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Boris Volodarsky transforma um trem de luxo real em uma guerra de espiões em The Train

Jun Satō

Boris Volodarsky dedicou uma carreira à inteligência soviética e outra a desmontá-la, do posto de capitão nas Spetsnaz do GRU a uma estante de livros sobre como Moscou localiza e elimina seus desertores. Seu primeiro longa como roteirista e diretor, The Train, leva essa bagagem para um cenário em movimento: a viagem de despedida de um histórico trem de luxo em que cada passageiro esconde um segundo rosto.

O filme se passa quase inteiramente a bordo do Majestic Imperator Train de Luxe, um trem histórico austríaco real que Volodarsky usa ao mesmo tempo como locação e como motor da trama. Seu dono, Leo Goldberg, organiza um espetáculo a bordo e um leilão privado enquanto os vagões seguem de Viena rumo a Praga passando por Budapeste, para vender o Majestic ao maior lance. A venda é o disfarce. Os compartimentos lacrados do trem, as saídas limitadas e o anonimato quase total são o verdadeiro atrativo, e não para colecionadores.

O que Goldberg montou, segundo o filme, é uma plataforma de inteligência quase perfeita. Um agente russo viaja sob disfarce profundo. Operativos do MI6 se passam por um casal em lua de mel. Uma equipe de agentes chineses instala discretamente escutas pelos vagões. Um ex-oficial das forças especiais embarca com a filha pequena e sem lealdades evidentes. O champanhe e o quarteto de cordas continuam; por baixo deles, começa uma guerra pequena e totalmente fechada.

Madalina Bellariu Ion e Dennis Dewall lideram o elenco como Natalie Krug e o major Alex Stirling, e Dewall também assina a produção. O elenco de apoio reúne Anouk Auer, Alan Burgon, Paul Lockhart, Louise Marie Prack, Leonie Bielesz e Polina Kuleshova, entre outros, pela produtora austríaca Westside Studios. A única locação fechada, um trem que não para para deixar ninguém descer, faz o trabalho estrutural de que um thriller de câmara precisa: fabrica motivos enquanto cancela qualquer fuga.

O próprio histórico de Volodarsky é o maior atrativo do filme. Membro da Royal Historical Society e doutor pela London School of Economics, ele escreveu The KGB’s Poison Factory: From Lenin to Litvinenko e Stalin’s Agent, e foi consultor-chefe da investigação do Panorama (BBC) sobre o envenenamento de Litvinenko. Um diretor que passou décadas reconstruindo assassinatos e deserções reais encena agora outros inventados, o que estabelece um alto padrão de credibilidade procedimental que o filme pronto terá de alcançar.

E é aí que ficam as dúvidas. The Train chega quase sem trajetória em festivais, com um elenco pouco conhecido fora dos territórios de língua alemã e uma premissa, quatro serviços rivais embarcando no mesmo vagão na mesma noite, que exige uma boa dose de suspensão da descrença antes da primeira parada. Falta saber se a experiência de Volodarsky vira tensão na tela ou apenas um ofício preciso que nunca chega a ser cinema. O filme também não tem distribuição confirmada além de uma lista curta de mercados, o que limita por ora até onde sua proposta pode chegar.

O Majestic Imperator dá à produção uma textura que não poderia ser forjada em estúdio: vagões dourados da era Habsburgo, marchetaria, latão e veludo, filmados sobre os trilhos e não reconstruídos. O filme apostou nessa procedência, com estreia mundial em Berlim antes das sessões austríacas organizadas no próprio trem e ao seu redor em Viena e Linz.

Nada disso garante que a guerra secreta se sustente quando a novidade do cenário passar, e um diretor de ficção estreante com um elenco modesto e um único cenário tem pouca margem para um segundo ato frouxo. Mas o conceito é limpo, a locação é genuinamente rara e quem está atrás da câmera conhece a diferença entre como os espiões são escritos e como eles realmente trabalham.

The Train estreou na Áustria e na Alemanha em 10 de setembro de 2026, com a CineStar responsável pela estreia exclusiva nos cinemas alemães, e chega às salas do Reino Unido em 17 de setembro. Não há estreia nos cinemas do Brasil confirmada até o momento desta publicação.

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