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Hereditário (2018): como a tragédia familiar de Ari Aster virou o padrão de terror da A24

Martha Lucas
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Ari Aster vendeu seu primeiro longa como um drama familiar e manteve a palavra terror fora da sala. Oito anos depois de Toni Collette levá-lo a um recorde de bilheteria da A24, Hereditário é referência para toda uma onda de terror de estúdio, e seu diretor tem agora o roteiro de uma prequel que, segundo ele, talvez nunca filme.

Hereditário (Hereditary, 2018) começa com um funeral no norte de Utah. Annie Graham (Toni Collette), uma artista que constrói cenas em miniatura cheias de detalhes, enterra a mãe, Ellen, uma mulher cheia de segredos de quem estava afastada havia anos e que, mesmo assim, teve papel central na criação da filha mais nova de Annie. Em casa estão o marido, Steve (Gabriel Byrne), um psiquiatra que tenta manter a paz, o filho Peter (Alex Wolff), de 16 anos, e Charlie (Milly Shapiro), de 13, uma menina retraída que parece a mais abalada pela morte da avó. Pouco depois, Steve recebe um telefonema avisando que o túmulo de Ellen foi vandalizado e decide não contar nada à esposa.

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A primeira grande ruptura acontece numa festa de adolescentes. Annie insiste que Peter leve a irmã junto; sozinha, Charlie come um pedaço de bolo com nozes e entra em choque anafilático. Correndo com ela para o hospital, Peter desvia de um cervo morto na estrada, e o acidente que vem em seguida mata Charlie. Em choque, ele volta para casa sem contar a ninguém, e é Annie quem descobre o que aconteceu na manhã seguinte. Aster coloca esse acontecimento no início do filme, num ponto em que a maioria das histórias de terror ainda estaria estabelecendo suas regras.

O que vem depois é uma família se desfazendo sob o peso da culpa e das acusações. Annie volta sua amargura contra Peter, Steve tenta mediar entre os dois, e Annie encontra uma aliada inesperada em Joan (Ann Dowd), uma desconhecida calorosa de um grupo de apoio ao luto que se oferece para ensiná-la a contatar os mortos por meio de uma sessão espírita. Coisas estranhas começam a acontecer na casa e, quando Annie mexe nos pertences de Ellen, encontra fotografias e livros que sugerem que a vida privada da mãe era muito diferente daquela que a família conhecia. O trecho final, que este texto não vai detalhar, é o motivo pelo qual o filme ainda divide quem o viu.

Um drama familiar vendido sem a palavra terror

Ari Aster, nascido em Princeton, Nova Jersey, em 1986, e criado entre Nova York e a Inglaterra, chegou a Hereditário pelos curtas-metragens. No AFI Conservatory, escreveu e dirigiu The Strange Thing About the Johnsons (2011), um curta deliberadamente provocador sobre uma família abusiva que vazou na internet e virou seu cartão de visita, seguido de Munchausen (2013). A atenção gerada por esses curtas o levou à PalmStar Media e depois à A24, que deu sinal verde a Hereditário como seu primeiro longa, feito com um orçamento de cerca de 10 milhões de dólares.

Aster já contou que apresentou o projeto como uma tragédia familiar e tomou cuidado para não descrevê-lo como filme de terror, com medo de que o rótulo lhe custasse o financiamento. Ele é admirador do drama doméstico, e o roteiro foi construído em torno da dinâmica familiar, do trauma e do luto antes que qualquer elemento sobrenatural entre em cena. Entre suas influências, citou Carrie, a Estranha (1976), de Brian De Palma, e O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante (1989), de Peter Greenaway. Ele descreve o filme como duas metades que não podem ser separadas: uma história que começa como tragédia familiar, segue por esse caminho e aos poucos se transforma num pesadelo completo.

A camada sobrenatural não foi inventada do zero. A mitologia no centro do filme vem da literatura ocultista real, os grimórios da demonologia europeia como The Lesser Key of Solomon, que descrevem um rei demônio coroado que comanda legiões de espíritos e é anunciado por trombetas e címbalos. Esse detalhe chegou à música: a trilha sonora traz trombetas no clímax como referência direta aos textos antigos. Para quem tem curiosidade sobre a mitologia do filme, esses textos antigos são o lugar por onde começar.

Uma casa de bonecas construída em Utah

Hereditary
Hereditário (Ari Aster, 2018)

As filmagens principais começaram em fevereiro de 2017, em Utah. As cenas externas da casa dos Graham e da casa na árvore foram rodadas no condado de Summit, a sequência do cemitério no Larkin Sunset Gardens, em Sandy, e as cenas da escola na West High School e no Utah State Fairpark, em Salt Lake City. Todos os outros interiores, incluindo as duas versões da casa na árvore, foram construídos do zero num estúdio. Como as paredes desses cenários podiam ser removidas, a câmera podia ficar muito mais afastada do que uma casa de verdade permitiria, e essa é a origem documentada do visual de casa de bonecas do filme, uma ideia visual que conversa com a profissão de Annie.

Aster se cercou de pessoas que conhecia. O diretor de fotografia, Pawel Pogorzelski, era um amigo dos tempos do AFI Conservatory que havia fotografado vários de seus curtas e depois faria Midsommar: O Mal Não Espera a Noite. Jennifer Lame e Lucian Johnston assinaram a montagem, e o saxofonista e compositor Colin Stetson escreveu a trilha sonora, produzida com Rob Kleiner. A gravação de 1967 de Judy Collins para Both Sides, Now, de Joni Mitchell, toca nos créditos finais. As filmagens também deixaram uma anedota de teatro: Aster contou depois que Alex Wolff o alertou para não dizer no set o nome da peça escocesa de Shakespeare, que ele disse mesmo assim e que um refletor estourou durante a cena seguinte.

