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Haaland leva a Noruega às oitavas da Copa na estreia que esperou a vida toda

O finalizador mais frio da sua geração tinha tudo, menos o palco. Agora ele tem — e os gols chegam exatamente como todo mundo temia.
Jack T. Taylor

Erling Haaland chegou à sua primeira Copa do Mundo como o atacante mais letal da sua geração e, ao mesmo tempo, como o único craque do torneio que nunca tinha disputado um grande campeonato. Dois jogos depois, com um doblete em cada um, a Noruega está nas oitavas — e a finalização parece tão inevitável quanto todos tinham medo que fosse.

Há uma crueldade específica em ser o melhor do mundo em alguma coisa e não ter onde provar isso. Por quase toda a carreira de Haaland, foi esse o formato da história dele: um atacante que marcava como se respirasse, empilhando gols em Manchester, em Dortmund, em Madri e em Munique, sem nunca entrar em campo no único torneio que mede um jogador contra o planeta inteiro. Os troféus vieram. Os recordes vieram. O palco, nunca.

Agora ele tem o palco, e está tratando esse palco como quem esperou tempo demais para ter educação com ele. A Noruega avançou porque o seu camisa 9 marcou nos dois tempos da sua Copa até aqui — dois contra o Iraque, depois dois contra Senegal — e fez a vitrine mais exigente do futebol parecer apenas mais uma tarde de trabalho.

Os números beiram o absurdo

Haaland desembarcou nesta Copa com mais de 350 gols como profissional, entre clube e seleção, e nenhuma partida em um grande torneio internacional, porque a Noruega não se classificava para um desde 1998 — quando ele ainda nem tinha nascido. Uma geração inteira de jogadores noruegueses cresceu, se aposentou e sumiu enquanto o país ficava de fora, verão após verão. Ele tem 25 anos, já é o maior artilheiro da história da seleção e, até poucas semanas atrás, a Copa do Mundo era algo que ele assistia pela televisão, como todo mundo.

Dava para ver tudo isso comprimido no seu primeiro toque no torneio. Foram 29 minutos para marcar o seu primeiro gol de Copa contra o Iraque e, no intervalo, ele já tinha dois — o suficiente, em um único tempo, para igualar todo o recorde de gols da Noruega em Copas, uma marca que pertencia a Kjetil Rekdal havia quase três décadas. “Deu para ver que ele esteve à altura da ocasião”, disse o técnico Ståle Solbakken depois. “A ocasião não foi grande demais para ele.” É o tipo de coisa que treinador costuma dizer. Com Haaland, soou como um eufemismo.

Contra Senegal foi mais difícil, e isso pesou mais. A estreia tinha sido um passeio; este foi um jogo de briga. Marcus Pedersen abriu o placar depois que a defesa senegalesa se desmontou, e então Haaland fez aquilo que o separa dos meramente excelentes. Logo no início do segundo tempo, ele matou a parada — uma finalização batida cedo, sem armar o pé, a bola já indo antes de o goleiro terminar de se posicionar. Ismaila Sarr puxou Senegal de volta para o jogo, e dava para sentir a partida pendendo. Então Haaland marcou de novo, um chute limpo o bastante para encerrar a discussão pela segunda vez. O gol tardio de Sarr deixou o placar respeitável e os minutos finais nervosos, mas o resultado nunca se moveu de verdade — porque o jogador que decide partidas assim estava de vermelho.

A frieza que ninguém consegue copiar

É essa a característica, e vale nomeá-la com precisão, porque é fácil confundi-la com algo mais gentil. Haaland não é um criador. Ele não flutua pelo jogo para enfeitá-lo. O que ele tem é a coisa mais rara e mais fria que um atacante pode possuir: a certeza de que, quando a chance chega, ela vai ser convertida. Não a maioria delas. Não as fáceis. A chance. Olhe para ele dentro da área e não há deliberação, não há floreio — só uma economia que parece quase entediada até a rede balançar. A espera, dá para desconfiar, afiou esse jogador em vez de amaciá-lo. Um homem mantido longe do palco por uma década não chega agradecido. Chega faminto.

A Noruega não é só Haaland, e seria reduzir a história fingir o contrário. Martin Ødegaard, capitão do Arsenal, é o futebolista mais refinado da equipe, o que transforma posse em chances, e Solbakken montou um time em torno dos dois que é mais do que um sistema de entrega para um atacante. Mas Ødegaard passou a temporada lutando contra o próprio corpo, uma lesão atrás da outra, e um torneio não espera um armador encontrar o ritmo. O que tem rendido até aqui é a moeda mais simples do jogo. A Noruega criou o suficiente, Haaland converteu, e essa foi a diferença entre assistir à Copa e estar dentro dela.

Agora vem a França, em Boston

Agora eles estão dentro de vez. Duas vitórias, seis pontos, empate na liderança do grupo e um confronto com a França em Boston para decidir quem termina em primeiro. Esse é o tamanho do que já aconteceu: uma Noruega que não vencia um jogo de Copa desde antes de a maior parte do elenco nascer vai entrar em campo contra os favoritos ao título não para sobreviver, mas para disputar a ponta. Não se engane — este é um time sério, e o chaveamento depois do grupo é do tipo que faz seleções maiores conferirem com quem podem cruzar.

É justo perguntar até onde a característica sozinha pode levá-los. Uma Copa do Mundo se ganha com elenco, com profundidade, com a capacidade de segurar uma vantagem de um gol no calor de uma quartas de final, quando o seu melhor atacante está sendo chutado, cercado e privado de bola. A Noruega ainda não passou por esse teste, e em algum momento vai passar. O argumento honesto a favor deles não é que sejam favoritos; é que ninguém no chaveamento quer pegá-los, porque um time com um finalizador tão implacável só precisa que o jogo lhe dê um momento — e Haaland não erra o momento.

O que fica, porém, não é a pergunta tática. É a humana. Durante anos, a cobrança em cima de Haaland — injusta, mas insistente — era a de que a grandeza dele acontecia no vácuo, um fenômeno confinado ao futebol de clubes e a eliminatórias que ninguém lembrava, nunca testado contra os melhores na noite que mais importa. A Copa do Mundo era a linha que faltava no currículo, e a crueldade estava em que a lacuna não era culpa dele. Ele podia marcar 50 gols por temporada e ainda assim não controlar se o seu país chegava ao verão.

Esse argumento está se fechando, gol a gol, em tempo real. Ele está na briga pela artilharia do torneio ao lado de Lionel Messi e Kylian Mbappé — os dois homens cujas carreiras foram tudo o que a dele deveria ter sido — e chegou lá fazendo a única coisa que sempre lhe pediram, no único palco que sempre lhe negaram. Aconteça o que acontecer contra a França, traga o que trouxer o mata-mata, o silêncio em torno daquela lacuna foi quebrado. Erling Haaland está em uma Copa do Mundo, enfim, e marca do jeito que sempre marcou em todo lugar. A espera, no fim das contas, não mudou nada — a não ser quanto tempo o mundo teve que esperar para ver.

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