Cibersegurança

Óculos Ray-Ban Meta enviavam gravações íntimas para o Quênia sem avisar os usuários

Adrian Kessler

Quando os óculos Ray-Ban Meta apontam para uma sala, eles gravam. De acordo com uma ação coletiva protocolada em um tribunal federal da Califórnia, essa gravação então viajou para a Sama, uma empresa de moderação de conteúdo sediada no Quênia, onde trabalhadores revisaram as imagens e as rotularam para treinamento de inteligência artificial. A denúncia descreve imagens que incluíam pessoas indo ao banheiro, se despindo, praticando atividade íntima e crianças durante trocas de fralda e banho. Rostos nas gravações eram identificáveis, alega o processo, apesar do esforço declarado de anonimização da Meta.

A Meta vendeu esses óculos com uma promessa específica. “Os óculos inteligentes Ray-Ban Meta são construídos com a privacidade em seu cerne”, escreveu a empresa em seus materiais de marketing no lançamento. A ação coletiva argumenta que essa afirmação não era precisa. O processo se baseia em depoimentos de trabalhadores da Sama, que descreveram o que haviam revisado em entrevistas a jornalistas investigativos suecos no início deste ano.

Uma denúncia alterada protocolada no final de agosto amplia a classe de autores em uma direção juridicamente significativa: agora inclui pessoas que nunca compraram ou usaram os óculos — transeuntes que apareceram em gravações feitas por outra pessoa em um restaurante, uma casa, um local de trabalho ou um espaço público. Os advogados estimam que a classe expandida abrange milhões de pessoas. A inclusão de transeuntes, indivíduos que não tinham nenhuma relação com o produto, é o elemento juridicamente mais inovador do caso.

Há uma distinção a ser traçada entre o que o processo alega ser ilegal e o que é rotina na indústria de IA. A revisão humana de dados de treinamento de IA é padrão em todo o setor. Empresas como Apple, Google e Amazon já usaram contratados para revisar gravações de voz, imagens e outros dados de usuários para melhorar seus modelos. A Meta invoca exatamente essa comparação em sua resposta: revisar dados para melhoria do produto “funciona da mesma forma que muitas outras empresas.” A teoria jurídica aqui é mais restrita — que usuários e transeuntes nunca foram informados de que isso estava acontecendo dentro de um produto cujo marketing inteiro se baseava na privacidade.

As alegações permanecem não comprovadas. O caso está em litígio inicial, a Meta rejeitou a caracterização do que os trabalhadores da Sama revisaram, e os tribunais historicamente têm sido cautelosos em conceder legitimidade a autores transeuntes que não tinham relação direta com um produto. A Clarkson Law Firm, que co-lidera o caso, tem um histórico de ultrapassar os limites legais de processos de privacidade do consumidor — e um histórico de perder alguns deles.

O próximo patamar é a certificação da ação coletiva, onde um juiz decidirá se a classe de usuários e a classe de transeuntes podem prosseguir juntas ou separadamente — ou sequer prosseguir. Essa decisão determinará se o argumento de que transeuntes detêm direitos de privacidade sobre imagens capturadas por hardware que nunca escolheram possuir chega a julgamento. A Meta disse que vai contestar as alegações.

Tags: , , , , ,

Discussão

Há 0 comentários.