Atores

Emma Myers sai de Wandinha para resolver o caso sozinha

Penelope H. Fritz

Aos vinte e quatro anos ela carrega a melhor amiga loba de Wandinha e a próxima protagonista do thriller adolescente da Netflix, ambas no mesmo ano e na mesma plataforma. Daqui a seis dias estreia a segunda temporada de A Good Girl’s Guide to Murder, e é essa estreia que vai dizer se o segundo papel é o que vai ficar.

A adolescente que se candidatou ao papel de Wandinha Addams ganhou o quarto ao lado. A escolha tinha lógica: Enid Sinclair, com seu guarda-roupa em código de cores e sua simpatia sem pose, era o oposto estrutural de que a protagonista precisava e um lugar em que uma jovem atriz confiável podia se fixar por anos. Três temporadas depois, Emma Myers é a única egressa de Nevermore que a Netflix chamou de volta para liderar outra série, e esse segundo trabalho já chega com o nome dela no alto dos créditos.

Veio de Orlando, segunda de quatro irmãs em uma casa em que os dois pais eram advogados. A família educou as filhas em uma cooperativa de homeschooling; Myers já contou que a comunidade que uma escola normalmente fornece ela teve de montar em estúdios de dança e no teatro local. A dança veio primeiro. A interpretação apareceu aos cinco anos, observando uma irmã mais velha em testes de elenco e anunciando, com a seriedade inapelável de uma criança que acabou de decidir, que também conseguiria fazer aquilo. O primeiro trabalho remunerado veio aos oito: um episódio de The Glades e uma participação em Letters to God, ambos rodados perto de casa.

Pela adolescência os créditos foram se somando sem virar carreira: o thriller da Lifetime Girl in the Basement, um curta, uma comédia romântica da ABC que fechou após uma temporada, um filme natalino de TV, um terror que nunca saiu. O tipo de papel que uma atriz jovem trabalhando vai cumprindo enquanto espera o teste que decide o resto.

Esse teste chegou em 2021, quando ela gravou para o papel-título da releitura dos Addams que Tim Burton preparava. O casting acabou se decidindo entre Jenna Ortega e mais alguns nomes; Myers foi redirecionada para Enid Sinclair, a loba que divide quarto com a protagonista e oferece o calor que Wandinha se recusa a produzir. A série estreou na Netflix em novembro e pulverizou o recorde de horas vistas em inglês da plataforma. A conversa que veio depois apresentou Myers ao público melhor do que se apresenta a maioria dos protagonistas. Enid virou o personagem que os espectadores indicavam um ao outro como motivo para continuar quando a escuridão de Wandinha virava castigo prolongado.

Naquela acolhida havia uma armadilha. O papel mais provável de lançar a carreira de uma jovem atriz também é o mais provável de fixá-la: a melhor amiga radiante de um fenômeno viral vira quantidade fixa, difícil de recolocar como protagonista. Departamentos de elenco leem química, não a atriz. O que Myers fez desde então sugere que a equipe ao redor dela viu a armadilha e se moveu de propósito contra. Nos doze meses seguintes ao lançamento de Wandinha, ela abriu cartaz com Jennifer Garner em Family Switch, uma comédia de troca de corpos da Netflix que a posicionou ao lado de uma estrela de Hollywood fora da órbita Addams; na mesma temporada aceitou um papel pequeno em Southern Gospel, um drama do circuito cristão que servia de contraprogramação tonal. Nenhum dos dois construiria carreira sozinho. Juntos provaram que a carreira não tinha forma de Enid.

A prova de verdade veio com A Good Girl’s Guide to Murder. A série britânica, adaptada por Poppy Cogan a partir do romance de Holly Jackson, foi ao ar primeiro na BBC Three em 2024 antes de a Netflix distribuí-la globalmente. Myers vive Pippa Fitz-Amobi, uma aluna do último ano de ensino médio que reabre um caso de assassinato-suicídio arquivado na cidade pequena que preferia ter esquecido. Pip é o motor de cada cena. O papel exigiu carregar uma série de seis horas: ser consciência, suspeita e desconforto de um espectador conduzido por provas insuficientes. A renovação veio em poucos meses. Jackson, que assinou os romances, voltou para coescrever a segunda temporada. Nada disso acontece se a atriz protagonista não estiver fazendo o trabalho.

Os meses entre temporadas afinaram a aposta. Um Filme Minecraft a colocou ao lado de Jack Black e Jason Momoa numa adaptação de videogame com campanha global de lançamento — seu primeiro longa de grande estúdio com o nome na faixa de cima do cartaz — e rendeu um Kids’ Choice Award. Star Wars: Visions somou trabalho de voz na antologia animada da Lucasfilm. A segunda temporada de Wandinha, lançada em 2025, deu a Enid a promoção que as roteiristas vinham segurando: no encerramento ela se torna loba Alfa permanente, empurrada para a posição de força que a série mantinha apenas implícita. O arco fora de cena se encaixou ao de dentro com precisão incomum.

O que é público sobre a vida privada de Myers é o que ela mesma confirmou. Vive com discrição, fala das irmãs com frequência nas entrevistas e aparece em eventos como quem preferia estar lendo um romance de Holly Jackson em vez de pisar tapete vermelho. Disse, mais de uma vez, que o homeschooling não a preparou para a conversa miúda das estreias. Não há namoro público. A versão de Myers lendo o cômodo em que está continua sendo o que há de mais interessante em qualquer entrevista dela.

Os próximos dezoito meses vão decidir o formato da próxima década. A terceira temporada de Wandinha é gravada na Irlanda e em Paris, com uma volta a Nevermore que as roteiristas já anunciaram como um deslocamento de Enid para o centro do quadro. A Good Girl’s Guide to Murder volta em 27 de maio com o segundo romance de Holly Jackson adaptado em seis episódios. Angry Birds 3: O Filme chega em dezembro com Myers em um papel principal de voz. A Forbes a colocou na lista 30 Under 30 de Hollywood de 2026, o tipo de sinal de consenso que o setor publica quando já decidiu. A demonstração que falta a Myers fazer no resto do ano é se ela é mesmo a protagonista que o setor agora está dizendo que ela é.

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