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As the Gods Will: Miike faz do pátio escolar um massacre divertido, ainda que irregular

A adaptação do mangá por Takashi Miike (2014) alterna terror, humor e brincadeiras mortais.
Martha O'Hara
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A cabeça do professor estoura diante da turma, e a sala de aula vira um borrifo de sangue. Shun Takahata (Sota Fukushi), estudante do ensino médio entediado com a rotina da escola e da vida, rezava por alguma mudança. Foi atendido, e do pior jeito. Takashi Miike abre As the Gods Will sem cerimônia: pouco depois, a classe inteira está dentro de uma brincadeira de criança, o daruma-san-ga-koronda, parente do nosso «batatinha frita, um, dois, três», com uma regra simples. Quem se mexe morre, e a cabeça vira um punhado de contas vermelhas.

Miike, diretor prolífico de Audition e Ichi the Killer, adapta o primeiro arco do mangá de Muneyuki Kaneshiro e Akeji Fujimura, publicado entre 2011 e 2012. O filme segue Shun e os colegas obrigados a disputar jogos infantis em que perder custa a vida, diante de criaturas que vão de um boneco daruma falante a um gato da sorte de garras afiadas. Ninguém sabe quem está por trás daquilo nem quando acaba. Resta tentar vencer, jogo após jogo. A premissa cabe numa linha, e o filme não finge que é mais do que isso.

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O melhor dele é a velocidade. A abertura despeja o espectador no meio do primeiro jogo, e as regras se aprendem vendo gente morrer, o que é cruel e também bem eficaz. Há humor nisso. Um daruma que conversa e um gato de garras afiadas como carrascos fazem rir justamente porque a brincadeira de pátio de escola e o massacre ocupam o mesmo quadro. Há quem descreva o filme como uma mistura de Battle Royale com programa de auditório japonês, e a descrição não está longe.

O elenco funciona melhor em dupla do que sozinho. Ryunosuke Kamiki faz Amaya Takeru, o psicopata que se diverte com a carnificina, e Fukushi entrega o oposto: um garoto perdido, que só quer entender o que está acontecendo. Os dois são polos contrários e acabam obrigados a cooperar. Esse atrito é o que há de mais próximo de um coração no filme. O resto do grupo (Hirona Yamazaki como Akimoto Ichika, Mio Yuki como Takase Shouko, Shota Sometani como Satake, Nao Omori como Takumi) tem pouquíssimo espaço para existir além do jogo seguinte. São peças num tabuleiro, e o filme não parece incomodado com isso.

É aí que a coisa começa a cansar. A estrutura é uma fila de jogos, cada um com mais mortos que o anterior, e essa repetição não constrói um arco para ninguém. Quando uma nova criatura aparece, o filme a joga em cena e passa adiante, sem dar a ela nenhuma função além de ser a próxima ameaça. A violência chama atenção na primeira vez e vai perdendo o efeito a cada rodada.

O tom também escorrega. O filme quer ser terror, comédia e thriller ao mesmo tempo, e a passagem de um registro a outro nem sempre é limpa. Uma cena pede riso, a seguinte pede susto, e o espectador fica sem saber em que posição se colocar. Em alguns momentos a mistura rende um desconforto estranho e interessante. Em outros parece só desatenção.

Há ainda a piada cruel que o filme tem à mão e deixa de lado. Shun pediu emoção e ganhou emoção demais, o que dava ao material um fundo mais amargo do que a sucessão de carnificinas deixa entrever. O filme prefere seguir adiante a parar para olhar para isso.

No fim, As the Gods Will é um divertimento barulhento, com bons momentos de absurdo e uma dupla central que segura o interesse, mas é frouxo na estrutura e irregular no tom. Quem gosta do Miike mais solto vai se divertir. Quem espera que os jogos levem a algum lugar talvez saia com a sensação de ter visto a mesma brincadeira repetida várias vezes.

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Fotos: The Movie Database (TMDB)

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