Filmes

Por que a Espanha enviou ‘A Bola Preta’, dos Javis, ao Oscar em vez de Sorogoyen e Bardem

A Academia espanhola envia 'A Bola Preta', dos Javis, ao Oscar à frente de Sorogoyen e Alauda Ruiz de Azúa: não o melhor filme do país, mas
Camille Lefèvre
Adicione-nos no Google

Uma academia de cinema nacional se revela menos no filme que ama do que no filme que decide enviar para o exterior. A escolha da Espanha por ‘La Bola Negra’ como sua candidata na categoria de melhor filme internacional do Oscar parece, à primeira vista, uma coroação de Los Javis — Javier Ambrossi e Javier Calvo, os diretores mais comentados do cinema espanhol. Olhe de novo e a decisão é algo mais frio e estratégico: não a unção do melhor filme do país, mas a seleção do mais exportável.

Los Javis construíram sua reputação na proximidade. ‘La Llamada’ e a série ‘Veneno’ os transformaram em um fenômeno doméstico, autores cuja obra era inseparável de uma conversa espanhola sobre visibilidade queer, tom, uma certa calidez vernacular. A pergunta recorrente sobre seu cinema nunca foi talento; foi viagem. Uma sensibilidade tão ligada ao seu próprio público sobreviveria à tradução? ‘La Bola Negra’ — baseada em um fragmento inacabado de Federico García Lorca e na peça ‘La piedra oscura’, de Alberto Conejero — é o primeiro filme que eles construíram explicitamente para a travessia de fronteira, e a Academia de Cine agora apostou a campanha do país ao Oscar na resposta.

YouTube video

O que a escolha revela é mais nítido no que ela recusou. A academia deixou de lado ‘El ser querido’, com Rodrigo Sorogoyen dirigindo Javier Bardem, e ‘Los domingos’, de Alauda Ruiz de Azúa — uma parceria diretor-e-estrela com peso de festival, e uma autora com prestígio próprio. Diante de uma lista final genuína, a Espanha alcançou o título que já carregava mais maquinário: um prêmio de melhor diretor em Cannes dividido com Pawel Pawlikowski, uma aquisição da Netflix vencida na guerra de lances do festival, e um elenco — Penélope Cruz, Glenn Close, o cantor Guitarricadelafuente em sua estreia no cinema — montado para ser legível longe de Madri.

Isso não é cinismo; é como a categoria realmente funciona. A corrida de melhor filme internacional recompensa força de distribuição e resistência de campanha tanto quanto mérito — um filme não visto pela maioria dos votantes viaja em sua infraestrutura. Nesse eixo, ‘La Bola Negra’ chega pré-carregado: uma ovação de vinte minutos em Cannes para citar, um streaming com orçamento de premiação para gastar, nomes de peso para o pôster. A Espanha não julgou mal o jogo. Ela o jogou bem, e cedo.

A pegadinha é aquela que nenhuma submissão pode contornar. O filme abre para o público geral só agora, e o veredito que importa — se uma sensibilidade espanhola íntima escala para uma épica que atravessa quase um século — não pode ser lido de uma ovação ou de um trailer. No teaser, os Javis prometem uma estrutura que salta entre 1932, 1937 e o presente, três homens ligados através do tempo pelo mesmo desejo e a mesma perda; se a obra final sustenta essa ambição é exatamente o que nem Cannes nem a academia nos disseram ainda. O elogio até agora é real, e também é, ainda, uma previsão.

‘La Bola Negra’ chega aos cinemas espanhóis em 25 de setembro, antes do lançamento na Netflix. A lista de indicados ao Oscar sai em 15 de dezembro, os nomeados em 21 de janeiro, e a cerimônia em 14 de março. A Espanha passou apenas pela primeira dessas portas.

A aposta é elegante precisamente porque é prematura: Los Javis estão sendo enviados ao palco mundial na promessa de que sua assinatura sobrevive à viagem. A resposta virá não de um júri em Cannes ou de um voto em Madri, mas do primeiro público estrangeiro que os encontra a frio.

Tags: , , , ,

Adicione-nos no Google

Discussão

Há 0 comentários.