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Copa do Mundo 2026: Cabo Verde estreia contra a Espanha e o mais difícil já passou

Um país de meio milhão de habitantes, uma seleção remontada a partir da diáspora: os Tubarões Azuis chegam a Atlanta, e os campeões europeus são o prêmio, não o teste que já passaram.
Jack T. Taylor

Ryan Mendes tem trinta e seis anos e, durante quase toda a carreira, a Copa do Mundo foi algo que acontecia com os países dos outros. Nesta tarde, num estádio de Atlanta, ele vai levar o seu Cabo Verde ao gramado para a primeira partida de Copa que as ilhas já disputaram. Do outro lado estará a Espanha: campeã europeia, segunda colocada do ranking mundial, um país que fabrica jogadores irrepetíveis com a mesma constância com que Cabo Verde fabrica emigrantes.

O improvável dessa partida não é o placar. Essa conta qualquer um faz. O improvável é Cabo Verde estar ali: um país de meio milhão de pessoas, dez lascas de rocha vulcânica no meio do Atlântico, entrando no maior torneio do planeta como se fosse o seu lugar. Chegar a Atlanta foi a façanha. O jogo é a recompensa.

O difícil foi chegar

Cabo Verde garantiu a vaga em casa, em Praia, numa noite que as ilhas esperaram por toda a sua história no futebol. Venceram Essuatíni e o segundo tempo foi inteiramente deles, com o veterano Stopira entre os artilheiros — um homem velho o bastante para ter passado a carreira ouvindo que um país daquele tamanho não vai a uma Copa. Terminaram em primeiro no grupo africano, à frente de Camarões, uma potência com oito Copas e uma população muitíssimo maior. Sete vitórias, dois empates e uma única derrota. Não foi sorte que escorregou por uma brecha do sorteio. Foi uma campanha.

O autor de tudo isso atende por Bubista. Pedro Leitão Brito foi zagueiro e capitão de Cabo Verde, nunca saiu das ilhas para treinar fora e foi eleito o melhor técnico da África pelo que construiu com uma federação que não pode gastar mais do que ninguém. Seus times pressionam na frente e saem rápido, porque uma seleção sem banco profundo não pode se dar ao luxo de defender noventa minutos e torcer. Há mais de uma década competem em silêncio. A diferença, agora, é que o mundo inteiro é obrigado a olhar.

Uma nação reunida de volta

Para entender o time é preciso entender onde nasceram os seus jogadores, que na maioria não foi Cabo Verde. Vivem mais cabo-verdianos fora das ilhas do que nelas; o arquipélago manda a sua gente para longe há gerações, para Lisboa e Roterdã, para a França, para as velhas cidades fabris da Nova Inglaterra. O elenco é essa dispersão remontada. Jogadores criados em Portugal, nos Países Baixos, na França e na Irlanda, atraídos de volta pela bandeira que os pais e avós levaram para fora do porto. Logan Costa, o único que joga numa das grandes ligas europeias, é o pilar da defesa do Villarreal; voltou de uma cirurgia no joelho poucas semanas antes da convocação. Em volta dele, um grupo vindo de mais de uma dúzia de países, unido por um passaporte que muitos tiveram de escolher.

Por quase todo o século passado, as ilhas foram conhecidas pelo mundo por uma única exportação, e não era o futebol. Era a música: a morna que Cesária Évora levou descalça de Mindelo aos palcos do mundo inteiro, canções construídas em torno da sodade, aquela dor tão particular de quem parte e de quem fica com saudade. Um país que transformou a dor da partida na sua arte nacional mandou agora uma segunda coisa diante da qual o mundo parou. Este time também é feito de partidas. Só que joga de chuteira.

O outro lado da linha

A Espanha é o oposto de tudo isso. Onde Cabo Verde contou cada corpo disponível, a Espanha deixou em casa jogadores que seriam titulares em quase qualquer seleção do torneio. É campeã europeia e há dois anos é a régua pela qual todos se medem. Seu símbolo é Lamine Yamal, que ergueu aquele título continental um dia depois de completar dezessete anos e ainda tem só dezoito, um adolescente que já carrega as expectativas de uma superpotência do futebol. Uma lesão muscular o deixou de fora desde a primavera europeia, e ele chega para entrar no decorrer do jogo, não para começar — o que mostra o cuidado com que a Espanha pode tratar até a sua maior joia. Cabo Verde não tem o luxo de poupar ninguém.

A diferença de recursos é real, e os Tubarões Azuis não vão fingir o contrário. Mas não vieram como turistas. É uma seleção que bateu boas equipes, que defende com organização e ataca com velocidade de verdade, e que cruzou o Atlântico para competir, não para tirar foto diante dos campeões europeus. Bubista não vai montar o time para admirar a Espanha. Vai montá-lo para incomodá-la enquanto as pernas aguentarem.

Nas arquibancadas estará Cabo Verde, o país que vive em todo lugar ao mesmo tempo. Atlanta fica longe de Praia, mas não da maior comunidade cabo-verdiana fora das ilhas, a espalhada pela Nova Inglaterra e pronta para descer de carro. Vão cantar um hino que muitos dos próprios jogadores aprenderam como segunda canção, dentro de um estádio que quase nenhum imaginou lotar. Para um país que passou a história vendo os filhos partirem, este time é a coisa rara que traz todos de volta ao mesmo lugar e na mesma hora.

O que acontecer depois do apito inicial é outra história, e pode ser dura. A Espanha é favorita, e o resto do Grupo H, com Uruguai e Arábia Saudita ainda pela frente, também não será generoso. Mas Cabo Verde já fez o que não lhe podem mais tirar. A menor das nações se colocou numa Copa do Mundo, por mérito, e pôs onze dos seus filhos no mesmo campo que os campeões europeus. Diga o que disser o placar no fim, as ilhas já venceram a parte que fica.

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