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Copa do Mundo 2026: o ranking dos melhores da primeira rodada — e quem lidera é um goleiro

Ordenado não pelos gols marcados, mas por quem dobrou o jogo à própria vontade: do paredão de Vozinha diante da Espanha ao hat-trick de Messi, as dez atuações que decidiram a rodada de estreia.
Jack T. Taylor

A primeira rodada de uma Copa do Mundo revela quem apareceu de verdade. Quarenta e oito seleções, um único jogo cada uma, e dentro deles um punhado de jogadores que não esperaram para entrar no clima do torneio. Agarraram o jogo pela gola e o dobraram à própria vontade. Este é um ranking desses homens: não os dez que mais marcaram, mas os dez que mais se impuseram.

A ordem segue uma única regra. Um gol numa vitória tranquila vale menos que uma atuação que resgatou, ou decidiu, um confronto que o jogador não tinha direito de controlar. A importância do jogo e a resistência vencida pesam mais que a contagem. Por essa medida, o primeiro desta lista nunca tocou na bola na área adversária e quase não saiu da sua.

1. Vozinha (Cabo Verde) — o paredão que segurou

Um goleiro encabeça uma lista de atacantes pelo que se recusou a permitir. A Espanha veio em ondas sobre Cabo Verde e encontrou um homem de quarenta anos impossível de vencer: sete defesas, a última e melhor um espacate completo para negar o gol a Aymeric Laporte. Cabo Verde disputa sua primeira Copa do Mundo; saiu com um ponto diante de uma das favoritas e um goleiro que tinha decidido, sozinho, que o placar ficaria empatado. A obstinação não se treina. Ele jogou noventa minutos dela.

2. Lionel Messi (Argentina) — o ofício que não apaga

Na sua ducentésima partida pela Argentina, Messi respondeu à única pergunta que restava sobre ele com um hat-trick diante da Argélia que o igualou a Miroslav Klose como maior artilheiro da história das Copas, dezesseis gols numa carreira que se recusa a terminar em termos que não sejam os dele. Não foi a corrida de um jovem. Foi a economia de um mais velho: o meio metro de espaço encontrado, o passe medido que nada exige de quem recebe, a finalização executada como se ensaiada. A Argentina nunca correu perigo. Messi simplesmente garantiu isso.

3. Kylian Mbappé (França) — o instante fatal

Por uma hora, Senegal fez a França trabalhar, pressionou, acreditou. Aí Mbappé decidiu que a discussão tinha acabado. Dois gols num surto contido do segundo tempo, o segundo um chute que vai sobreviver ao resultado, e um 3-1 que parecia tudo menos definido virou sobre um único arranque da sua aceleração. O dom não é ser rápido. É que ele escolhe o instante exato em que uma defesa já se comprometeu e não tem como voltar. A França não controlou aquele jogo. Seu camisa dez encerrou mesmo assim.

4. Erling Haaland (Noruega) — a fome de quem foi feito esperar

A Noruega não chegava a esse palco havia uma geração, e o jogador que carregava esse jejum recuperou o tempo perdido assim que pisou nele. Dois gols e uma assistência diante do Iraque, um 4-1, uma estreia em Copa entregue com o apetite de quem assistiu a muitas dessas de casa. Haaland joga como se o gol lhe devesse algo. Pelo que mostrou na sua primeira noite neste palco, deve mesmo, e ele pretende cobrar.

5. Harry Kane (Inglaterra) — o fardo do capitão, carregado

As estreias da Inglaterra costumam ser assuntos pesados e nervosos, e a Croácia veio para não fazer deste uma exceção. Kane tirou o peso de todos os outros. Dois gols, sete finalizações, nove toques na área croata: um centroavante que não deixou a ocasião encolher seu jogo e arrastou a Inglaterra a um 4-2 que não bajulou ninguém, mas acalmou os nervos. Carrega esta seleção há anos sem o prêmio que justifique. Liderou o primeiro passo de mais uma tentativa do único jeito que conhece: pela frente.

6. Folarin Balogun (Estados Unidos) — o pertencimento, provado

Um país-sede se apoia nos seus atacantes para parecer que tem lugar ali, e Balogun passou noventa minutos diante do Paraguai provando o dele. Dois gols num 4-1, o segundo encobrindo no ângulo com uma calma que não vem natural a um jogador que ainda responde perguntas sobre qual camisa deveria vestir. Os Estados Unidos precisavam de alguém para fazer o barulho de uma Copa em casa parecer conquistado, e não concedido. Seu atacante conseguiu, e fez com total naturalidade.

7. Michael Olise (França) — a mão tranquila sobre o ritmo

Mbappé levou as manchetes contra Senegal; Olise levou o prêmio de melhor em campo, e os dois fatos estão ligados. A vitória da França passou por um meio-campista que ditou o compasso, achou o passe antes da corrida e fez o jogo andar na velocidade que servia aos seus, e não aos adversários. Existe um tipo de jogador que decide partidas sem nunca parecer apressado, e Olise foi exatamente isso naquela noite: o maestro que deixa o solista brilhar.

8. Yasin Ayari (Suécia) — os gols que ele não quis comemorar

A Suécia aplicou cinco na Tunísia, e o homem que marcou dois deles ficou parado as duas vezes. Ayari, cujo pai é tunisiano, recusou-se a comemorar contra o país a que pertence metade da sua história: um gesto pequeno e deliberado de contenção numa noite de desregramento. A atuação foi categórica; o silêncio depois dizia mais sobre o jogador. O esporte insiste em nos lembrar que as pessoas dentro das camisas levam vidas inteiras para o trabalho, e de vez em quando uma delas mostra exatamente onde fica a linha.

9. Ayyoub Bouaddi (Marrocos) — a frieza de um garoto de dezoito anos

O Brasil esperava atropelar o meio-campo e encontrou um adolescente impossível de tirar do lugar. Bouaddi, dezoito anos, passou noventa minutos pensando mais rápido que Casemiro e Bruno Guimarães, segurando a bola quando os mais velhos à sua volta a entregavam, e ajudando o Marrocos a um 1-1 que as favoritas ficaram gratas por levar. A serenidade nessa idade, contra tal companhia, é a coisa mais rara que a primeira rodada produziu. O Marrocos desencavou alguém com quem o resto do torneio terá agora de se preocupar.

10. Elijah Just (Nova Zelândia) — o ponto que ninguém deu a eles

O Irã era favorito e teve de dividir. Just marcou os dois gols da Nova Zelândia num 2-2, um atacante arrastando uma seleção que vive às margens desses torneios a um resultado que ela vai lembrar muito depois de os nomes maiores esquecerem o jogo. A primeira rodada pertence a atuações como a dele tanto quanto às estrelas acima dele: um jogador sem nenhuma vantagem que levou um ponto, porque ninguém disse a ele que não podia.

Dez jogadores, uma rodada, e um ranking que põe um goleiro acima de quem quebrou um recorde porque a Copa do Mundo não é decidida por quem marca mais nos jogos fáceis, e sim por quem se recusa a ceder nos difíceis. As hierarquias serão testadas de novo em questão de dias. Estes são os homens que avisaram primeiro.

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