Televisão

‘Manual de Assassinato para Boas Garotas’ volta à Netflix com Pip incapaz de parar

A segunda temporada da adaptação de Holly Jackson deixa de ser um projeto escolar e vira o retrato de uma adolescente boa demais nisso para conseguir largar
Martha O'Hara

Pip Fitz-Amobi fechou o caso de Andie Bell em seis episódios e num trabalho de escola, e disse a todo mundo — primeiro a si mesma — que tinha terminado. A segunda temporada de Manual de Assassinato para Boas Garotas é a série descobrindo que se dizer isso não resolve. Uma adolescente boa nesse trabalho descobriu que ser boa não é a mesma coisa que conseguir largar. A temporada não é sobre se ela resolverá outro caso. É sobre se a palavra ‘Boas’ do título ainda descreve a pessoa em que ela teve de virar.

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A premissa do whodunit adolescente, quando dá certo, nunca é o caso. É a relação da protagonista com o ato de reparar. A linhagem vai de Nancy Drew a Veronica Mars e aterrissa, em 2026, numa garota de uma cidadezinha fictícia em Buckinghamshire cujo podcast da primeira temporada a deixou famosa na própria rua e pouco confiável em algumas das cozinhas dela. O que a série herda do gênero é a detetive metódica. O que ela quebra é a carapaça protetora: a convenção de que a sleuth adolescente sai intacta do próprio sucesso. O sucesso de Pip na primeira temporada é o que causa o problema dela na segunda. O gênero não tinha, até agora, levado a sério o custo de a protagonista vencer.

O novo desaparecimento — Jamie Reynolds, irmão do melhor amigo dela, Connor, somido na noite de uma homenagem — é o caso. A história de verdade é o que o caso está fazendo com as mãos dela. Ela continua puxando a planilha. Continua gravando num celular que tinha jurado guardar. Os ouvintes da primeira temporada são agora o problema dela: alguns gratos, outros hostis, outros convencidos de que indiciaram o homem errado. O julgamento de Max Hastings, que a investigação dela ajudou a abrir, é a trama institucional correndo por baixo da temporada. Se ele será condenado, a série deixa em aberto. Se Pip consegue deixar isso ser problema do sistema e não dela, a série trata como o ponto inteiro.

A decisão estrutural que sustenta a temporada é o áudio do celular. A primeira temporada tornou o podcast diegético — gravações que ela editava, episódios que publicava. A segunda mantém a forma e inverte o sentido. Toda gravação é uma que ela disse que não ia fazer. Asim Abbasi, que dirige a abertura e o encerramento da temporada, enquadra esses momentos com o celular visível no meio do cômodo, de modo que se assiste Pip decidir gravar e gravando ao mesmo tempo. O diálogo não daria conta disso. Só o objeto visível do telefone dá. Jill Robertson dirige os quatro episódios do meio e dá a eles músculo procedimental.

Existe um contexto britânico específico em que a série é lida. O país viveu publicamente com a pergunta sobre o que significa quando instituições não resolvem os casos que deveriam. A cidade de Pip, Little Kilton, não é um desses lugares — é fictícia, suburbana, confortável. Mas o pressuposto dela é o de qualquer adolescente britânica com podcast hoje: ela não espera que o sistema resolva, espera ter que resolver. A temporada trabalha ainda uma segunda veia: o que o fandom de true crime faz com as pessoas em quem fixa. A audiência de Pip é uma força que ela precisa administrar, e a série trata essa administração como trabalho sério.

Holly Jackson assina os episódios um, quatro, cinco e seis; Poppy Cogan, os dois e três. A divisão não é à toa. Jackson fica com os capítulos em que a pressão moral aperta mais, em que a família de Pip e a família de Cara Ward precisam estar na mesma sala que a investigação. Quem leu Boa Garota, Mau Sangue chega esperando fidelidade e a temporada entrega. O que a série acrescenta ao livro é o aparato cinematográfico para carregar o interior de Pip de um jeito que a prosa só insinuava.

O modelo de coprodução Netflix-BBC-ZDFneo também faz parte da história. Seis episódios de quarenta e cinco minutos não é o formato Netflix de dez nem a minissérie BBC de quatro: é o meio-termo negociado. Sinaliza uma série tratada como ofício televisivo e não como combustível de plataforma. Outra decisão separa a temporada dos pares: Emma Myers interpreta Pip na idade real dela — voz, postura, vergonha, reação de pânico. A estética continua no registro adolescente mesmo quando a violência não está.

"Two young people standing outside at night, one in the foreground with arms crossed looking thoughtful, the other slightly blurred in the background. The environment is dimly lit with greenery and a stone wall visible."

A série não finge saber se o que Pip faz é vocação ou mecanismo de sobrevivência. O final da primeira temporada a deixou como uma garota que tinha sobrevivido a alguma coisa. A segunda faz a pergunta para a qual a família dela ainda não tem palavras: o que custa a uma adolescente ser a pessoa que repara — e, uma vez tendo sido essa pessoa, em que condições ela tem permissão para não ser mais. O caso se resolverá. O custo não. A garota que começou a primeira temporada não está mais ali, e a série tem a honestidade de não dizer que pode devolvê-la.

Os seis episódios de Manual de Assassinato para Boas Garotas temporada 2 estreiam em 27 de maio de 2026 na Netflix na maioria dos territórios e na BBC Three e BBC iPlayer no Reino Unido e na Irlanda; a mesma data vale na Alemanha na ZDFneo. Emma Myers volta como Pip Fitz-Amobi e Zain Iqbal como Ravi Singh. Misia Butler chega como Stanley Forbes; Eden Hambelton Davies interpreta Jamie Reynolds; Jack Rowan aparece como Charlie Green. Asim Abbasi dirige os episódios um e seis; Jill Robertson, do dois ao cinco. A temporada adapta Boa Garota, Mau Sangue, o segundo romance da série YA de Holly Jackson, produzida pela Moonage Pictures para a BBC e Netflix.

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