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Só Por uma Noite prende Monica Barbaro e Callum Turner na única noite liberada para o sexo

Martha O'Hara

A primeira coisa que o novo filme de Will Gluck entrega é uma cor. Um verde de aquário escorre sobre uma barraca de comida de rua, gruda no asfalto molhado e transforma um trecho qualquer de calçada em algo febril e um tanto irreal. Uma jovem se apoia no balcão; um homem de avental manchado de gordura se inclina em sua direção. Os letreiros, os carros estacionados e o vapor da chapa brilham na mesma paleta de sódio e neon, a de uma cidade que resolveu, por algumas horas, parar de fingir que dorme.

Essa metrópole superiluminada é a ideia inteira. Só Por uma Noite imagina uma Nova York regida por uma única regra cívica: numa noite marcada, os solteiros podem transar, e no resto do calendário não. A logline soa a comédia de festa, e parte da divulgação vai vendê-la assim. O que o enquadramento insiste em sublinhar, porém, é a escassez e a solidão embaixo dela: uma cidade inteira autorizada a se conectar por doze horas e visivelmente sem saber o que fazer com a permissão.

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Monica Barbaro e Callum Turner são os dois rostos em torno dos quais o filme organiza essa ansiedade, e o elenco é aqui a declaração de intenções mais clara. Barbaro, recém-saída de uma temporada de premiações que a colocou no mapa, faz de Allie uma romântica empenhada em que a noite signifique alguma coisa; Turner, com ar de derrota amassada, vive Owen, recém-largado e circulando pela multidão como quem já decidiu que a noite vai decepcionar. São, sugere o filme, talvez as duas únicas pessoas da cidade atrás de algo além de um encontro rápido, e é justamente isso que os mantém separados. Nenhum dos dois é comediante de ofício, e essa aposta na contramão é o motor: dois intérpretes dramáticos levando a sinceridade a sério dentro de uma farsa de alto conceito.

Gluck domina esse registro melhor do que quase todo mundo na comédia de estúdio. Ergueu Easy A sobre a reputação fabricada de uma adolescente e transformou Anyone But You num sucesso inesperado de bilheteria confiando que duas pessoas atraentes discutissem à exaustão. Ao que consta, ele mesmo reescreveu o roteiro de Travis Braun após aquele êxito, tratando o conceito distópico como a mutação seguinte de uma fórmula que vem lapidando há tempos: coloca intérpretes carismáticos numa situação sob pressão e deixa a restrição costurar a trama. Aqui a restrição é o tempo. Doze horas, uma regra e uma cidade construída para esgotar o relógio.

O design de produção carrega o peso de que a premissa precisa. Não é a nossa Nova York, mas uma versão azeda e regulamentada, e o filme marca a diferença pela luz, mais do que pela explicação: toques de recolher de neon e o comportamento de uma multidão racionada a uma única noite autorizada. Gluck encena os desencontros do casal como um revezamento noturno entre bairros, uma sucessão de tropeços e missões paralelas que os arremessa um na direção do outro e de volta. O argumento visual é coerente: o desejo sob regulamento parece berrante, exaustivo e um pouco triste, por mais que a trilha insista que todo mundo está se divertindo.

O que o filme ainda não mostrou é que o conceito sobreviva ao próprio gancho. A comédia romântica de alto conceito vive ou morre conforme o mundo que constrói seja mais do que a embalagem de uma só piada, e uma premissa tão direta pode escorregar para o olhar lascivo com a mesma facilidade com que pode se tornar terna. O banco de coadjuvantes é farto o bastante para invadir o duelo a dois que sustenta o filme, e nenhum crítico viu o corte final, de modo que a pergunta sobre se a moldura distópica diz algo da intimidade contemporânea ou apenas aluga o seu formato segue em aberto. Um trailer pode prometer química; não pode prometer que doze horas de artifício se resolvam num motivo para nos importarmos.

Monica Barbaro and Callum Turner in One Night Only, 2026
Monica Barbaro in One Night Only (2026)

Em torno do casal, Gluck reuniu um elenco que se lê como uma lista de convidados do centro da cidade. Molly Ringwald aparece como Linda, mãe de Owen, com LeVar Burton como seu companheiro; Maya Hawke, Julia Fox, Este Haim, Ziwe, King Princess e Ben Marshall completam a multidão dos autorizados e dos sozinhos. O roteiro original de Braun interessou a Gluck o suficiente para que o refizesse, e ele produz pela Olive Bridge Entertainment. O resultado se posiciona como contraprogramação de pleno verão, uma comédia adulta com classificação R voltada a quem já se cansou das franquias da temporada.

A Universal Pictures lança Só Por uma Noite nos cinemas dos Estados Unidos em 7 de agosto e chega ao Brasil em 27 de agosto de 2026, com classificação R e 102 minutos de duração. O slogan promete que doze horas podem mudar tudo. Se isso é uma ameaça ou um desejo é, por ora, a coisa mais interessante que o filme guarda para si.

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