rick Parry, admitiu que a ideia “não foi simplesmente descartada” — e as autoridades máximas do futebol mundial se contentaram em deixar a decisão nas mãos da FAI. Essa era a armadilha. O interesse na Inglaterra não importava, tampouco as pesquisas de opinião em Dublin. A única entidade com poder para bloquear a mudança estava estruturalmente vinculada aos ocupantes estabelecidos que mais a temiam.

A própria conduta de Hammam trouxe a segunda lição. Enquanto a Irlanda discutia consigo mesma, ele vendeu o Wimbledon a uma dupla norueguesa por uma soma muitas vezes superior ao que, segundo relatos, havia pedido ao grupo de Dublin pelo controle do clube. O veredito de Dunphy foi: “No fim, Sam nos usou como isca.” Lida friamente, essa frase revela menos vilania do que clareza: para seu proprietário, o clube era um ativo negociável, e a “expansão” era uma rota para uma saída melhor, não um projeto cívico. Uma mudança vendida como a nova fronteira do futebol era, no topo da cadeia, um exercício de avaliação de valor.

Há uma tentação de arquivar os Dublin Dons entre os charmosos e se, ao lado do gol do meio-campo que os convidados irlandeses do Wimbledon por acaso assistiram no dia em que a ideia se tornou pública. Isso diminui sua importância. A saga é um modelo prático de como o futebol de fato distribui poder: não ao mercado, não aos torcedores, mas ao guardião nacional — e, quando esse guardião responde aos clubes que um recém-chegado ameaçaria, o recém-chegado perde antes de a bola rolar. Os debates modernos sobre ligas dissidentes e franquias transfronteiriças continuam esbarrando no mesmo muro.

A prova está no que aconteceu depois. O clube que não pôde cruzar o Mar da Irlanda, porque uma associação rival tinha poder de veto, recebeu permissão, poucos anos mais tarde, para se mudar pela rodovia até Milton Keynes — onde ninguém detinha esse poder — e se tornou o MK Dons. Seus torcedores exilados recusaram a mudança, recomeçaram na nona divisão como AFC Wimbledon e voltaram a subir. A mudança que o sistema proibiu em Dublin aconteceu mesmo assim, apenas em uma direção que nenhum guardião poderia bloquear. Ao que parece, o futebol deslocará um clube para quase qualquer lugar — só não para um local em que alguém munido de um livro de regras tenha o direito de dizer não.

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