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França vence Senegal na Copa, mas quem resolveu foi Mbappé — não o sistema

Kenji Nakamura

O placar diz uma coisa; o jogo dizia outra. Por quase uma hora, no estádio de Nova York/Nova Jersey, a seleção que quase todos apontam como favorita ao título não achou caminho diante de um Senegal que decidiu, com bom senso, encurtar o campo. A França levou os três pontos e vai ficar com eles. O que não mostrou, até o fim, foi ser algo além do melhor jogador individual do torneio cercado por um plano ainda por escrever.

Vale começar pela formação, porque a formação explica essa primeira hora. Didier Deschamps armou um 4-2-3-1: Maignan atrás de Koundé, Saliba, Upamecano e Théo Hernández; Tchouaméni e Rabiot como duplo volante baixo; Olise, Dembélé e Doué à frente, com Mbappé na ponta de lança. No papel, um ataque de orçamento nacional. No gramado, contra um rival recuado, uma falha de estrutura que nada tem a ver com talento: ninguém tinha a função de romper a primeira linha de pressão por dentro.

A Lição do Bloco Médio Senegales

O Senegal de Pape Thiaw deu à França uma aula sobre o valor do bloco médio. Duas linhas de quatro coladas, a bola entregue ao adversário e o desafio lançado à favorita: jogue dentro da aglomeração. É a armadilha em que cai um time de posse cujo meio-campo foi montado para proteger, não para progredir. Tchouaméni e Rabiot tranquilizam quando é preciso segurar a vantagem ou sair em transição; não costuram uma defesa fechada. Com os dois recuados, a distância entre o meio e os quatro de frente esticou, e a bola correu pelos lados.

Os homens encarregados de decidir deixaram o problema à vista. Dembélé, Olise e Doué vivem nos corredores entre lateral e zagueiro, onde um giro corta uma defesa ao meio. O Senegal simplesmente não abriu esses corredores. Kalidou Koulibaly comandou o miolo, os laterais se fecharam e, sempre que um atacante francês recebia entre linhas, já tinha dois marcadores em cima. Édouard Mendy passou o primeiro tempo como espectador. Os 58 por cento de posse não compraram quase nada: ter a bola sem penetrar é só fazê-la girar.

O que mudou no segundo tempo não foi uma sacada tática, e sim a decisão de gastar mais energia. A França subiu a linha de pressão e foi buscar a saída do Senegal em vez de esperar; Sadio Mané e Nicolas Jackson não conseguiam mais dar dois passes seguidos. Empurrado para trás, o Senegal perdeu a base que tornava seu bloco baixo suportável, e o jogo pendeu. Vale nomear com precisão, porque resolver um problema e passar por cima dele não são a mesma coisa. A França não venceu o Senegal pensando: subiu a pressão até o Senegal quebrar.

O Brilho Individual de Mbappé

E então havia Mbappé. O primeiro gol foi o resumo da noite: não uma jogada ensaiada, mas um lampejo individual. Olise enfiou o passe no único vão que o Senegal deixou no jogo inteiro e Mbappé finalizou de primeira diante de Mendy. Era seu gol de número 57 pela França, o que o igualou a Olivier Giroud no topo dos artilheiros franceses — marca que Giroud levou 137 jogos para fixar e que Mbappé alcançou no 99º. O número impressiona. E resume o problema: o jogador que tapa o buraco estrutural é o mesmo que bate todos os recordes, então o buraco passa despercebido.

O colchão veio do banco. Bradley Barcola, no lugar de Dembélé, fez o segundo a oito minutos do fim, e dali o placar começou a favorecer a atuação. Lançado ao ataque, o Senegal achou enfim o espaço que havia negado a si mesmo, e Ibrahim Mbaye descontou nos acréscimos. Por mais de noventa minutos foi um jogo de um gol de diferença. Mbappé recolocou os dois gols de vantagem no sétimo minuto de acréscimo: seu 58º, o recorde agora só dele. O resultado diz tranquilo; os noventa minutos diziam algo mais perto de suficiente.

Nada disso diminui o que a França é. Um time capaz de ser apagado por uma hora e vencer mesmo assim porque seu melhor é o melhor do mundo é, por definição, perigoso — e Deschamps construiu todo o seu ciclo na ideia de que torneios são vencidos por equipes sólidas que deixam a qualidade decidir. Maignan trabalhou pouco, a defesa só cedeu no último suspiro e o resultado nunca esteve em risco real depois da pressão. Pragmatismo não é defeito: é um método, e já levou a França a uma final e a um título.

Pragmatismo e a Condição de Fracasso

Mas o pragmatismo tem uma condição de fracasso, e o Senegal a desenhou sem desferir o golpe. Mané e Jackson tiveram chances em contra-ataque e as desperdiçaram; um adversário de mata-mata que defenda com a mesma disciplina e converta essas meias chances não perdoa como o Senegal perdoou. O plano da França contra um bloco baixo, hoje, é esperar a pressão render e Mbappé aparecer. Contra o Senegal bastou. Contra um time igualmente organizado com um centroavante que finaliza, essa mesma hora estéril vira gol sofrido em transição.

O ajuste não é exótico. A França tem me-campistas capazes de conduzir e quebrar linhas: um perfil mais de chegada ao lado de Tchouaméni, uma ordem mais clara para Rabiot aparecer em vez de só proteger, um movimento de centroavante que arraste um zagueiro e abra os corredores. Outra coisa é Deschamps querer mexer num método que funciona, e a resposta sincera é que provavelmente não, porque esse método rendeu três pontos e uma noite de recorde.

Assim a França deixa a estreia na liderança e inteira, e o rótulo de favorita sobrevive porque se dá por talento, e o talento francês não está em dúvida. Em dúvida está o time abaixo do talento. Por uma hora, o Senegal fez a favorita parecer um amontoado de peças brilhantes esperando que uma fizesse algo sozinha, e uma fez. É um bom jeito de vencer um jogo de grupo. É um jeito frágil de vencer uma Copa. A França venceu o Senegal; não respondeu à pergunta que o Senegal fez.

Perguntas frequentes

Qual foi a formação tática da França no início do jogo?
A França iniciou com um esquema 4-2-3-1, com Maignan no gol e uma linha defensiva composta por Koundé, Saliba, Upamecano e Théo H.

O que mudou no segundo tempo para a França?
No segundo tempo, a França aumentou a intensidade e a linha de pressão, buscando ativamente a saída de bola do Senegal.

Por que o rótulo de favorita da França sobrevive?
O rótulo de favorita da França se mantém devido ao seu talento individual, especialmente de jogadores como Mbappé, que podem decidir jogos mesmo quando o time não está em seu melhor momento.

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