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Mads Mikkelsen enterrou a grana e agora se acha o John Lennon em Amnésia Criminosa

Molly Se-kyung

Um assalto precisa de três coisas: o dinheiro, o plano e alguém que ainda lembre onde tudo foi parar. Amnésia Criminosa, o novo filme de Anders Thomas Jensen, tira em silêncio a terceira. O butim de um antigo roubo a banco está enterrado em algum ponto das florestas dinamarquesas, e um só homem conhece o lugar. Esse homem já não acredita ser ele mesmo.

Ele se chama Manfred, vivido por Mads Mikkelsen, e o colapso que engoliu sua memória lhe entregou uma identidade nova: agora está convencido de que é John Lennon. Seu irmão Anker, recém-saído depois de anos atrás das grades pelo roubo, precisa do dinheiro e de um Manfred lúcido o bastante para achá-lo. É todo o mecanismo do filme, e ele gira sobre uma única contradição. O mapa do tesouro é uma pessoa, e essa pessoa foi sobrescrita.

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Dar a Mikkelsen o irmão quebrado em vez do competente é a primeira decisão de verdade do filme, e é a certa. Ele passou uma longa parte da carreira como o rosto mais contido do quadro: o matador de aluguel, o vilão, o homem que nunca pisca. Aqui interpreta alguém sem controle nenhum, um que encena uma estrela de rock morta porque a encenação pesa menos que o luto que está embaixo. Nikolaj Lie Kaas, como Anker, carrega o oposto: o irmão lúcido, o que precisa conduzir alguém que já não alcança, e que precisa daquela mente doente para que ela cuspa um mapa antes que outros cheguem primeiro.

Jensen filma uma variante deste filme pela maior parte da vida atrás da câmera, e Amnésia Criminosa pertence a essa obra sem esforço. Seus filmes juntam premissas grotescas, quase de desenho animado, a homens que se desfazem em voz baixa: o açougueiro que serve algo que não deveria, os irmãos de Men & Chicken com um segredo no porão, o viúvo de Riders of Justice atrás de um padrão num acidente de trem. Ele os constrói em torno da mesma pequena trupe, Mikkelsen e Lie Kaas no centro, e deixa a crueldade e o besteirol dividirem o quadro até deixarem de parecer coisas distintas. As piadas são pretas e a violência acerta, mas no fim os filmes falam do dano e da estranha engrenagem que as pessoas montam para seguir vivendo com ele.

A sacada dos Beatles é o sinal mais claro do que ele persegue. Para sacudir a memória de Manfred, os irmãos se põem a remontar a banda, recrutam estranhos dispostos a atender por Paul e Ringo, e torcem para que o ritual recoloque alguma coisa. Jogada de um jeito, é pura farsa; jogada como o trailer sugere, é mais triste. Manfred só é alcançado através do delírio, nunca por fora, e o filme parece entender que o papel de John Lennon não é o obstáculo diante do dinheiro. É o muro que um homem de luto ergueu para não precisar ser Manfred.

Jensen não é uma figura marginal brincando com o gênero. Ganhou cedo um Oscar por um curta e escreveu alguns dos dramas dinamarqueses que levaram o cinema do país para fora, o que faz a pequenez deliberada dos seus próprios longas de direção parecer uma escolha, não um limite. Amnésia Criminosa chega com o peso de festival que faz uma comédia criminal em dinamarquês viajar, e com um protagonista cujo rosto, sozinho, passa pela alfândega na maioria dos mercados.

O que o filme não pode prometer de antemão é que a piada tenha um segundo ato. Quase duas horas são muito para uma premissa de uma linha, e a mistura de tons de Jensen entre farsa de assalto, doença mental e luto entre irmãos já azedou antes em mãos mais fracas que as dele. O trailer vende a piada; a pergunta mais dura é se há um transtorno de verdade encenado ou apenas uma fantasia que Mikkelsen tem permissão de vestir. Um homem que se acha John Lennon tem graça exatamente até o filme precisar decidir se Manfred é uma pessoa ou uma tirada.

Ao lado de Mikkelsen e Lie Kaas, o elenco traz Sofie Gråbøl como Margrethe, Søren Malling como Werner e Bodil Jørgensen como Freja. Jensen assina roteiro e direção e volta ao registro de comédia, crime e drama dobrados um no outro que marcou sua trajetória.

Amnésia Criminosa dura 116 minutos. Depois da estreia dinamarquesa no outono passado e de uma circulação europeia ao longo do inverno e da primavera, não há estreia brasileira confirmada até o momento.

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