Negócios e finanças

Meta corta 8.000 empregos —10% do quadro— enquanto os investimentos em IA passam de US$ 115 bilhões

A empresa de Mark Zuckerberg está dispensando o equivalente a uma cidade pequena de funcionários para liberar caixa e bancar uma conta de investimento maior que o PIB anual do Kuwait. O memorando interno chama isso de eficiência. Os números contam outra história.
Victor Maslow

A Meta vai demitir cerca de 8.000 funcionários —em torno de 10% do quadro global— e ainda retirar 6.000 vagas abertas que não pretende mais preencher, segundo memorando interno enviado ao time pela diretora de pessoal Janelle Gale. A companhia confirmou os cortes e descreveu a decisão como um esforço para “operar a empresa de forma mais eficiente”. É o sinal mais claro até agora de que a corrida pela inteligência artificial em 2026 está sendo financiada, pelo menos em parte, com os salários de quem constrói todo o resto.

A dimensão do gesto fixa um padrão. A Microsoft ofereceu saídas voluntárias a parte do quadro nos mesmos dias, e os rastreadores especializados já contabilizam mais de 50 mil demissões no setor tech desde o início do ano. Os pedidos semanais de seguro-desemprego nos Estados Unidos subiram para 214 mil na semana passada, ligeiramente acima do consenso. A Meta assina o maior corte individual desta sequência —e a primeira vez que uma companhia combina uma redução de quadro dessa ordem com um compromisso público de gastar mais de US$ 115 bilhões em infraestrutura no mesmo ano.

Essa projeção de investimento —entre US$ 115 bilhões e US$ 135 bilhões, algo como R$ 575 bilhões a R$ 675 bilhões no câmbio atual, conforme o guidance que a Meta publicou no último balanço— é quase o dobro dos US$ 72,2 bilhões gastos em 2025 e se aproxima de toda a economia anual do Kuwait. O dinheiro vai para data centers, encomendas à Nvidia e chips de projeto próprio, além do Meta Superintelligence Labs, divisão montada em torno da aposta de Zuckerberg de que a inteligência artificial geral chegará ainda nesta década. Diante dessa cifra, as 8.000 demissões economizam à companhia —com estimativas salariais razoáveis— bem menos de US$ 2 bilhões por ano. O plano de corte não paga a conta da IA. É um sinal cultural: a Meta coloca a IA acima de quase tudo.

O compromisso carrega várias apostas ainda em aberto. Os modelos fundacionais da Meta ficaram para trás em relação a OpenAI, Anthropic e Google Gemini nos comparativos diretos, e a companhia vem comprando laboratórios menores e contratando pesquisadores seniores com pacotes de sete e oito dígitos em vez de produzir um avanço próprio. Analistas do Bernstein e da MoffettNathanson questionam abertamente se o gasto em IA vai entregar uma rentabilidade comparável à do negócio publicitário, que continua sustentando o plano inteiro. O corte de 10% vem ainda depois de uma série de reduções menores em 2024 e 2025: a Meta está hoje mais enxuta do que estava quando Zuckerberg declarou seu “ano da eficiência” há três exercícios, gastando, ao mesmo tempo, bem mais.

Para os trabalhadores, o baque não se distribui por igual. A contratação em tecnologia vem esfriando nos Estados Unidos há doze meses seguidos, e os engenheiros do patamar salarial da Meta vão encontrar menos vagas comparáveis do que há dois anos. O efeito transborda o Vale do Silício: o Brasil e a América Latina haviam se tornado mercados importantes de contratação remota para as big techs americanas, e esse canal se esvazia a cada nova onda. Quem tem visto de trabalho nos Estados Unidos é especialmente vulnerável —perder o emprego que patrocina o H-1B dispara um prazo de sessenta dias para achar novo patrocinador ou deixar o país. Para os concorrentes, os cortes viram oportunidade de contratação: Salesforce, Oracle e várias startups de defense tech estão contratando ativamente para funções de IA.

As demissões começam oficialmente em 20 de maio. A Meta divulga os resultados do primeiro trimestre no dia 29 de abril, relatório que vai trazer a primeira radiografia completa do fluxo de investimento do início de 2026 e do retorno —se é que já existe algum— do dinheiro despejado no Meta Superintelligence Labs. As 6.000 vagas congeladas seguirão formalmente abertas, mas sem atividade de contratação, pelo restante do ano.

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