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O Chamado ainda é a maldição mais precisa e perturbadora do cinema de terror

O clássico de Hideo Nakata, de 1998, permanece o mais rigoroso e escalafrio do J-horror.
Martha O'Hara
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A televisão exibe a imagem de um poço abandonado. Sadako, o espectro que rasteja da tela para a mente do espectador, não é apenas uma figura assustadora — é o símbolo de uma ruptura que o cinema de horror japonês levou décadas para produzir, e que Hideo Nakata sintetizou em noventa minutos de tensão cuidadosamente calibrada.

O Chamado (1998), baseado na novela de Koji Suzuki, parte de uma premissa de aparente simplicidade: quem assiste a uma fita VHS amaldiçoada morre em exatamente sete dias. Não há ambiguidade no prazo, não há margem de negociação. O tempo — um contador regressivo que o filme nunca exibe diretamente, mas que o espectador carrega internamente — é o verdadeiro antagonista. A trama segue Reiko Asakawa (Nanako Matsushima), jornalista investigativa que descobre a ligação entre a morte da sobrinha e a fita maldita. Com a ajuda do ex-marido Ryuji Takayama (Hiroyuki Sanada), professor de matemática, ela mergulha numa busca desesperada para decifrar o mistério antes que o prazo se cumpra.

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Nakata recusa-se a usar os atalhos do gênero. Não há saltos de câmera, não há trilha sonora que telegrafie o susto com dois tempos de antecedência. A tensão é construída por acumulação — enquadramentos que sugerem mais do que mostram, silêncios que duram tempo suficiente para incomodar, imagens perturbadoras que reaparecem na memória muito depois de o filme terminar. A cena em que Sadako emerge da televisão permanece entre os momentos mais inquietantes do cinema de horror dos anos 1990, não pela violência, que é mínima, mas pela geometria impossível do movimento e pelo timing inexorável. É a diferença entre assustar e apavorar — e Nakata domina o segundo com uma precisão que poucos diretores do gênero conseguiram replicar.

Matsushima entrega uma performance contida e crível como Reiko. Ela transmite medo e determinação sem recorrer ao histrionismo, e é essa sobriedade que mantém a personagem funcional mesmo quando a narrativa a empurra para situações de extremo absurdo sobrenatural. A jornada de Reiko é também a de uma mãe que percebe, gradualmente, que a maldição não respeita fronteiras familiares — e o filho Yoichi (Rikiya Ôtaka) torna-se não apenas uma camada emocional do filme, mas um acelerador dramático quando a ameaça começa a alcançá-lo. Sanada, por outro lado, está em parte preso numa função expositiva: Ryuji existe para fornecer explicações racionais onde o irracional seria mais perturbador. É uma limitação do roteiro mais do que da atuação, mas deixa a personagem aquém do seu potencial.

A originalidade do filme reside na sua abordagem ao horror tecnológico. A ideia de um objeto cotidiano — uma simples fita VHS — como veículo de maldição era inovadora em 1998, e o tempo não a desgastou. Há nela uma intuição quase profética sobre a ansiedade que os meios de reprodução de imagem viriam a gerar na era digital. O Chamado não inventa apenas um novo ícone do terror em Sadako; propõe também uma meditação sobre a natureza do mal, a transmissibilidade do trauma e os limites da racionalidade diante do inexplicável. Que esses temas venham inseridos numa narrativa de investigação jornalística — um gênero que pressupõe a possibilidade de respostas definitivas — acrescenta uma camada de ironia estrutural que Nakata explora com discrição.

O filme não é infalível. A narrativa afrouxa nos momentos de investigação mais áridos, onde o processo documental parece mais importante do que a tensão que deveria sustentar. Alguns diálogos revelam o esqueleto expositivo do roteiro com clareza excessiva, e o terceiro ato, à medida que as respostas chegam e a origem de Sadako se torna parcialmente explicada, perde parte da perturbação que vinha acumulando. O horror que se explica é sempre um horror diminuído.

Lançado num momento em que o gênero perdia fôlego internacionalmente, O Chamado inaugurou um ciclo inteiro de horror japonês contemporâneo. Sua influência chegou ao Ocidente, inspirou um remake americano e uma série de produções que tentaram replicar a mesma economia visual — raramente com igual resultado. Vinte e tantos anos depois, a fita ainda incomoda. O poço ainda parece fundo demais. E Sadako ainda sabe esperar.

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Fotos: The Movie Database (TMDB)

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