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Top Gun: Maverick é a continuação que devolve o sentido do cinema na tela grande

Joseph Kosinski (2022) filma voos reais e transforma uma história conhecida em marco do espetáculo físico.
Martha O'Hara
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Pete “Maverick” Mitchell continua sendo o piloto que não consegue obedecer a uma ordem simples. Mais de trinta anos depois de sair da escola Top Gun, o capitão interpretado por Tom Cruise é um piloto de testes condecorado, e a insubordinação o mantém longe do posto de almirante. Quando o programa Darkstar, o avião hipersônico que ele conduz, está prestes a ser cancelado, Maverick leva a aeronave à velocidade-alvo e depois não resiste a ir além de Mach 10. O protótipo se despedaça. É o tipo de decisão que define o personagem, e Top Gun: Maverick deixa isso claro nos primeiros minutos.

Dirigido por Joseph Kosinski, o filme chega 36 anos depois do Top Gun de 1986 e dá a Maverick uma nova função: instruir um grupo de formados da escola para uma missão que nenhum piloto vivo jamais cumpriu. O alvo é uma usina clandestina de enriquecimento de urânio, escondida num bunker no fim de um cânion e protegida por mísseis antiaéreos, bloqueadores de GPS, caças Su-57 e F-14 Tomcat. Como o bloqueio de GPS inviabiliza o F-35, Maverick propõe um plano com dois pares de F/A-18E/F Super Hornet armados com bombas guiadas a laser. O plano é simples de explicar, e é isso que o torna tão eficaz: o espectador entende o que pode dar errado muito antes de dar.

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O ponto mais forte do filme são as cenas aéreas. A produção rodou entre maio de 2018 e abril de 2019, na Califórnia, em Washington e em Maryland, com câmeras IMAX de 6K em formato full-frame, e a imagem tem uma nitidez que raramente se vê num filme de ação. Os dogfights são fáceis de acompanhar: sabe-se onde está cada avião e o que está em jogo em cada manobra. O Oscar de Melhor Som não surpreende. A trilha de Harold Faltermeyer e Hans Zimmer, que reúne ainda “Hold My Hand”, de Lady Gaga, sustenta o ritmo sem competir com o barulho dos motores.

Tom Cruise faz o que faz há quatro décadas e carrega o filme nas costas, com a teimosia de sempre. Miles Teller fica com o papel mais ingrato: Bradley “Rooster” Bradshaw, aluno da turma e filho do falecido melhor amigo de Maverick, vive entre a sombra do pai e a do mentor, e Teller se sai bem. Jennifer Connelly, como Penny Benjamin, dá ao filme um pouco de leveza fora da cabine. Jon Hamm, Monica Barbaro, Lewis Pullman, Glen Powell e Ed Harris ocupam espaços desiguais, e Val Kilmer aparece naquele que foi seu último papel no cinema.

Há defeitos. A trajetória da trama é previsível quase ao ponto do ridículo: o veterano rebelde que não aceita o fim da carreira, os jovens que precisam aprender a confiar nele, a missão impossível que ninguém espera ver fracassar. Com tantos personagens, vários dos pilotos mais jovens ficam reduzidos a um apelido e a uma característica, e a relação entre Maverick e Rooster, que deveria ser o centro emocional, segue um desenho conhecido. Também achei que o filme se demora nos intervalos entre as missões, e a tensão cai antes de subir de novo.

O caminho até as salas foi longo. A Paramount anunciou uma continuação em 2010. Um rascunho do roteiro ficou pronto em 2012, mas o projeto parou quando Tony Scott morreu naquele ano, e o filme é dedicado à memória dele. A produção só foi retomada em 2017, com Kosinski na direção. A estreia, marcada para 12 de julho de 2019, foi adiada pela complexidade das sequências e, depois, pela pandemia. Nesse período, vários serviços de streaming tentaram comprar o filme da Paramount, e todas as ofertas foram recusadas por ordem de Cruise, que queria lançá-lo apenas nos cinemas.

A bilheteria mundial chegou a US$ 1,5 bilhão, a segunda maior de 2022 e a maior da carreira de Cruise. A crítica recebeu bem o filme, e muitos o consideraram superior ao original. O National Board of Review e o American Film Institute o incluíram entre os dez melhores do ano, e a Academia o indicou a seis Oscars, entre eles Melhor Filme.

Quem não tem nenhum carinho pelo original vai achar o filme menos envolvente do que quem cresceu com ele. Mesmo assim, ao longo de duas horas e onze minutos, o desfecho previsível incomoda menos do que deveria, porque a história é contada com convicção e sem ironia.

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Fotos: The Movie Database (TMDB)

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