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Cronos reconstrói a caçada de 124 horas ao autor do atentado nas Ramblas

Martha Lucas

Uma cidade reconhece o som antes de entendê-lo: sirenes que convergem, telefones que se acendem, uma ordem que percorre as frequências da polícia. Cronos, o novo filme de Fernando González Molina, começa dentro daquela primeira hora de confusão na Rambla de Barcelona e depois se recusa a desviar o olhar por cinco dias. Não é tanto um filme sobre o atentado quanto sobre a máquina que foi acionada no instante em que a van parou: a caçada, as salas de comando, os agentes exaustos que precisaram continuar trabalhando enquanto um país inteiro assistia.

Essa é a aposta dramatúrgica da obra. Em vez de encenar o horror como espetáculo, González Molina e o roteirista Alberto Marini entram na história pelo procedimento: o nome de código que batiza a operação, o relógio que dá forma ao filme, o atrito institucional entre corporações que nem sempre concordavam sobre o passo seguinte. O título aponta para esse relógio. Um dispositivo é acionado, começa uma contagem regressiva e a estrutura do filme fica amarrada a ela, com as horas viradas atos e o cansaço como verdadeiro antagonista.

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O elenco funciona como um argumento sobre escala. Enric Auquer, ator especializado em homens a uma hora ruim de se despedaçar, vive um agente comum arrastado para a praça da Catalunha; Mónica López carrega o peso institucional como uma chefe que trabalha a partir de Ripoll, a cidade de onde saiu a célula; Diana Gómez, como responsável pela comunicação dos Mossos d’Esquadra, ocupa a segunda frente do filme, a que se trava nas coletivas de imprensa e nos dados ainda por confirmar. Ao redor, Pablo Derqui, Eduard Fernández, Israel Elejalde e David Vert completam uma cadeia de comando sob tensão. O conjunto é a tese: nenhum herói único, apenas um sistema tentando manter a forma sob pressão.

Para González Molina o registro é uma virada deliberada. Ele construiu o nome no melodrama comercial e depois na trilogia do Baztán, thrillers de gênero com gosto pela paisagem e pela ameaça. Cronos tira quase tudo isso. O método relatado —longos trechos rodados nos cenários reais, com a colaboração dos Mossos e dos serviços de emergência da cidade— o empurra para a reconstituição, e não para o suspense polido que lhe é conhecido. É o seu modo procedimental, e o material de origem lhe impõe uma disciplina que seus filmes anteriores raramente exigiam.

A espinha do roteiro é jornalismo. Marini partiu de dois anos de apuração dos jornalistas Nacho Carretero e Arturo Lezcano, e o filme herda essa textura: a sensação de que cada decisão em cena foi discutida numa sala real, entre pessoas que não tinham o luxo do retrospecto. O que uma contagem regressiva faz com esse material é a questão em aberto. Um relógio em marcha é o motor mais confiável do thriller e pode, em silêncio, transformar o luto em impulso. A tarefa mais difícil do filme é deixar a tensão do procedimento crescer sem transformar a pior semana da memória recente de uma cidade num passeio de gênero.

É também aí que Cronos fica mais exposto. Contar a história de dentro do aparato de segurança é uma escolha com custo: coloca em primeiro plano quem persegue a célula e pode deixar menos espaço para as vítimas e para as perguntas que nunca se fecharam de todo. Como o grupo de Ripoll se formou em torno de seu imã, o que se sabia antes de a van se mover, por que o plano não foi detido a tempo; uma narrativa procedimental, por definição, mede o sucesso na captura, e não na prestação de contas. Se o filme consegue sustentar esse acerto pendente ao lado da caçada é algo que só o corte final poderá responder, e é a régua que a própria premissa convida a usar.

Enric Auquer as a Catalan police officer in the film Cronos, 2026
Enric Auquer in Cronos (2026)

O elenco se amplia com Xavi Sáez, Joan Pedrola, Mima Riera, José Pérez Ocaña e Marina Esteve. Cronos é uma produção da Nostromo Pictures, Beta Fiction Spain e Hogar Producción, em coprodução com a 3Cat e com a participação de RTVE, Movistar Plus+ e HBO Max, rodada, segundo o divulgado, por um orçamento perto de seis milhões de euros. A prefeitura de Barcelona liberou o acesso às ruas reais —a Rambla, a praça da Catalunha, o mosaico de Joan Miró— e descreveu o resultado como uma espécie de arquivo histórico da cidade.

O atropelamento que reconstitui matou catorze pessoas e feriu mais de uma centena na Rambla, dentro de um ataque coordenado que deixou dezesseis mortos; a operação de cinco dias terminou com o último foragido abatido pelos Mossos em Subirats. Cronos estreia nos cinemas espanhóis em 4 de setembro, semanas depois do nono aniversário do atentado, em agosto de 2017. Nenhuma estreia brasileira foi confirmada até o momento. Para o público do Brasil é, por ora, um título a acompanhar mais do que uma data a reservar na agenda.

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