A produção não foi tão tranquila quanto o filme pronto sugere. Numa entrevista de 2023, o produtor Lars Knudsen disse que Aster não tinha o corte final e que o financiador que o detinha, mais tarde identificado como o produtor Kevin Frakes, entrou em choque com o diretor por causa da montagem. Knudsen descreveu a experiência como desagradável e disse que a desfaria se pudesse. Ele e Aster fundaram depois, em 2019, a produtora Square Peg, que produziu os filmes seguintes de Aster e os de outros diretores.

Toni Collette e a família Graham

Toni Collette, a atriz australiana então mais conhecida por O Casamento de Muriel e O Sexto Sentido, foi uma das primeiras pessoas que Aster procurou para viver Annie. Segundo ela mesma, relutava em fazer um filme de terror, e o que a fez mudar de ideia foi o quanto o roteiro estava ancorado no funcionamento das famílias e na experiência da perda. O papel lhe rendeu prêmios de melhor atriz nos Gotham Awards, da Chicago Film Critics Association e de várias associações regionais de críticos, além de indicações ao Critics’ Choice e ao Independent Spirit Awards. Não veio nenhuma indicação ao Oscar, uma omissão que ainda é lembrada sempre que se discute o tratamento que o Oscar dá ao terror.

Ao redor dela, Aster reuniu atores com história em comum. Gabriel Byrne e Alex Wolff já tinham trabalhado juntos na série da HBO In Treatment antes de interpretarem pai e filho aqui. Milly Shapiro, atriz da Broadway, tinha 14 anos quando foi escalada como Charlie, em seu primeiro papel no cinema; Aster disse que havia deixado a personalidade de Charlie mais ambígua no roteiro do que a dos outros e que sentiu alívio no instante em que viu o teste dela. Ann Dowd interpreta Joan, Mallory Bechtel faz Bridget, colega de escola de Peter, Pat Barnett Carr aparece sem crédito como Ellen, e o próprio Aster dá voz, ao telefone, a quem comercializa as obras de Annie.

Sundance, um recorde da A24 e um D+

Hereditário estreou na seção Midnight do Festival de Sundance em 21 de janeiro de 2018, e o trailer chegou em 30 de janeiro. Naquela primavera, o trailer virou notícia por conta própria quando um cinema na Austrália Ocidental o exibiu por engano antes de uma sessão familiar de Pedro Coelho no Anzac Day, diante de uma plateia com dezenas de crianças. A A24 lançou o filme nos Estados Unidos em 8 de junho de 2018, e a Entertainment Film Distributors o levou aos cinemas britânicos uma semana depois.

Os números comerciais fizeram dele um marco para a distribuidora. Lançado em 2.964 salas, o lançamento mais amplo que a A24 já tinha tentado até então, o filme arrecadou 13,6 milhões de dólares no primeiro fim de semana, a melhor estreia da história da empresa até Guerra Civil, em 2024. A bilheteria caiu pouco menos da metade no segundo fim de semana, uma queda mais suave do que a que o terror costuma ter, e no fim de julho de 2018 já tinha superado Lady Bird: A Hora de Voar para se tornar o filme de maior bilheteria mundial da A24, com mais de 80 milhões de dólares, um recorde que manteve até Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo, em 2022.

Nem todos que compraram ingresso saíram convencidos. O público consultado pelo CinemaScore no fim de semana de estreia deu a Hereditário um D+, e a distância entre a recepção dos críticos e essa nota passou a fazer parte de como o filme era discutido, ao lado de outros títulos de terror da A24, como A Bruxa e Ao Cair da Noite. A virada ocultista do ato final costuma estar no centro desse debate: para alguns espectadores, ela dá coerência a tudo o que veio antes; para outros, a história humana dava mais medo do que a explicação.

Ari Aster depois de Hereditário, e a prequel na gaveta

Desde então, a carreira de Aster avançou rápido e em direções inesperadas. Um ano depois de Hereditário, ele lançou Midsommar (2019), outro filme da A24, e então deixou o terror para trás com a comédia dramática surreal Beau Tem Medo (2023) e com a sátira neo-western Eddington, que disputou a competição em Cannes em 2025. Seu próximo filme, Scapegoat, tem filmagens previstas para começar em novembro de 2026. Hereditário, enquanto isso, continua voltando às listas dos melhores e mais assustadores filmes do século, e é citado com frequência como referência para o chamado terror elevado que veio depois.

Em junho de 2026, durante uma sessão de perguntas e respostas na American Cinematheque, em Los Angeles, Aster disse que já tinha escrito uma prequel de Hereditário, mas que o momento para fazê-la nunca pareceu certo, e acrescentou que não sabia aonde uma prequel levaria. Ele não deu detalhes sobre a história e nenhum plano de produção foi anunciado, então, por enquanto, o roteiro é mais uma curiosidade do que um projeto. Mas isso mostra que o mundo dos Graham, e o de Ellen antes deles, continua na cabeça de seu criador oito anos depois do primeiro filme.

Visto de 2026, Hereditário se lê como uma estreia que anunciava a maior parte das obsessões às quais seu diretor continua voltando: famílias como heranças que ninguém pediu, mães e filhos, e a linha incômoda entre a doença mental e algo pior. Se o ato final soa como revelação ou como um passo longe demais ainda é a pergunta que divide o público, e essa discussão é parte do motivo pelo qual ele segue entre os filmes de terror mais debatidos de sua geração. Para quem ainda não viu, o aviso embutido naquele D+ é justo: este não é um susto de trem fantasma, é um drama familiar que se recusa a deixar seus personagens irem embora.

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