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Neymar: o maior artilheiro do Brasil que não pôde dar ao país o que mais esperava

Penelope H. Fritz
Neymar
Neymar
Photo: Granada / CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons
Nascimento5 de fevereiro de 1992
Mogi das Cruzes
OcupaçãoFutebolista profissional
PrêmiosJogador de Futebol Sul-Americano do Ano u00b7 Samba Gold

O pênalti que deu ao Brasil o primeiro ouro olímpico foi o momento que poderia ter feito tudo fazer sentido. No Maracanã, num gramado onde a Alemanha tinha marcado sete gols em um único jogo contra o Brasil dois anos antes, Neymar da Silva Santos Júnior se colocou na marca da cal, hesitou na corrida e mandou o goleiro para o lado errado. O estádio soltou tudo o que vinha segurando havia anos — a dor, a expectativa, o peso impossível de uma cultura do futebol que nunca se perdoou totalmente pela final de 1950 — e, quando a bola bateu na rede, ele exalou.

Não terminou ali, claro. Terminou em julho de 2026, em lágrimas num gramado em Nova Jersey, depois que o norueguês Erling Haaland marcou duas vezes e o sonho do Brasil na Copa do Mundo acabou nas oitavas de final. Neymar converteu um pênalti no fim para fazer 2 a 1, que foi a última coisa que ele faria vestindo a camisa verde e amarela. Ele deixou o campo como o maior artilheiro da história do seu país, com 80 gols internacionais — três a mais que Pelé — e sem a única coisa que faria esses números parecerem completos.

Ele nasceu em Mogi das Cruzes, uma cidade no cinturão industrial do estado de São Paulo que produziu, ao longo de muitas gerações, mais operários do que pessoas famosas. O pai dele, Neymar Santos Sr., jogou profissionalmente sem deixar grande marca no futebol; o que deu ao filho não foi um caminho, mas uma obsessão. Quando o menino tinha onze anos, o Santos FC já o tinha na sua base. Quando fez dezessete e estreou como profissional, já parecia alguém que tinha chegado de um outro registro do jogo.

Os anos de Santos são os que estabeleceram o que ele era capaz de fazer quando ninguém olhava com muita atenção. Ele marcou repetidamente com audácia — o gol que venceu o Prêmio Puskás da FIFA em 2011, uma cavadinha de precisão ultrajante contra o Flamengo, continua sendo um dos poucos momentos individuais que sobrevivem à passagem do tempo sem precisar de contexto. Naquele mesmo ano, ele deu ao Santos a primeira Libertadores desde a era Pelé, vencendo o prêmio de MVP do torneio e o Futebolista Sul-Americano do Ano, e tinha vinte e um anos. Quando saiu para o Barcelona por €57 milhões, a América do Sul já tinha formado sua opinião: este era o melhor brasileiro desde Ronaldinho, talvez desde o próprio Pelé, e todos esperavam que a Europa confirmasse.

A Europa confirmou, na maior parte. No Barcelona, ao lado de Lionel Messi e Luis Suárez no trio de ataque mais temido da época, ele contribuiu com 105 gols em 186 partidas e foi central na tríplice coroa de 2015 — La Liga, Copa do Rei e Liga dos Campeões numa única temporada. Era nominalmente a terceira roda daquela parceria, embora em certos jogos fosse o motor e não a engrenagem. O que Barcelona confirmou foi que ele pertencia ao mais alto nível; o que não conseguiu resolver foi se uma carreira daquela magnitude poderia ser totalmente construída em torno de outro jogador daquela magnitude. Em agosto de 2017, o Paris Saint-Germain respondeu à pergunta pagando €222 milhões por ele e colocando-o no centro de um projeto, e não na borda de um.

O que se seguiu no PSG foram cinco títulos da Ligue 1, uma final de Liga dos Campeões em 2020 (perdida para o Bayern de Munique), 118 gols e seis anos de conversas em que Neymar aparecia mais como assunto do que como protagonista. As lesões se acumularam. As quedas teatrais em campo viraram tema recorrente para os críticos. A transferência de €222 milhões, que muitos no Brasil leram como uma decisão financeira e não futebolística, tornou-se o argumento contra ele sempre que os resultados ficavam aquém. A leitura crítica de Neymar — e ela precisa existir, não como crueldade, mas como precisão — é que ele pode ter escolhido o caminho do maior ganhador em vez do caminho do competidor mais decorado. Existem versões da decisão de 2017 em que a contraproposta do Barcelona era competitiva e o dinheiro do PSG simplesmente pesou mais. O acordo com o Al-Hilal em 2023 carrega uma lógica semelhante: a Arábia Saudita não era a última parada para um jogador no auge, mas era a última parada que pagava no nível dele. O LCA que ele rompeu na sua primeira partida pelo Brasil depois de chegar a Riade encerrou o debate ao torná-lo irrelevante — sua carreira no Al-Hilal consistiu em uma única partida.

O que a lesão fez foi fraturar um corpo que nunca tinha sido, nem no seu melhor momento, simples. Ele voltou ao Al-Hilal no final de 2024, rompeu o tendão da coxa quase imediatamente, e estava de volta ao Santos FC em 2025, jogando por um salário-base modesto, mas com direito a 90% de suas receitas de marketing. Marcou 12 gols. Renovou o contrato até o fim de 2026. Fez parte da seleção para a Copa do Mundo e jogou, porque se ainda havia um capítulo que poderia mudar a forma da história, era aquele.

Não havia. A Noruega venceu. Haaland marcou duas vezes. Neymar teve um pênalti e um microfone e usou ambos. Ficou em pé no MetLife Stadium e chorou de um jeito que não era encenação e descreveu, nos segundos antes do anúncio oficial de aposentadoria, tudo o que os números não tinham conseguido dizer: que o recorde existia, que era real, que era dele, e que não era suficiente.

O contrato com o Santos vai até dezembro de 2026, e uma decisão sobre a aposentadoria total do futebol de clube está pendente. Como quer que isso termine, o que resta é a aritmética de uma carreira que produziu mais gols pelo Brasil do que qualquer ser humano na história, e a pergunta em aberto sobre se o recorde e o legado são a mesma coisa.

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