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Queenpins: Kristen Bell brilha em golpe nos subúrbios

Camille Lefèvre
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A cena de abertura de Queenpins é uma aula de frustração suburbana: Connie Janikowski, personagem de Kristen Bell, vestida de pijama e tomando café, rabisca furiosamente uma carta de reclamação para a General Mills por causa de uma caixa de Wheaties amanhecidos. Simples, mas marcante, o momento sintetiza a premissa central do filme — uma dona de casa entediada levada ao limite por uma existência banal. Dirigida por Aron Gaudet e Gita Pullapilly, essa mistura de comédia e crime traz Bell ao lado de Kirby Howell-Baptiste, que interpreta JoJo Johnson, sua melhor amiga e parceira num esquema de cupons falsificados que cresce de um passatempo inofensivo a um golpe de milhões de dólares.

O ponto forte do filme está nas atuações das protagonistas. Bell, conhecida por seu papel em Veronica Mars, dá a Connie uma combinação convincente de exasperação e determinação. Ex-atleta olímpica de marcha atlética, ela agora está presa à rotina monótona da vida suburbana. Sua química com Howell-Baptiste é palpável, e a dinâmica entre as duas é o coração do filme. Howell-Baptiste, mais conhecida por seu papel em The Good Place, brilha como JoJo, uma vlogueira cujos sonhos vão muito além das circunstâncias atuais. As cenas das duas juntas — seja planejando o que fazer com cupons roubados, seja discutindo como um velho casal — são os destaques do filme.

As atuações coadjuvantes acrescentam profundidade e humor. Vince Vaughn se destaca como Simon Kilmurry, inspetor postal, combinando humor seco com uma determinação obstinada que faz de seu personagem mais do que um mero contraponto cômico. Paul Walter Hauser, conhecido por I, Tonya, tem uma atuação memorável como Ken Miller, o agente de prevenção de perdas que está no encalço da dupla. Seu empenho sincero e sua dedicação ao trabalho contrastam com o absurdo do filme. Bebe Rexha, em sua estreia como atriz, interpreta Tempe Tina, a hacker que ajuda Connie e JoJo a lavar o dinheiro, e confere à personagem uma seriedade inesperada, fazendo dela mais do que uma típica gênia da tecnologia.

No entanto, Queenpins tropeça na execução. O ritmo é irregular, e a primeira metade do filme fica atolada em explicações e preparativos. A narrativa se arrasta pelas primeiras incursões de Connie e JoJo na fraude com cupons e só ganha impulso quando elas recorrem à ajuda de Tempe Tina para lavar o dinheiro obtido ilegalmente. Essa lentidão estrutural dificulta manter o interesse, sobretudo porque o filme aposta num humor rasteiro que muitas vezes não funciona.

A trilha sonora, embora tente dar energia ao filme, parece deslocada. Muitas escolhas musicais buscam um clima excêntrico e animado, mas não complementam de forma eficaz o tom de cada cena. A fotografia é funcional, porém pouco marcante, e há poucos momentos visuais de destaque capazes de elevar o material.

Temas como o empoderamento feminino e a busca por sentido numa vida banal aparecem, ainda que de maneira superficial. A trajetória de Connie, de dona de casa ignorada a mente criminosa, toca na frustração que muitas mulheres sentem quando seu potencial não se realiza. A luta de JoJo para encontrar um emprego decente depois de ter sua identidade roubada acrescenta outra camada de comentário social. Essas questões, porém, acabam muitas vezes ofuscadas pelos elementos cômicos do filme e não são desenvolvidas a fundo.

As comparações com filmes como Ocean’s Eleven e Thelma & Louise são inevitáveis, já que a trama gira em torno de uma dupla criminosa formada por mulheres. Ainda assim, Queenpins não tem a sofisticação nem a inteligência desses clássicos. Em vez disso, aposta pesado no humor escrachado e no absurdo, o que pode agradar aos fãs de comédias rasteiras, mas deixa pouco espaço para um envolvimento mais profundo.

A recepção do público foi dividida. A crítica apontou as atuações do elenco talentoso como um dos trunfos do filme, mas muitos criticaram a narrativa irregular e a dependência de piadas fáceis. Guias para pais destacam que o filme é mais adequado a adolescentes mais velhos e adultos, por abordar crimes e conter linguagem moderada, mas alertam que talvez não agrade ao público mais jovem.

O filme se baseia na história real de Robin Ramirez, Amiko (Amy) Fountain e Marilyn Johnson, presas pela polícia de Phoenix em 2012. Na casa de Ramirez, os policiais encontraram mais de US$ 25 milhões em cupons falsificados e apreenderam bens avaliados em mais de US$ 2 milhões, incluindo 22 armas de fogo, 21 veículos e um barco de 40 pés. Essa inspiração na vida real acrescenta uma camada de intriga à premissa do filme, mas a execução não consegue dar conta de toda a dimensão da operação criminosa.

A direção de Gaudet e Pullapilly é competente, mas pouco inspirada. Os dois conseguem extrair boas atuações do elenco, mas a visão geral não tem o acabamento nem a criatividade vistos em outras comédias criminais. Os problemas de ritmo e a dependência do humor rasteiro sugerem falta de confiança no material, como se os diretores não soubessem bem como equilibrar os vários elementos do filme.

A estratégia de lançamento do filme também levanta questões. Com estreia limitada nos cinemas pela Cinemark antes de chegar à Paramount+, Queenpins parece ficar entre dois mundos. O modelo de lançamento híbrido pode ter restringido seu público potencial, já que o filme não conseguiu ganhar força significativa em nenhum dos dois espaços.

No fim das contas, Queenpins é um filme de oportunidades perdidas. Com um elenco talentoso e uma premissa propícia à sátira e ao comentário social, poderia ter sido algo especial. No entanto, o ritmo irregular, o humor rasteiro e os temas pouco desenvolvidos impedem que alcance todo o seu potencial.

Elenco

Fotos: The Movie Database (TMDB)

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