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Jon Stewart sobre a final da Copa: “um Super Bowl ao contrário: os jogadores em espanhol e o show do intervalo em inglês”

Kenji Nakamura

Um comediante não deveria ser o leitor mais afiado da sala depois de uma final de Copa do Mundo, mas Jon Stewart construiu um quarto de século sendo exatamente isso — o outsider que nomeia aquilo que todos os outros só perceberam pela metade. Abrindo o The Daily Show na noite seguinte à coroação da Espanha como campeã mundial, ele não recorreu a táticas ou desgosto. Ele foi direto à costura: a estranha e reveladora lacuna entre o torneio que acabara de terminar e o país que o sediou.

“Claro, a Copa do Mundo acabou ontem, finito, com a Espanha derrotando a Argentina por 1 a 0 no campo, no footy,”

Ele disse isso no início do programa, de acordo com a Variety, em um registro mock-British — “finito”, “the footy” — que dizia exatamente onde ele estava: fora do esporte, observando a embalagem. Então veio a frase que emoldurou a noite. A final Espanha–Argentina, disse Stewart, foi “um Super Bowl reverso, onde os jogadores falavam espanhol e o show do intervalo era em inglês”.

Leia como um sistema, do mesmo jeito que se lê uma partida, e a piada se revela um diagnóstico. A final foi decidida no MetLife Stadium, em Nova Jersey — o torneio mundial resolvido em solo americano, entre duas nações de língua espanhola. E, pela primeira vez, a FIFA aparafusou um Super Bowl nela: um show de intervalo genuíno, um espetáculo global-pop em inglês encabeçado por Madonna, Shakira, Justin Bieber e BTS, um intervalo esticado por mais de vinte e cinco minutos e inserido no meio da final mais latina que o jogo poderia ter produzido. A inversão de Stewart capta o fato estrutural que uma reportagem de jogo ignora. O jogo pertencia a uma língua; o show pertencia a outra.

A persona é o argumento. Stewart interpreta o americano que não sabe falar direito de futebol — “the footy” — e esse analfabetismo é o instrumento, não o defeito. Ele não está lendo a forma da pressão da Espanha ou a jogada que venceu na prorrogação; ele está lendo a encenação, e a encenação é onde a tensão realmente vivia. O país que é dono do Super Bowl tentou transformar a Copa do Mundo em um, e o que produziu foi um espetáculo ligeiramente em guerra com sua própria plateia: um show em inglês se apresentando sobre um estádio que tinha vindo para cantar em espanhol.

Essa é a parte que vale a pena guardar quando a risada se apaga. Se a costura que Stewart nomeia é real — e a programação do intervalo sugere que sim — então esta final é uma prévia do que acontece quando o jogo do mundo é executado pela gramática do entretenimento americano. O esporte chega global e multilíngue; a embalagem chega monolíngue e familiar, e um dos dois tem que ceder. Por mais de noventa minutos foi o futebol que ditou os termos. Pelos vinte e cinco no meio, foi o show.

A Espanha levantou o troféu. O ato do intervalo, como Stewart foi o único a notar em voz alta, estava cantando em uma língua diferente da dos homens que acabavam de vencê-lo.

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