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A Inglaterra carregou sua história por sessenta anos: um alemão a colocou no chão

Jack T. Taylor

Desde que se lembra qualquer um que hoje assista a uma partida, o problema da Inglaterra nunca foi o elenco. Era o que se pedia que esse elenco carregasse. A camisa ficava pesada lá pela hora de jogo de um mata-mata, e os futebolistas mais dotados de sua geração de repente pareciam homens tentando lembrar como se corre. O talento nunca foi a pergunta. O peso era.

Thomas Tuchel não chegou para resolver o talento. Chegou para tirar o peso, e fez isso do único jeito que um estranho consegue: recusando-se a acreditar em qualquer coisa disso. Um alemão não sente o fantasma de um pênalti perdido. Não ouve a canção. Olha para a seleção mais vigiada do planeta e vê um trabalho a fazer, vinte e seis nomes e um problema a resolver, e construiu algo que, pelos longos e doloridos padrões ingleses, mal parece inglês.

Comecemos pelo que ele deixou de fora. A lista que deu para a América do Norte é um exercício de subtração. Trent Alexander-Arnold, Phil Foden, Cole Palmer, três dos atacantes mais naturalmente dotados que o país produziu numa década, todos em casa. Harry Maguire e Luke Shaw, homens que viveram torneios inteiros com a camisa inglesa, fora também. Não são os cortes de um treinador que se protege das críticas. São os de um treinador que decidiu para que serve sua equipe e a quem nenhuma compilação de lances fará mudar de ideia.

Para o que serve é para não sofrer gol. É esse o traço, reduzido ao osso, e as eliminatórias o enunciaram sem um único asterisco: oito jogos, oito vitórias, vinte e dois gols marcados e nenhum sofrido. Nenhuma seleção havia mantido o gol em branco num grupo inteiro de oito jogos nas eliminatórias europeias. A Inglaterra conseguiu sem nunca parecer no limite, e é essa a parte que deveria inquietar o resto. O gol em branco não foi um cerco. Foi um hábito.

A noite em que isso se anunciou foi em Belgrado. A Sérvia em casa é o tipo de jogo que historicamente apertou o peito de uma equipe inglesa: uma torcida hostil, um adversário físico, as condições exatas em que as seleções inglesas tantas vezes descobriram que seu sangue-frio era emprestado. A Inglaterra venceu lá por cinco. Sem drama, sem um final de tirar o fôlego para sobreviver, nada a suportar. Simplesmente fizeram o trabalho e embarcaram. Uma equipe definida por décadas por como sofre havia, na única noite feita para sofrer, decidido não sofrer de jeito nenhum.

Há uma arquitetura por baixo disso. Tuchel pegou a espinha dorsal que Gareth Southgate levou anos para montar e a tornou mais dura, mais fria, mais certa de suas tarefas. Jordan Pickford atrás de uma defesa organizada em torno de Marc Guehi, que se tornou em silêncio um dos zagueiros mais confiáveis do futebol europeu. Declan Rice à frente, fazendo a contabilidade ingrata que permite a todos os de cima arriscar. E então os que arriscam: Jude Bellingham, Bukayo Saka, o capitão Harry Kane surgindo na área meio segundo antes da bola, como fez a carreira inteira. O talento ofensivo não desapareceu. Apenas foi obrigado a viver dentro de uma estrutura que não depende dele para estar seguro.

É essa a virada real. A Inglaterra costumava precisar que seus atacantes a salvassem, e a necessidade aparecia; via-se em como a equipe se lançava à frente e ficava ansiosa assim que o placar continuava igual. A Inglaterra de Tuchel não se lança. Mantém a forma, nega a meia chance e espera que Kane ou Bellingham resolvam a coisa num único movimento limpo. É uma equipe feita para vencer por um a zero sem sentir nada com isso, e para a Inglaterra, um país que transformou a própria mágoa futebolística numa espécie de folclore nacional, não sentir nada é a ideia mais radical que alguém tentou em uma geração.

Chegam ao torneio em quarto no mundo e sorteados, para uma grande competição, com clemência. O grupo oferece primeiro a Croácia, o único teste de verdade, uma velha e teimosa nação de futebol que sabe exatamente como desacelerar um jogo e fazer um favorito duvidar, antes de Gana e Panamá. A Inglaterra deveria passar. Ranking, forma e a simples distribuição de qualidade dizem que também deveria passar a maior parte do que vem depois do grupo. Nada disso jamais foi o problema. A Inglaterra já chegou favorita a torneios e voltou para casa cedo o bastante para fazer o favoritismo parecer uma piada.

Então aqui está a pergunta que a Copa vai de fato fazer ao projeto de Tuchel, e ela é mais afiada do que parece. Ele teve sucesso tirando o romantismo, construindo uma equipe que não se emociona, não se carrega, não sente a história. Mas uma Copa não é vencida na fase de grupos pela equipe que defende melhor por noventa minutos controlados. Em algum lugar das quartas ou das semis há uma noite em que a estrutura segura e o jogo mesmo assim não se abre, em que o gol em branco está intacto e sem sentido e alguém precisa fazer algo que um sistema não consegue ordenar: um gesto de sangue-frio, de recusa, um jogador decidindo o confronto com a própria vontade porque nada mais vai fazê-lo. A Inglaterra fracassa exatamente aí há sessenta anos.

Pode uma equipe projetada para não sentir nada invocar algo quando a engenharia se esgota? É essa a incógnita real, e não é uma falha no pensamento de Tuchel, mas o exame final dele. Deu à Inglaterra o que ela nunca teve: um piso. Esta seleção não vai se ridicularizar, não vai desabar, não vai sofrer o gol cedo e mole que transforma um torneio numa investigação. O piso é real e é alto. O que ninguém ainda sabe, o que Belgrado e uma campanha perfeita não podem nos dizer, é se uma equipe tão deliberadamente esvaziada de emoção ainda guarda um teto, e se o homem que tirou o peso levou junto algo de que a Inglaterra vai precisar quando a estrutura estiver gasta e a noite exigir um coração.

Os amistosos contra Nova Zelândia e Costa Rica não vão nos dizer nada disso. A estreia contra a Croácia vai nos dizer um pouco. A verdade chega mais tarde, no tipo de noite que a Inglaterra sempre perdeu, e desta vez, por uma vez, ela a enfrentará sem a sua história amarrada às costas. Pode ser exatamente o que a salve. Pode ser a única coisa de que ela acabe sentindo falta.

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