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Tetsuya Nakashima troca o excesso pela contenção no drama policial The Brightest Sun

Camille Lefèvre

Um detetive particular aparece morto, e as duas pessoas enviadas para reconstruir seu último caso —um ex-colega esgotado e uma novata ainda sem traquejo— percebem que a pista se dobra de volta a uma pergunta que ninguém responde com nitidez: o que faz, exatamente, de alguém um pai ou uma mãe. Esse problema silencioso e incômodo está no centro de The Brightest Sun, o novo filme de Tetsuya Nakashima e seu primeiro longa-metragem em quase uma década.

A investigação desemboca em um homem que tomou para si uma criança com deficiência que não era sua e a criou, em segredo, por nove anos: um ato que a lei chama de sequestro e que o filme insiste em sustentar como amor, ou como algo próximo o bastante para tornar a distinção insuportável. Nakashima sempre foi um cineasta atraído por esse atrito, pelo ponto em que o cuidado e o dano dividem o mesmo rosto. Aqui ele se aproxima disso com menos da ironia laqueada que o definiu e com mais paciência do que seus admiradores esperariam.

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Hidetoshi Nishijima, em sua primeira colaboração com o diretor, interpreta o detetive Satake como um estudo de força contida: um homem que decidiu que observar é mais seguro do que sentir, e que os fatos desmentem. Diante dele, Hikari Mitsushima conduz a outra corrente do filme como novata e mãe divorciada: a figura que está presente, exausta, sem nunca ter certeza de que basta. A dupla é a tese inteira em miniatura. Nakashima opõe a contenção ao nervo exposto e deixa que o caso os arraste para a mesma ferida.

Para quem conhece Nakashima por sua assinatura —as superfícies cor de bala, a montagem veloz, a crueldade disfarçada sob a embalagem pop dos filmes que o tornaram célebre—, The Brightest Sun soa como uma redução deliberada do volume. A gramática do excesso ainda se lê nas bordas, num começo fraturado e elíptico que esconde mais do que explica, mas o registro mudou. É um cineasta que construiu a reputação na velocidade e que escolhe, por longos trechos, desacelerar e sustentar um rosto.

A aposta formal é concreta. As primeiras passagens se apoiam numa montagem não linear e numa opacidade proposital, confiando que o espectador permaneça na confusão antes de as peças se encaixarem; em troca, oferecem uma franqueza emocional que sua obra anterior costumava manter à distância pela ironia. Baseada em um romance de Bunzo Uchiumi, a história trata seu crime central menos como um enigma a resolver do que como um teste moral. Todos os adultos carregam alguma culpa, e ao filme interessa mais como eles a sustentam do que quem é, no fim, o responsável.

Nada disso garante que o filme se sustente. As primeiras reações em festivais elogiaram sua consistência emocional e, ao mesmo tempo, apontaram um início irregular e trabalhoso e um terceiro ato que se dispersa quando o mistério afrouxa. A sinceridade que o torna comovente é também a que, em certos momentos, escorrega para o sentimentalismo. Há ainda a questão da estreia adiada: o lançamento foi remarcado em relação a uma data prevista para 2025, depois que informações sobre trabalhos anteriores do diretor levaram a distribuidora a rever o caso, sem que nenhuma das partes tenha detalhado publicamente o que essas informações continham.

Hidetoshi Nishijima and Hikari Mitsushima in Tetsuya Nakashima film The Brightest Sun 2026
Hidetoshi Nishijima and Hikari Mitsushima in The Brightest Sun (2026)

Em torno de seus dois protagonistas, Nakashima reuniu um dos elencos japoneses mais densos da temporada. Estão Haru Kuroki, Kankuro Kudo, Ko Shibasaki, o ator e cineasta Shinya Tsukamoto, Tsurutaro Kataoka, Jiro Sato e Koji Yakusho. A fotografia é de Shigeki Akiyama; Nakashima coescreveu o roteiro com Nobuhiro Monma e dirige um projeto que descreve como fruto de cerca de dezoito anos de gestação. A Sony Pictures cuida da distribuição.

The Brightest Sun tem 129 minutos e chega aos cinemas japoneses em 28 de agosto, após uma passagem por festivais que incluiu uma sessão no Festival Internacional de Cinema de Hong Kong e uma exibição no New York Asian Film Festival. Até agora não há estreia confirmada fora do Japão, e no Brasil ainda não há data anunciada, embora um filme desse porte —o retorno de um autor maior conduzido por dois dos intérpretes mais precisos do país— dificilmente fique sem viajar.

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