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Venom: Tempo de Carnificina é comédia de colegas de quarto escancaradamente boba e descartável

A sequência dirigida por Andy Serkis em 2021 abraça o absurdo em 90 minutos enxutos.
Martha O'Hara
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“Venom: Tempo de Carnificina” (Venom: Let There Be Carnage, 2021), dirigido por Andy Serkis, quer ser ao mesmo tempo comédia de colegas de apartamento e thriller de serial killer, e a primeira metade dessa aposta convence bem mais que a segunda. A Silver Screen Riot resume o filme como “Beetlejuice encontra The Odd Couple”. A IGN vai por outro caminho e fala de um híbrido de quadrinhos com thrillers como Seven ou Zodíaco. As duas descrições são válidas, e é justamente a distância entre elas que explica por que o resultado é tão irregular.

O ponto de partida é simples. Eddie Brock (Tom Hardy), jornalista investigativo, é chamado pelo detetive Mulligan (Stephen Graham) para conversar com Cletus Kasady (Woody Harrelson), um serial killer preso em San Quentin que só aceita falar com ele. Graças a Eddie, Cletus acaba condenado à morte por injeção letal e o convida para a própria execução. Ali, Cletus o provoca, Venom reage e Cletus morde a mão de Eddie, engolindo assim uma parte do simbionte. Quando a execução começa, um simbionte vermelho surge e bloqueia a injeção. Nasce Carnage, que atravessa a prisão libertando detentos e matando guardas. Nada disso resiste a um minuto de lógica, e o filme não pede que resista.

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O que mais rende é a convivência entre Eddie e Venom. Para a Silver Screen Riot, a dupla funciona como uma comédia de roommates: Venom só quer arrancar cabeças, enquanto Eddie impôs uma regra de “nada de assassinato” dentro de casa. A IGN acompanha o raciocínio e chama o filme, com as palavras do próprio Serkis, de uma história de amor entre Eddie e Venom. É nessa chave que surgem as melhores piadas, como o “porco-cachorro-cavalo-pato” com que Eddie descreve o simbionte, citado pela IGN. Também é nessa chave que entra a cena da cozinha, em que Venom desmonta o apartamento. A IGN a compara a algo saído de O Aprendiz de Feiticeiro, do Fantasia, e a comparação procede: o efeito digital serve a uma piada de convivência, não a um espetáculo vazio. A briga que se segue, com o simbionte decidindo deixar o corpo de Eddie porque quer mais liberdade, dá ao casal o único conflito emocional que o filme leva a sério.

Tom Hardy faz de Eddie, segundo o site The Action Elite, um perdedor simpático que precisa de Venom para dar o melhor de si, e vice-versa. Concordo, e acrescento que a graça está no fato de Hardy contracenar consigo mesmo: a IGN lembra que Venom também é Tom Hardy. A voz do simbionte continua sendo um achado, ainda que a mesma crítica admita que às vezes é difícil entender o que ele diz. Woody Harrelson, que “nunca faz corpo mole”, nas palavras do The Action Elite, quase consegue que o público simpatize com Cletus. Para a IGN, o vilão é movido por vingança e dor, o que o afasta do assassino de gibi sem motivo e lhe dá um traço humano. Naomie Harris, como Frances Barrison, a Shriek, está tão irreconhecível que o The Action Elite teve de se lembrar de que era a Moneypenny. O romance entre os dois vilões é uma curiosidade: o casal de assassinos se ama de verdade, enquanto Eddie segue sem sorte nesse departamento.

O problema é que o tom nunca se assenta. A Silver Screen Riot elogia o roteiro de Kelly Marcel por abraçar o disparate sem pudor. Já a crítica do Guardian, mais fria, chama o filme de “admiravelmente leve, mas totalmente descartável”, e é difícil discordar quando o terror e a ação ficam tão atrás da comédia. O The Action Elite chega a dizer que parte da violência parece ter sido cortada, embora o filme ainda empurre os limites da classificação, o que ajuda a entender por que o lado serial killer parece menos perigoso do que a premissa promete. Quando o filme passa da graça doméstica ao assassino em série, a transição é brusca, e o segundo registro nunca ganha o mesmo fôlego do primeiro.

A ação funciona melhor que o terror. Serkis, que trabalhou como ator de captura de movimento, dirige com atenção à presença física de Venom e Carnage, e a IGN elogia o uso combinado de efeitos práticos e digitais. O The Action Elite diz não ter nenhuma queixa dos efeitos visuais, e a trilha de Marco Beltrami, que não chega a ser memorável, ganha coros épicos no confronto final. Com 90 minutos, o filme evita o inchaço de tantos blockbusters recentes, ponto que a Silver Screen Riot e o The Action Elite destacam. A brevidade, porém, tem um custo: coadjuvantes como Anne (Michelle Williams), Dan (Reid Scott) e a Sra. Chen (Peggy Lu) são aproveitados com eficiência, como nota a IGN, mas têm pouco tempo para além de servir de ponte entre os protagonistas.

Por trás das câmeras, a continuação foi planejada ainda durante a produção do primeiro filme, dirigido por Ruben Fleischer. Serkis foi contratado em agosto de 2019, em parte por sua experiência com captura de movimento. As filmagens aconteceram nos Leavesden Studios, na Inglaterra, de novembro de 2019 a fevereiro de 2020, com cenas adicionais em San Francisco. A estreia, prevista para outubro de 2020, foi adiada várias vezes por causa da pandemia de COVID-19 e só chegou aos cinemas dos Estados Unidos em 1º de outubro de 2021. A crítica ficou dividida, mas a bilheteria foi ótima: US$ 506 milhões no mundo, sétimo maior faturamento do ano.

No fim, “Venom: Tempo de Carnificina” é um filme que se diverte com a própria bobagem, e o melhor dele é ver Hardy brigar com a criatura que mora dentro de si. Quando tenta ser algo mais sombrio, perde a graça. O Guardian elogia a leveza e, na mesma frase, chama o filme de descartável; eu concordo com os dois adjetivos. São 90 minutos que valem pela dupla e pouco mais.

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Fotos: The Movie Database (TMDB)

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