Atores

Sally Field, a atriz que ninguém deixava entrar na sala

Penelope H. Fritz
Sally Field
Sally Field
Photo via The Movie Database (TMDB)
Nascimento6 de novembro de 1946
Pasadena, California, United States
OcupaçãoAtriz
Conhecido porForrest Gump: O Contador de Histórias, O Espetacular Homem-Aranha, Uma Babá Quase Perfeita
Prêmios2 Oscar · Emmy · Cannes Festival · Kennedy Center Honor (2019) · SAG · National Medal of Arts (2014) · Globo de Ouro

Dois Oscars, três Emmys, um Kennedy Center Honor, sessenta anos de carreira. E ela ainda fala das portas que nunca abriram.

Tem dois Oscars, três Emmys, um Kennedy Center Honor, a Medalha Nacional das Artes e um prêmio honorário do sindicato dos atores, e ainda fala das salas em que nunca a deixaram entrar. A frase volta nas entrevistas como um tique que ela já não disfarça: os agentes de elenco que não a colocavam na lista, os produtores incapazes de enxergar além de um rosto de sitcom, os anos no Actors Studio porque a televisão tinha decidido o que ela era e o cinema se recusava a contradizer essa decisão. Esta semana, aos setenta e nove anos, Field encabeça um drama da Netflix cujo caminho até ela passa pelo próprio filho, e o longo argumento que a carreira dela vem fazendo há sessenta anos se responde sozinho, dentro de uma sala silenciosa que enfim controla.

Esse argumento é a biografia, mais do que os prêmios.

Cresceu em Pasadena, dentro de uma casa do showbusiness que lhe deu acesso cedo e pouco mais. Sua mãe, Margaret Field, trabalhava com regularidade como atriz no sistema de estúdios; o padrasto era o ator e dublê Jock Mahoney. A entrada na indústria estava clara; a saída do estereótipo, não. Aos dezessete anos, Field conseguiu seu primeiro papel principal como a adolescente surfista de Gidget na ABC, papel que sempre lembrou com carinho, e logo veio A Noviça Voadora, a sitcom de convento pela qual passou o resto da vida pedindo desculpa. Três temporadas de noviça flutuante fizeram o estrago que dois Oscars depois teriam de consertar.

A reinvenção começou em privado. Entre 1973 e 1975 estudou no Actors Studio com Lee Strasberg, o rito de passagem que Hollywood exigia dos intérpretes sérios da costa leste e quase de ninguém vindo da televisão da costa oeste. As cenas que preparou ali são a ponte entre as duas metades da carreira. A virada chegou como telefilme: quatro horas na NBC interpretando uma jovem com transtorno dissociativo de identidade em Sybil. O primeiro Emmy veio em seguida. Foi a atuação televisiva que finalmente convenceu os executivos de cinema a recebê-la.

Norma Rae chegou três anos depois. Direção de Martin Ritt; Field interpretava uma operária têxtil do sul que aceita organizar a fábrica em sindicato. A interpretação — construída a partir do sotaque, do corpo e de um silêncio contido que o passado de sitcom dizia que ela não conseguiria produzir — venceu o prêmio de melhor interpretação feminina em Cannes e o primeiro Oscar de melhor atriz. Veio um trabalho mais frio e cortante ao lado de Paul Newman em Ausência de Malícia, e logo o segundo Oscar por Um Lugar no Coração, o drama de Robert Benton ambientado no Texas da Grande Depressão, em que ela interpreta uma viúva que tenta colher uma plantação de algodão com um inquilino cego e um diarista negro.

Sally Field
Sally Field in Places in the Heart (1984)

O discurso de aceitação daquele segundo Oscar é o mais mal citado da história da academia, e a citação errada é a biografia. O que ela disse foi que da primeira vez não tinha sentido, que dessa vez sim, e que não podia negar o fato de a plateia gostar dela, ali, naquele momento. A frase falava da distância entre duas estatuetas — de uma atriz que tinha levado o primeiro Oscar para casa sem acreditar nele e que olhava agora para o segundo e decidia, em público, deixar-se sentir amada pela primeira vez. Os humoristas e os comerciais transformaram aquilo em “you really like me”, uma mulher vaidosa pedindo aplauso. É um dos exemplos mais limpos de como uma mulher sincera é editada ao vivo até virar caricatura. O contexto inteiro só apareceu com In Pieces, livro de memórias de 2018, em que Field revelou o longo abuso sexual cometido pelo padrasto — uma história que corria por baixo dos anos em que lutou para ser levada a sério.

Os anos noventa lhe entregaram os filmes que o público não cinéfilo associa ao nome dela: Flores de Aço, Uma Babá Quase Perfeita, Forrest Gump. Nenhum é a sua melhor atuação, e ela disse isso sem rodeios em entrevistas. Os papéis de mãe chegaram cedo demais: aos trinta e seis já fazia mãe de um Tom Hanks adulto na tela, um etarismo hollywoodiano que ela apontou em público e se recusou a transformar em lamento. A década fechou com Eye for an Eye, o projeto que diz tê-la ensinado a dirigir as próprias escolhas. Estreou como diretora de cinema com Beautiful e voltou em peso à televisão coral em Plantão Médico e Brothers & Sisters, série que lhe rendeu o terceiro Emmy.

A fase tardia é a mais variada da carreira. Interpretou Mary Todd Lincoln para Steven Spielberg em Lincoln, terceira indicação ao Oscar e um retrato que defendia Mary Todd como algo além da Primeira-Dama instável da história consensual. Fez Tia May em dois The Amazing Spider-Man, trabalho que ela admitiu ter aceitado em parte porque os netos pediram. Voltou à Broadway como Amanda Wingfield em À Margem da Vida — Tennessee Williams — e foi indicada ao Tony, depois estreou no West End como Kate Keller em Todos Eram Meus Filhos, de Arthur Miller, ao lado de Bill Pullman. Fez a superfã de Tom Brady ao lado de Jane Fonda, Lily Tomlin e Rita Moreno em 80 for Brady, e matriarcas, tias e parceiras enlutadas em Spoiler Alert, Winning Time e Dispatches from Elsewhere.

O que está na tela agora é a prova do presente. Remarkably Bright Creatures, dirigido por Olivia Newman a partir do best-seller de Shelby Van Pelt, chega à Netflix em 8 de maio. Field interpreta Tova Sullivan, uma viúva que limpa de noite um aquário no noroeste do Pacífico e termina formando uma amizade improvável com um polvo gigante dublado por Alfred Molina. O livro chegou até ela pelo filho: o roteirista Peter Craig, que codirige com o produtor Bryan Unkeless a produtora Night Owl, lhe entregou um exemplar antes da publicação. Field leu quatro capítulos e topou; a Night Owl construiu o filme em volta dela. A atriz que ninguém deixava entrar na sala agora encabeça um projeto que chegou até ela através da produtora do próprio filho. Não há moral limpa nisso, só o tempo.

Sally Field
Sally Field in Hello, My Name Is Doris (2015)

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